A Inteligência Artificial (IA) deixa de ser um vetor restrito ao setor de tecnologia para se consolidar como a principal alavanca de modernização da economia real. Segundo Gustavo Montezano, CEO da YvY Capital e ex-presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), a integração de algoritmos avançados, machine learning (aprendizado de máquina, ramo da IA que utiliza dados para otimizar processos sem programação manual explícita) e automação possui capacidade técnica para eliminar gargalos históricos da infraestrutura nacional. A projeção do executivo indica que essa convergência tecnológica pode comprimir o ciclo de preparação de grandes empreendimentos em janelas estratégicas de até três anos, ampliando a produtividade das equipes técnicas a patamares que permitem estruturar N vezes mais projetos mantendo o mesmo quadro de profissionais.
Compressão de Cronogramas e Eficiência Técnica
Durante sua participação no programa O Clima na Faria Lima, apresentado por Marina Cançado, Montezano destacou que a IA atua diretamente nas fases críticas de desenvolvimento, abrangendo desde a engenharia conceitual até a modelagem financeira (processo de construção de projeções numéricas detalhadas para avaliar a viabilidade econômica de um empreendimento). Tradicionalmente, megaprojetos consumem múltiplos anos entre a concepção e o início das obras, devido à complexidade na elaboração de estudos técnicos, obtenção de licenciamento ambiental e estruturação de financiamentos por dívida. A tecnologia, entretanto, promete acelerar drasticamente essas etapas. “A tecnologia vai comprimir globalmente o tempo de preparação desses projetos”, afirma o executivo. A redução do ciclo de desenvolvimento não apenas antecipa o início da operação dos ativos, mas também diminui a exposição aos riscos regulatórios e macroeconômicos inerentes a longos prazos de maturação.
Vantagem Competitiva para Economias de Juro Elevado
O impacto da IA apresenta assimetrias geográficas relevantes. Na visão de Montezano, economias emergentes como o Brasil tendem a capturar benefícios proporcionais superiores aos observados em nações desenvolvidas. O mecanismo de transmissão ocorre via custo do capital. “Onde tem juro alto, você encurtou a duration, o ganho é muito maior do que onde tem juro baixo”, explica o ex-presidente do BNDES. A duration (duração ou prazo médio de um fluxo de caixa descontado) funciona como um multiplicador de sensibilidade às taxas de juros; em ambientes de financiamento oneroso, cada trimestre poupado na fase de planejamento se traduz em uma redução substancial do custo financeiro total. Consequentemente, mercados com taxas de captação elevadas e menor disponibilidade de recursos longos absorvem o valor gerado pela aceleração tecnológica de forma muito mais intensa.
Qualidade Estrutural e Superação do Déficit de Mão de Obra
Além da velocidade, a IA eleva a precisão técnica. A aplicação de sistemas inteligentes na fase pré-operacional mitiga falhas de engenharia e inconsistências na modelagem de riscos, elevando a previsibilidade dos fluxos de caixa e aumentando a atratividade para investidores institucionais. Esse efeito é potencializado em regiões que enfrentam escassez estrutural de profissionais qualificados. “Um mesmo cérebro vai produzir N vezes mais projetos do que produz hoje”, complementa Montezano. A escalabilidade do conhecimento técnico permite que o mercado brasileiro supere um dos maiores entraves à expansão da malha logística, energética e de saneamento: a limitação física de especialistas para desenhar e licitar ativos simultaneamente. “O impacto tecnológico da inteligência artificial na pré-infraestrutura vai ser muito maior em regiões de juro alto, baixa educação e escassez de capital humano do que em regiões desenvolvidas”.
Reposicionamento da Infraestrutura na Nova Economia
A convergência tecnológica coincide com uma reavaliação global da importância de ativos físicos. O Brasil enfrenta um déficit histórico de investimentos em rodovias, portos, armazenagem e mobilidade urbana, cenário que se torna uma janela de oportunidade quando a IA viabiliza economicamente projetos antes considerados inviáveis. “A gente vai ter capacidade de processar e colocar ativos em mercados que nunca vimos na história”, ressalta. A próxima década deve ser caracterizada pela interseção entre inovação algorítmica e ativos reais, impulsionada por demandas transversais como a construção de data centers (infraestrutura dedicada ao processamento e armazenamento de dados), segurança alimentar, transição energética e reconfiguração de cadeias produtivas globais.
O que isso significa para o investidor
Para o investidor pessoa física que monitora a B3 e o mercado de crédito privado, essa dinâmica altera o cálculo de retorno ajustado ao risco. A compressão do ciclo de desenvolvimento reduz o custo de oportunidade do capital, tornando projetos de infraestrutura mais resilientes em cenários de volatilidade da Selic e de aperto monetário global. No cenário base, empresas de engenharia, concessionárias e fundos de infraestrutura que incorporam essas ferramentas tendem a apresentar margens operacionais mais estáveis e cronogramas de entrega menos suscetíveis a atrasos. Em um cenário otimista, a destrava de ativos antes inviáveis pode gerar novas fontes de receita e ampliar o universo de ativos negociáveis, favorecendo a liquidez do setor. Em contrapartida, um cenário pessimista envolve a persistência de travas regulatórias ou a falha na adaptação corporativa, limitando a transferência da eficiência algorítmica para o caixa operacional.
Riscos e Pontos de Atenção
- Lacuna de Execução Corporativa: A adaptação estratégica exige investimentos em capex (despesas de capital) tecnológico e requalificação de quadros, o que pode pressionar margens no curto prazo antes de gerar sinergias.
- Maturação Regulatória: O ritmo de aprovação de novas modelagens por agências reguladoras pode não acompanhar a velocidade de processamento da IA, criando um gargalo burocrático persistente.
- Volatilidade Macroeconômica: A sensibilidade à duration mencionada pelo executivo implica que flutuações bruscas na curva de juros podem diluir parcialmente os ganhos de eficiência se o custo de captação subir abruptamente durante a fase de construção.
Perspectiva e Próximos Passos
O horizonte de avaliação recomendado pelo executivo desloca o foco do resultado trimestral para a construção de cenários de médio e longo prazo. “Quem pensar em três anos e enxergar a disrupção que a gente está tendo em tudo isso pode ter muitos dividendos”, afirma Montezano. Os próximos trimestres devem revelar quais companhias estão alocando capital em plataformas de IA aplicadas à engenharia e à modelagem financeira, separando os operadores que meramente anunciam a adoção tecnológica daqueles que efetivamente convertem a ferramenta em aceleração de portfólio e materialização de ativos reais.
As informações deste editorial foram produzidas pela redação do Ativo Virtual com base em reportagem publicada pelo(a) InfoMoney. Este conteúdo tem caráter exclusivamente informativo e não constitui recomendação de investimento. Decisões financeiras devem ser tomadas com o auxílio de um profissional certificado.
