O maior roubo já registrado no mercado de criptomoedas esvaziou US$ 6,3 bilhões de contas ligadas à Binance em pelo menos quatro blockchains diferentes, na tarde da última quinta-feira. O dado que a dimensão do assalto ofusca é outro: US$ 2,3 bilhões ficaram bloqueados em menos de meia hora, por ação das duas emissoras de dólar digital mais usadas do setor. Para quem trata esse saldo como caixa disponível 24 horas, o episódio revela que existe um segundo ponto de controle sobre o dinheiro — e ele não é a corretora.
As stablecoins — tokens lastreados em dólar, usados para liquidar operações sem passar pelo sistema bancário — foram o elo que permitiu reagir rapidamente. Congelar, nesse mercado, significa travar os tokens no registro da blockchain: o valor continua existindo, mas ninguém consegue movimentá-lo. Foi o que Tether e Circle fizeram enquanto os invasores ainda drenavam carteiras.
Em 30 minutos, US$ 2,3 bilhões saíram do alcance dos invasores
| Momento | O que aconteceu |
|---|---|
| Quinta, logo após as 16h (Nova York) | Ataque é deflagrado |
| 16h30 em NY / 0h30 em Abu Dhabi | Yi He vê relatos no X |
| 16h38 | Taylor Monahan aciona a Tether |
| 17h15 | Binance fala em possível problema de segurança |
| 17h18 | Circle anuncia bloqueio de mais de US$ 800 milhões |
| 7 minutos depois | Tether anuncia bloqueio de mais de US$ 1,5 bilhão |
A sequência, em horário de Nova York, começou dias antes: os invasores rodaram trechos de código em contas da Binance no Ethereum movimentando poucos dólares por vez, na descrição de analistas de cibersegurança — um ensaio para calibrar o programa que tomaria o controle dos endereços.
Às 16h38, a pesquisadora Taylor Monahan, que atua em Los Angeles pela organização sem fins lucrativos SEAL, procurou a Tether. Ela estava em um grupo de investigadores quando uma mensagem da empresa de segurança zeroShadow sinalizou transações estranhas. A emissora não reconheceu de imediato que houvesse invasão, mas iniciou o processo de bloqueio em menos de 30 minutos, movimento seguido pela Circle, dona do USDC.
Às 17h15, a Binance admitiu publicamente um possível problema de segurança. Três minutos depois, o CEO da Circle, Jeremy Allaire, informou o bloqueio de mais de US$ 800 milhões ligados a um potencial exploit contra a exchange.
A madrugada de Yi He e a força-tarefa de 100 pessoas
Yi He, cofundadora e co-diretora executiva da Binance, estava em casa, em Abu Dhabi, quando percebeu que algo havia saído do trilho. Grávida de sete meses, tinha deixado o escritório e navegava pelo X antes de dormir, por volta de 0h30 no horário local — 16h30 em Nova York. As postagens a fizeram voltar aos sistemas da empresa, onde as equipes de segurança e de carteira já atuavam. Esses times têm autonomia para agir em incidentes sem esperar aval da diretoria.
Em poucos minutos, a exchange montou a estrutura que ficou conhecida como sala de guerra, que chegou a cerca de 100 pessoas espalhadas por vários fusos. Yi e centenas de funcionários viraram a noite coordenando a resposta interna, o contato com outras empresas do setor e o diálogo com autoridades americanas, entre elas o FBI e o Serviço Secreto.
Do lado de fora, a mensagem era de tranquilidade: a Binance sustentou que tinha caixa para cobrir eventuais perdas. Nos bastidores, funcionários demonstravam dúvida sobre o pagamento de bônus neste ano, segundo pessoas a par das conversas. Procurada, a empresa afirmou por meio de um porta-voz que também não projeta impacto nesse ponto.
