O Ibovespa encerrou março com perda de 0,7%, pressionado por aversão ao risco global decorrente do conflito envolvendo Estados Unidos, Israel e Irã, que se prolongou por mais de quatro semanas, apesar de ganho robusto de 2,71% na última sessão do mês, apoiado em sinais de possível distensão no Oriente Médio.

Maiores quedas no Ibovespa em março

Seis papéis registraram desvalorizações superiores a 15% no período: CSN (CSNA3, -24,82%), MRV (MRVE3, -21,38%), Embraer (EMBJ3, -17,17%), Direcional (DIRR3, -16,88%), Minerva (BEEF3, -16,67%) e Vivara (VIVA3, -15,96%). No acumulado do trimestre, Hapvida (HAPV3, -30,63%) liderou as perdas, seguida por CSN (-27,24%).

CSN: endividamento e passos para reorganização

As units da CSN (CSNA3) sofreram forte recuo em março, impulsionado por preocupações com a alavancagem financeira, parcialmente mitigadas ao longo do mês. Após divulgação de resultados em 12 de março, os papéis caíram mais de 14% em um dia. A dívida líquida alcançou R$ 41,2 bilhões, elevação de 10% em relação ao trimestre anterior, devido principalmente a fluxo de caixa livre negativo, pagamentos antecipados, impactos cambiais e maior endividamento em operações como MRS.

Para reforçar a liquidez, a companhia captou empréstimo-ponte de US$ 1,2 bilhão (expansível a US$ 1,4 bilhão) com bancos de primeira linha, prazo de cinco anos e remuneração de SOFR + 6% ao ano — taxa de referência para empréstimos em dólares nos EUA. Essa estrutura serve de transição para refinanciamentos, enquanto avança plano de desinvestimentos visando R$ 15 bilhões a R$ 18 bilhões com alienação de participações em CSN Cimentos e CSN Infraestrutura, potencializando redução estrutural da alavancagem em 2026.

A operação sinaliza confiança na execução da companhia. O foco agora recai sobre a agilidade nos desinvestimentos, chave para converter alívio imediato em equilíbrio sustentável, conforme Rafael Bellas, Head de Alocação da InvestSmart X.

Construtoras MRV e Direcional sob pressão de juros

MRV (MRVE3) e Direcional (DIRR3) enfrentaram impactos negativos de resultados e elevação nos juros futuros, sensíveis ao ciclo doméstico. Na MRV, o balanço inicial do mês mostrou indicadores operacionais favoráveis e conclusão do processo de turnaround (reestruturação operacional), com lucro líquido consolidado de R$ 117 milhões — abaixo das projeções do JPMorgan, mas alinhado ao consenso de mercado. O CFO Ricardo Paixão destacou a finalização dessa fase, mas analistas mantêm cautela; JPMorgan preserva recomendação overweight (posição acima da média do portfólio, similar a inclinação para compra), citando recuperação nos lucros principais, mas pressão consolidada.

Na Direcional, resultados do quarto trimestre de 2024 exibiram crescimento anual de 34% no lucro por ação (LPA — indicador de rentabilidade por papel), embora consumo de caixa superasse expectativas, segundo o BBA. A alta nos juros futuros agravou o cenário para o setor imobiliário.

Embraer: conflitos e carteira de pedidos em xeque

Embraer (EMBJ3) acumulou perda de 17,17%, afetada por balanço e tensões no Oriente Médio, que elevam custos de combustível e ameaçam o setor aeroespacial. Em 12 de março, queda de 11,01%, após recuo de cerca de 8% pós-resultados três dias antes. Preocupação central: possível atraso ou cancelamento em carteira de US$ 31,6 bilhões, com US$ 14,5 bilhões ou 459 aeronaves em aviação comercial, devido a petróleo caro.

Goldman Sachs enfatiza posição competitiva, crescimento estável e melhoria no retorno sobre capital, vendo o papel atrativo apesar da volatilidade. Um pedido bilionário da Finnair impulsionou alta posterior, insuficiente para saldo positivo mensal.

Minerva: ciclo pecuário adverso e riscos climáticos

Minerva (BEEF3) estendeu quedas, com desvalorização de 16,67% em março e cerca de 40% desde dezembro de 2024 (contra alta de 10% no Ibovespa). Fatores: valorização do real e fase descendente do ciclo pecuário. Preço do boi gordo 18% acima de há um ano, superando R$ 350 por arroba no cenário-base do Santander, questionando custos futuros, sem sinais de retenção de fêmeas — indicador de início de ciclo ascendente.

Risco adicional: El Niño intenso no segundo semestre de 2026, com chuvas excessivas no Sul e seca no Centro-Oeste/Norte, onde 57% da capacidade de abate da Minerva se concentra (excluindo Argentina, Uruguai, Paraguai e Sul do Brasil). Cada R$ 15 extras por arroba pode subtrair R$ 800 milhões do EBITDA (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização). No doméstico, sensibilidade a preços limita repasses. Alívios potenciais: exportações fortes ou câmbio fraco. Santander adota neutro, preço-alvo R$ 6,80.

Maiores altas: petroleiras impulsionadas pelo petróleo

Oito ações superaram 10% de ganho: Petrobras ON (PETR3, +20,58%), PN (PETR4, +18,33%), Natura (NATU3, +16,13%), PRIO (PRIO3, +15,59%), Eneva (ENEV3, +15,32%), SLC Agrícola (SLCE3, +12,44%), Ultrapar (UGPA3, +10,85%) e PetroRecôncavo (RECV3, +10,21%). No trimestre, petroleiras dominam: PETR3 (+66,90%), PRIO3 (+58,55%), PETR4 (+58,48%), NATU3 (+45%).

