O Grupo Pão de Açúcar (PCAR3) fechou o terceiro trimestre de 2026 com prejuízo líquido consolidado de R$ 731 milhões. Um ano antes, o período havia rendido lucro de R$ 134 milhões. Isolando as operações continuadas, que excluem os negócios já destinados à venda ou em encerramento, o vermelho ficou em R$ 220 milhões, contra ganho de R$ 142 milhões na base de comparação.

O balanço se divide em três camadas: os itens não recorrentes que levaram o consolidado ao negativo, a evolução operacional medida pelo Ebitda e o acordo com credores, ainda ausente das demonstrações de setembro.

Provisão de R$ 467 milhões em arbitragem com a Casas Bahia explica o grosso da perda

Os negócios descontinuados responderam por R$ 511 milhões do prejuízo consolidado, sobretudo por conta de uma provisão de R$ 467 milhões ligada à arbitragem — a disputa resolvida fora da Justiça — com a Casas Bahia.

Nas operações continuadas, a base de comparação carrega uma distorção: o terceiro trimestre de 2025 abrigou crédito tributário extraordinário de R$ 418 milhões. Excluído esse item, o prejuízo teria caído 20,3% em doze meses — a perda operacional diminuiu, ainda que o resultado contábil tenha virado para o vermelho.

Ebitda ajustado sobe 16,9% e margem bruta chega a 30,7% com receita 9,6% menor

O Ebitda ajustado — lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização, métrica que isola a geração operacional — alcançou R$ 482 milhões, alta de 16,9%. A margem dessa linha subiu 2,7 ponto percentual, para 11,7%.

A margem bruta passou de 27,6% para 30,7%, combinando o enxugamento do portfólio (menos negócios de baixa rentabilidade) com ajustes na apuração do ICMS. Do lado das despesas, R$ 365 milhões já foram cortados em 2026, 88% da meta anual, com origem em redução de quadro, revisão de contratos e ganhos em tecnologia e logística.

O ponto fraco está no topo da demonstração. A receita líquida somou R$ 4,1 bilhões, recuo de 9,6%, e as vendas mesmas lojas — indicador que compara só unidades abertas há mais de um ano, para captar crescimento orgânico — caíram 1,4%, sob efeito de falhas de abastecimento e de um consumidor mais contido.

Indicador3º tri de 2026Referência
Prejuízo consolidadoR$ 731 milucro de R$ 134 mi um ano antes
Operações continuadasprejuízo de R$ 220 milucro de R$ 142 mi um ano antes
Ebitda ajustadoR$ 482 mi+16,9%
Margem Ebitda11,7%+2,7 ponto percentual
Margem bruta30,7%27,6% antes
Receita líquidaR$ 4,1 bi-9,6%
Vendas mesmas lojas-1,4%comparação anual

Margem maior com faturamento menor costuma sustentar o resultado por alguns trimestres, mas tende a perder tração quando o volume segue em queda. A reconquista da participação de mercado perdida continua como pendência declarada pela empresa — e é ela que define se o ganho de rentabilidade vira lucro recorrente ou alívio temporário.

Alavancagem projetada cai de 3,7 para 1,2 vez com a recuperação extrajudicial

A homologação da recuperação extrajudicial, em outubro, abriu o caminho para o rearranjo do passivo. Somando os efeitos do plano aos R$ 293 milhões da venda da participação na financeira FIC, direcionados à amortização da dívida, a alavancagem — relação entre dívida líquida e geração operacional — recuaria de 3,7 para 1,2 vez. Em bases pro forma, ou seja, tratando o plano como já aplicado, o endividamento líquido encolheria 67%, de R$ 3,755 bilhões para R$ 1,246 bilhão.

O acordo também estica o prazo médio da dívida de 2,1 para 6,4 anos e reduz os pagamentos previstos até 2028 de R$ 5,2 bilhões para cerca de R$ 400 milhões.

Nada disso está no balanço de setembro. Os efeitos devem entrar no quarto trimestre, conforme o diretor financeiro Pedro Albuquerque.

O que observar quando o plano entrar no balanço

  • A contabilização dos efeitos do acordo, que altera endividamento e alavancagem reportados.
  • A curva de receita líquida e de vendas mesmas lojas, hoje o elo mais fraco do resultado.
  • A conclusão da meta anual de despesas, com 88% do objetivo já capturado.

Para quem acompanha o varejo alimentar, o trimestre desloca o debate. O endividamento, tema que dominou os últimos anos, ganha um desenho de solução; a pergunta que sobra é sobre a capacidade de a operação voltar a faturar mais. Sem avanço em receita, a margem ampliada tende a se acomodar, e o lucro recorrente fica dependente de novos cortes — que têm limite.