Na sexta-feira, Yi e o co-CEO Richard Teng lidaram com o desgaste de imagem. Em vídeo publicado no X, falando em mandarim, ela prometeu manter a cooperação com as autoridades na busca pelos responsáveis, e a companhia se comprometeu a reembolsar quem teve fundos perdidos.
O risco que não fica na exchange
A camada que falhou não foi a das chaves dos clientes. O código usado pelos atacantes deu acesso a contas em blockchain que pertenciam à Binance e permitiu esvaziá-las enquanto os sistemas da exchange seguiam reabastecendo esses endereços — ou seja, o problema estava na infraestrutura que abastece a operação, não no bolso do usuário. É uma distinção relevante: quem delega a custódia (a guarda da chave que dá acesso ao ativo) a uma corretora depende de controles internos que o cliente não vê nem audita.
O segundo deslocamento é sobre as stablecoins. Elas costumam ser tratadas como equivalente de caixa: o investidor assume que USDT e USDC valem um dólar e podem ser movidos a qualquer hora, inclusive fora do horário bancário. O bloqueio de US$ 2,3 bilhões em menos de 30 minutos mostra que existe um intermediário com poder de travar saldo — rápido, coordenado e sem consulta ao dono da conta. Em episódios de estresse, esse poder tende a ser lido como proteção; na rotina, é um fator de risco de contraparte que raramente entra na conta do investidor pessoa física.
No Brasil, a Binance afirmou que os ativos de clientes seguem segregados, como exige o Banco Central, mas manteve os saques suspensos e não informou data de retomada das retiradas.
Três ataques e uma escala que subiu durante o dia
A recorrência é parte do problema. Um mês antes, a Bitget perdeu US$ 388 milhões em ataque semelhante. Em fevereiro de 2025, a Bybit teve quase US$ 1,5 bilhão desviados. O assalto da semana passada, porém, ficou em outra ordem de grandeza — e as estimativas ainda cresceram ao longo do dia: falava-se em mais de US$ 6 bilhões no início, número depois revisado para US$ 6,3 bilhões, à medida que os hackers seguiam drenando fundos mesmo após o caso ganhar repercussão.
Coreia do Norte e o momento político nos EUA
Três empresas de inteligência de blockchain — TRM Labs, Chainalysis e Elliptic — apontaram a Coreia do Norte como responsável. O indício: fundos retirados da Binance se misturando a criptomoedas apreendidas no ataque à Bitget, que investigadores já atribuíam à República Popular Democrática da Coreia. A Chainalysis classificou o caso como o maior roubo da história do setor e um dos maiores crimes financeiros já registrados.
A identificação chega em um momento ruim para a narrativa de adoção. A administração Trump vem pressionando pela difusão de cripto e de blockchain, inclusive por meio de seus reguladores, e em setembro a SEC aprovou regra que permite negociar ações de companhias abertas em blockchains. Um roubo desse tamanho tende a alimentar o argumento de que a infraestrutura ainda não está pronta para receber o dinheiro institucional — e é esse teste de confiança, mais do que o valor em si, que o setor precisa responder.
Concorrentes ilesos e traders de olho na queda
Kraken, Coinbase e Bybit, concorrentes diretas, correram às redes sociais para afirmar que não foram afetadas. Enquanto isso, parte dos operadores tentava transformar a turbulência em resultado. Morten Christensen, trader que também mantém o site AirdropAlert.com, lucrou dezenas de milhares de dólares na quinta-feira ao apostar na queda dos preços, a partir de uma chamada no Discord com seis amigos, no México. Odysseas Lamtzidis, fundador da Phylax Systems, acompanhava as transferências de um avião entre Nova York e Miami e usava o X para alertar usuários sobre o avanço dos atacantes.
O calendário de quem observa o setor de fora passa por três pontos: a retomada dos saques, a consolidação das estimativas de perda e a reação dos reguladores americanos. Histórico de bloqueios rápidos como o da última quinta-feira tende a reforçar a percepção de que stablecoin é infraestrutura com regras próprias — não dinheiro parado em uma conta qualquer.