TickerRetorno Trimestral (%)
PETR3+66,90
PRIO3+58,55
PETR4+58,48
NATU3+45

Petroleiras PRIO e Petrobras: sensíveis ao barril

Avanço recorde do petróleo, ligado à guerra no Irã, favoreceu PRIO (PRIO3), vista como principal beneficiada por analistas de Bradesco BBI, Morgan Stanley e XP, graças a hedge (proteção contratual contra oscilações de preços) menor e alta sensibilidade ao Brent spot (cotação à vista do petróleo). Desenvolvimento do campo Wahoo, Bacia de Campos, com dois campos produtores, agregou valor. Queda no último pregão, com alívio no conflito, tirou a liderança mensal, após alta de 85% em três meses.

Morgan Stanley ajustou de overweight para equalweight (alinhado à média, neutro), elevando preço-alvo de R$ 58,50 para R$ 68, por valuation esticado. Prefere PETR4 e Vista argentina; Petrobras destaca-se como exportadora líquida de 1 milhão de barris/dia, com caixa extra para desalavancagem, projetos rentáveis e possíveis dividendos extraordinários até 2027, apesar de dúvidas sobre reajustes domésticos. Outras: RECV3 e Brava (BRAV3, +7,30%).

Natura: EBITDA forte e entrada estratégica de investidor

NATU3 avançou 16,13% com resultados do quarto trimestre (outubro-dezembro 2024): EBITDA recorrente de R$ 978 milhões, alta de 57,2% ante ano anterior, apesar de queda de 12% no faturamento e cortes acima de 20% em despesas operacionais e de vendas — superando expectativa média de R$ 741 milhões (LSEG). XP destacou controle de custos em meio a macro fraco no Brasil/Argentina e pressões cambiais na América Latina Hispânica.

No fim do mês, acordo com Advent International para aquisição de até 10% do capital (mínimo 8%) no secundário, a R$ 9,75 médio, em até seis meses. Acionistas como fundadores e fundo Lotus participam; Advent indicará dois conselheiros. Bradesco BBI vê reforço em governança e execução.

Entrada da Advent pode elevar senso de ownership, melhorando eficiência e retornos a longo prazo.

Eneva: destaque no leilão de capacidade

Eneva (ENEV3) ganhou 15,32% após leilão de reserva de capacidade (LRCAP). Contratou 5,0 GW1,5 GW existentes e 3,5 GW novas termelétricas —, superando expectativas. Capex projetado de R$ 18,2 bilhões entre 2026 e 2031, com adição de até R$ 18 bilhões em valor presente líquido (NPV — métrica descontada de fluxos futuros) via minoritários em Jandaia, Norte Fluminense e Presidente Kennedy. XP confirma como grande vencedora, acima do base de 2 GW recontratados e 2,5 GW novos, com opções de sócios ( 30% Jandaia 2/3, 49% outros).

O que isso significa para o investidor

Para o investidor pessoa física brasileiro intermediário a avançado, março ilustra volatilidade setorial em contexto de choques geopolíticos e macro doméstico. Petroleiras capturaram upside do petróleo, mas quedas recentes no último pregão sinalizam sensibilidade a desescaladas. Construtoras e siderúrgicas sofrem com Selic elevada e juros futuros longos, correlacionados à economia interna; agro e health evidenciam ciclos e riscos climáticos. Trimestralmente, contrastes aguçam: ganhos expressivos em óleo vs perdas em health e aço.

Cenário otimista envolve resolução rápida do conflito, estabilizando energia e aliviando juros; pessimista prolonga tensões, elevando inflação via commodities e pressionando B3. Monitorar câmbio (real forte machuca exportadores como Minerva) e IPCA, com impacto em valuations. Empresas com desalavancagem (CSN, Petrobras) ou governança aprimorada (Natura, Eneva) podem resilir melhor em rota de Selic descendente pós-2025.

Riscos destacados

  • Geopolíticos: Prolongamento da guerra no Irã sustenta petróleo, mas ameaça aviação (Embraer) e cadeias globais.
  • Alavancagem: CSN com dívida R$ 41,2 bi; execução de desinvestimentos crítica.
  • Ciclo pecuário: Minerva enfrenta custos altos de arroba, sem retenção de fêmeas, agravado por El Niño 2026 afetando 57% capacidade.
  • Juros e macro: Alta em futuros pressiona construtoras (MRV, DIRR) e setores cíclicos domésticos.
  • Consumo caixa/turnaround: Direcional e MRV demandam vigilância operacional.
  • Carteira pedidos: Embraer vulnerável a cancelamentos por combustível caro.
  • Valuation esticado: PRIO após +85% em 3 meses, ajustada por Morgan Stanley.

Perspectiva adiante concentra em balanços de abril, execução de desinvestimentos CSN, retenção pecuária Minerva, reajustes Petrobras e capex Eneva com sócios. Acompanhar evolução do conflito Oriente Médio, reuniões Copom para Selic e leilões energéticos; para petroleiras, Brent spot e hedges; trimestre impulsiona foco em desalavancagem e dividendos extraordinários Petrobras até 2027.

As informações deste editorial foram produzidas pela redação do Ativo Virtual com base em reportagem publicada pelo(a) InfoMoney. Este conteúdo tem caráter exclusivamente informativo e não constitui recomendação de investimento. Decisões financeiras devem ser tomadas com o auxílio de um profissional certificado.