A HIX Capital deixou o varejo e o consumo doméstico fora das novas posições na B3 (B3SA3) e concentrou a tese em empresas de receita previsível, cujo lucro avança sem depender do ritmo da atividade econômica interna. A meta declarada pelo fundador e gestor Rodrigo Heilberg é multiplicar o capital por três até 2030, comprando companhias por volta de 5 vezes o lucro estimado para aquele ano — o que implica olhar resultados de 2028 e 2029, não o lucro corrente.

A justificativa está na ponta do consumidor, não no preço das ações. O crédito vem se deteriorando na margem, e o comprometimento da renda das famílias reduz o poder de compra inclusive de quem ganha mais. Para quem acompanha ações de consumo, a variável que a gestora coloca à frente da receita das companhias é a folga financeira do cliente final.

Um terço dos executivos da Cury sem renda para comprar imóvel

Um episódio relatado por Heilberg resume o argumento. Em conversa recente com executivos da Cury, ele ouviu que um terço do time executivo da construtora não tinha renda disponível para adquirir um apartamento, porque o grupo estava comprometido no consignado privado — a modalidade de empréstimo com desconto em folha contratada fora do setor público.

A alavancagem excessiva, nessa avaliação, corrói a demanda por bens de maior valor unitário antes de aparecer nos números de vendas. O efeito prático para o investidor é de ordem temporal: o balanço do consumidor tende a se deteriorar antes de a receita das varejistas e construtoras sentir o impacto, o que torna o acompanhamento do crédito uma etapa anterior à leitura do faturamento trimestral.

Mercado de capitais responde por 10% da carteira

Para perseguir a meta sem depender da recuperação do consumo, a gestora mantém cerca de 10% da carteira em nomes do mercado de capitais, com BTG Pactual (BPAC11) e XP entre os destaques. A lógica é que a migração do investidor para produtos de rentabilidade maior e a retomada de operações financeiras sustentam o avanço do lucro dessas casas.

Heilberg acrescenta que a plataforma com mais produtos — fundos, renda variável e não apenas o CDB do banco tradicional — dá à instituição mais recursos para atender o cliente que sai de aplicações de margem baixa, como a LCI (letra de crédito imobiliário), em direção a alternativas de margem maior. É uma troca de mix que aparece no resultado da casa antes de aparecer no bolso do cliente.

Nubank: ROXO34 na carteira e expansão fora do Brasil

A carteira também mantém posição em Nubank (ROXO34), classificado pelo gestor como a instituição mais rentável do setor no país. A tese combina dois ingredientes: o avanço no México e nos Estados Unidos e múltiplos considerados atrativos em relação ao lucro futuro da companhia.

AtivoArgumento que sustenta a posição
BPAC11 (BTG Pactual)Migração do investidor para produtos de maior margem e retomada de operações financeiras
XPMesma tese de mix de produtos e ganho de participação dentro do mercado de capitais
ROXO34 (Nubank)Rentabilidade do setor somada à expansão internacional no México e nos EUA

O que a leitura da HIX sinaliza para quem tem consumo na carteira

A decisão da gestora não trata de uma empresa específica, e sim da ordem de leitura dos resultados. Em ciclos de endividamento elevado das famílias, o crédito costuma se antecipar ao crescimento de receita: a demanda por bens de maior valor tende a ceder antes de aparecer no volume de vendas, e a dependência de financiamento alonga o prazo de conversão em caixa.

A contrapartida apontada na fala do gestor é que o dinheiro que sai do consumo não desaparece do sistema financeiro — ele tende a migrar para aplicações e para o mercado de capitais, movimento que a HIX tenta capturar em BTG, XP e Nubank. Trata-se de uma aposta na realocação setorial do capital, e não numa antecipação do ciclo econômico: a meta de 2030 só faz sentido se essas companhias entregarem lucro crescente mesmo com a atividade interna fraca.

Para quem tem exposição a varejo e consumo, o monitoramento relevante deixa de ser apenas a receita comparável de cada rede e passa a incluir o custo e a disponibilidade de crédito ao cliente final. Historicamente, ambientes de crédito em deterioração costumam comprimir a margem de quem vende a prazo e reduzem a conversão de renda em consumo discricionário — o que ajuda a explicar por que uma gestora com horizonte até 2030 preferiu trocar o risco do consumo doméstico pelo do mercado de capitais.