A expectativa de descompressão geopolítica no Oriente Médio e os ajustes nas projeções macroeconômicas do mercado dominam a sessão desta segunda-feira (25), com o Ibovespa futuro renovando patamares acima de 180 mil pontos e o dólar comercial recuando para a casa dos R$ 5,00. A combinação de sinais diplomáticos entre Washington e Teerã, a queda expressiva nos preços do barril e a estabilidade da taxa Selic nas projeções do Relatório Focus configura um ambiente de apetite por risco seletivo, enquanto o crédito doméstico apresenta deterioração em indicadores de inadimplência. Investidores monitoram de perto a curva de juros futuros, que opera em queda generalizada, e a divulgação do Relatório de Estabilidade Financeira pelo Banco Central, que sinaliza aumento na materialização de riscos nas carteiras de crédito às famílias.

Cenário Macroeconômico e Projeções do Relatório Focus

O Relatório Focus, pesquisa semanal do Banco Central que compila as expectativas do mercado financeiro, trouxe ajustes relevantes para o horizonte brasileiro. O mercado elevou a projeção para o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo, principal termômetro oficial da inflação) em 2026, de 4,92% para 5,04%, refletindo a persistência de pressões inflacionárias estruturais e o impacto de commodities. Para 2027, a estimativa subiu marginalmente de 4,00% para 4,01%, mantendo-se em 3,65% para 2028 e 3,50% para 2029.

Na frente de atividade, o PIB (Produto Interno Bruto) teve sua projeção para 2026 revisada para cima, passando de 1,85% para 1,89%. Contudo, o otimismo de curto prazo não se sustenta no médio prazo, com a estimativa para 2027 caindo de 1,77% para 1,70%. Para 2028 e 2029, a expectativa permanece estável em 2,00% em ambos os anos, indicando uma normalização gradual do ciclo econômico.

Em relação à política monetária, as expectativas para a taxa Selic (Sistema Especial de Liquidação e de Custódia, a taxa básica de juros da economia) permaneceram inalteradas em todos os horizontes avaliados. O mercado projeta a taxa em 13,25% ao final de 2026, 11,25% em 2027, e 10,00% tanto para 2028 quanto para 2029. A estabilidade nas projeções de juros reforça o consenso de que o Comitê de Política Monetária (Copom) manterá uma postura cautelosa diante do cenário de preços e fiscal.

Para o câmbio, o mercado reduziu as projeções de dólar comercial para os próximos anos. A expectativa para 2026 caiu de R$ 5,20 para R$ 5,17. Para 2027, a previsão ajustou-se de R$ 5,27 para R$ 5,26; para 2028, de R$ 5,34 para R$ 5,30; e para 2029 mantém-se em R$ 5,40, sem alterações em relação à divulgação anterior. Essa leve desvalorização cambial projetada dialoga com a maior aversão ao risco global em cenários de tensão e com os diferenciais de juros ainda favoráveis aos ativos em reais.

Indicador Projeção Atual Projeção Anterior Variação
IPCA 2026 5,04% 4,92% +0,12 p.p.
IPCA 2027 4,01% 4,00% +0,01 p.p.
PIB 2026 1,89% 1,85% +0,04 p.p.
PIB 2027 1,70% 1,77% -0,07 p.p.
Selic 2026 13,25% 13,25% Estável
Dólar 2026 R$ 5,17 R$ 5,20 -R$ 0,03

Curva de Juros Futuros e Política Monetária Internacional

O mercado de derivativos de taxa de juros apresentou queda generalizada na curva de DI (Depósitos Interfinanceiros, contratos que refletem as expectativas para a taxa média de captação dos bancos), abrindo o dia com recuos expressivos em todos os vencimentos analisados. A descompressão nos juros futuros acompanha o alívio nas tensões externas e a estabilidade nas expectativas domésticas de política monetária. As taxas registraram as seguintes movimentações:

