Cerca de US$ 6,3 bilhões deixaram as carteiras da Binance na quinta-feira (29), no maior roubo já registrado no mercado de criptoativos, e a maior corretora do setor precisa agora provar que honra os saldos dos clientes sem depender apenas do próprio colchão de emergência. O fundo criado exatamente para episódios assim reúne US$ 1 bilhão, menos de um sexto do prejuízo. Com os saques bloqueados desde o dia anterior, a pergunta que domina o mercado é simples: quem paga a conta?

Um rombo concentrado em cerca de 20 minutos

A investida atingiu endereços que a exchange utiliza para custodiar ativos digitais. Segundo a investigação da TRM Labs, os invasores pulverizaram a movimentação entre Bitcoin, Ethereum, stablecoins — criptomoedas atreladas a ativos tradicionais, como o dólar — e outros tokens, distribuídos por redes distintas. A maior parte da sangria ocorreu numa janela de aproximadamente 20 minutos.

Do total, a Binance estima US$ 6,3 bilhões em perdas. Cerca de US$ 3 bilhões já foram congelados com apoio de emissores de stablecoins e de outros participantes do setor. Congelar, porém, não equivale a recuperar: os recursos bloqueados ainda não retornaram ao caixa da corretora nem foram devolvidos a quem quer que seja.

Saques travados e o prazo de 48 horas

A primeira reação da empresa foi interromper as retiradas de criptomoedas, o que na prática impediu clientes de transferir posições para corretoras rivais ou para carteiras de autocustódia enquanto a origem das movimentações suspeitas era rastreada. A medida foi apresentada como preventiva e, de acordo com a Binance, também travou a continuidade das transferências fraudulentas.

Depósitos e retiradas foram suspensos de início. Na manhã de sexta-feira (30), a empresa corrigiu a informação: os aportes seguiam funcionando normalmente, e apenas os saques permaneciam bloqueados. Em paralelo, uma revisão de segurança alcança o sistema de retiradas e os endereços usados nas operações.

O prazo divulgado para reabrir os saques começou em 48 horas e depois foi ajustado para cerca de 45 horas. Trata-se de estimativa sujeita à conclusão das verificações, não de um compromisso fechado. Richard Teng, co-CEO da Binance, sustentou que a empresa assume integralmente os prejuízos e que os clientes não perderão os valores mantidos na plataforma.

A corretora não apresentou, até aqui, data específica para restabelecer todas as funcionalidades, nem cronograma detalhado de compensações individuais. Enquanto o acesso aos fundos está restrito, mesmo quem não teve conta atacada individualmente convive com o dinheiro parado na plataforma.

O SAFU não é do tamanho da conta

O Secure Asset Fund for Users existe desde 2018 e nasceu de uma parcela das taxas de negociação cobradas pela exchange, com composição alterada ao longo dos anos. Em fevereiro de 2026, segundo informações da própria Binance, o fundo somava aproximadamente US$ 1 bilhão em criptoativos, montante que oscila conforme o mercado. A Reuters descreveu o mecanismo como uma reserva de cerca de US$ 1 bilhão em Bitcoin.

ItemValor
Prejuízo estimado no ataqueUS$ 6,3 bilhões
Ativos congelados com apoio do setor~US$ 3 bilhões
SAFU (referência de fevereiro de 2026)~US$ 1 bilhão
Reserva corporativa anunciada pela BinanceUS$ 6,34 bilhões
Já disponível nas criptos afetadas~US$ 5 bilhões
A adquirir no mercado e em OTC~US$ 1,34 bilhão
Saldo a descoberto após congelamentos~US$ 3,3 bilhões

Dois cortes mostram o descompasso. Primeiro: o ataque vale mais de seis vezes o fundo de emergência. Segundo: mesmo abatendo os US$ 3 bilhões congelados, restam aproximadamente US$ 3,3 bilhões a descoberto — ainda muito acima do SAFU.

Nada disso significa que o colchão tenha se esgotado ou que o dinheiro roubado está perdido em definitivo. A Binance não detalhou quanto será efetivamente sacado do fundo, e parte dos ativos bloqueados pode voltar. A cobertura do restante recai sobre recursos próprios da empresa, o que transforma o episódio num teste direto da sua capacidade financeira.

Carteiras de prova de reservas estavam na mira

Uma análise publicada pelo CoinDesk mostrou que parte dos endereços atacados estava entre os utilizados pela corretora para comprovar suas reservas. Em outras palavras: os criminosos não levaram apenas recursos da própria empresa, mas também ativos que compunham a estrutura de garantia dos saldos dos clientes.

O caso mais emblemático é a carteira identificada como Binance 14, listada no relatório de prova de reservas divulgado em 1º de outubro. Naquele momento, o endereço guardava perto de 89,5 mil ETH e US$ 1,26 bilhão em USDT, além de outras moedas. O CoinDesk calculou que cerca de 204,5 mil ETH deixaram carteiras da Binance durante o ataque — fatia próxima de 5,6% das reservas de Ethereum informadas antes do episódio.

Como a corretora declarava cobertura de exatamente 100% para os saldos de Ethereum dos clientes em 1º de outubro, o roubo derrubaria essa relação para algo perto de 94% caso os ativos não fossem repostos. O cálculo usa dados anteriores ao ataque e não representa uma medição atualizada das reservas.

Na prática, quem tem Ethereum na Binance não perdeu 6% do saldo. O que a conta indica é uma redução temporária dos ativos que lastreiam esses valores até a reposição ser concluída — e é aí que a promessa de cobertura integral ganha peso.

Como a exchange pretende recompor o caixa

A Binance afirma ter reservado mais de US$ 6,34 bilhões em recursos corporativos, acima da estimativa de perda. Desse total, cerca de US$ 5 bilhões já estariam disponíveis nas mesmas criptomoedas atingidas; os US$ 1,34 bilhão restantes estão sendo adquiridos no mercado e em operações de balcão (OTC) — negociações fechadas diretamente entre as partes, fora dos livros de ofertas das exchanges.

A própria empresa ressalva que a recompra pode demorar mais em moedas de liquidez baixa. Os aproximadamente US$ 3 bilhões congelados com ajuda de terceiros não entram nessa conta de US$ 6,34 bilhões.

O que o investidor deve acompanhar

O próximo relatório mensal de prova de reservas está previsto para 1º de novembro, embora a publicação possa sair depois. O documento é a peça-chave para verificar se a cobertura dos saldos foi restabelecida, sobretudo nas moedas mais afetadas. A Binance prometeu também um novo atestado de reservas após concluir os procedimentos de segurança e a recomposição dos ativos.

Para quem opera no Brasil, o episódio lembra que manter cripto em corretora é uma decisão de contraparte, não apenas de tese de investimento. Deixar ativos numa exchange significa confiar a um terceiro a guarda do patrimônio, e esse risco não desaparece pelo fato de a plataforma ser a maior do mercado — a suspensão de saques é o lembrete mais concreto disso. Carteiras de autocustódia devolvem o controle ao investidor, ao custo de transferir a ele a responsabilidade por chaves e segurança.

Dois sinais objetivos merecem monitoramento: a reabertura efetiva das retiradas e o próximo atestado de reservas. Sem esses dados verificáveis, o compromisso de cobrir todas as perdas permanece uma declaração da própria empresa.