Contrato (Vencimento) Taxa (%) Variação (p.p.)
DI1F27 (Jan/2027) 14,020% -0,095
DI1F28 (Jan/2028) 13,725% -0,160
DI1F29 (Jan/2029) 13,715% -0,180
DI1F31 (Jan/2031) 13,835% -0,165
DI1F32 (Jan/2032) 13,900% -0,160
DI1F33 (Jan/2033) 13,930% -0,155
DI1F35 (Jan/2035) 13,935% -0,150

No cenário internacional, autoridades do Banco Central Europeu (BCE) sinalizaram prudência. Yiannis Stournaras, dirigente da instituição, alertou que a política monetária na zona do euro poderá exigir um ajuste mais restritivo caso a inflação ultrapasse a meta de 2% de forma temporária, mas significativa. O membro do conselho destacou que o fechamento do Estreito de Ormuz elevou os preços de petróleo e gás natural, com potenciais efeitos de segunda rodada sobre salários e custos de bens e serviços.

“No caso de uma ultrapassagem significativa, porém temporária, da meta de inflação, a resposta deve ser equilibrada; um ajuste cauteloso da política monetária em uma direção mais restritiva, capaz de limitar a intensidade dos efeitos secundários, sem, no entanto, prejudicar a atividade econômica de forma desproporcional”, afirmou Stournaras.
Nos Estados Unidos, o CME FedWatch (ferramenta que mapeia as probabilidades de decisão do Federal Reserve com base em contratos de futuros de Fed Funds) aponta 98,1% de chance de manutenção da taxa de juros na reunião de 17 de junho, consolidando o intervalo entre 3,75% e 4,00% como cenário base, enquanto as probabilidades para cortes em datas posteriores refletem expectativas de normalização gradual.

Geopolítica, Commodities e Fluxos Internacionais

A dinâmica do petróleo continua sendo o principal vetor de volatilidade global. Após declarações de autoridades dos Estados Unidos e do Irã minimizando a possibilidade de um acordo iminente, mas reconhecendo avanços nas negociações, os contratos futuros do barril operam em forte baixa. O secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, afirmou em Nova Délhi que Washington dará à diplomacia todas as chances antes de explorar alternativas, reforçando que o tempo favorece a posição americana. O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Irã, Esmaeil Baghaei, confirmou a existência de um memorando de entendimento com 14 pontos focado no fim da guerra e no desbloqueio do Estreito de Ormuz, embora tenha ressaltado que um acordo formal ainda não está próximo. O presidente Donald Trump, por sua vez, orientou sua equipe a não se apressar, declarando que a estrutura para reabertura da via marítima foi “negociada em grande parte”.

A reação dos preços das commodities foi imediata:

  • Petróleo WTI recua 5,92%, cotado a US$ 90,88 por barril.
  • Petróleo Brent opera com queda de 5,91%, a US$ 97,42 por barril.
  • Minério de ferro na bolsa de Dalian avança marginalmente 0,06%, atingindo 793 iuanes (equivalente a US$ 116,71).

Os mercados internacionais acompanharam o alívio de risco. Na Ásia, o Nikkei (Japão) ultrapassou pela primeira vez os 65.000 pontos, fechando com alta de 2,87%. O Shanghai SE (China) avançou 0,96% e o Nifty 50 (Índia) subiu 1,06%. Hong Kong permaneceu fechado por feriado. Na Europa, os índices operam em máximas de mais de dois meses: DAX (Alemanha) sobe 1,46%, CAC 40 (França) avança 1,56%, STOXX 600 registra +0,86%, FTSE MIB (Itália) ganha 1,09% e FTSE 100 (Reino Unido) opera com modesto +0,22%. Nos Estados Unidos, os mercados à vista estão fechados pelo Memorial Day, mas os contratos futuros de Dow Jones (+0,86%), S&P 500 (+0,94%) e Nasdaq (+1,39%) indicam abertura positiva, enquanto o índice dólar (DXY) recua 0,29%, a 98,95 pontos.

Indicadores de Inflação e Confiança Doméstica

O IPC-S (Índice de Preços ao Consumidor Semanal, calculado pela FGV para acompanhar a evolução de preços no curto prazo) registrou alta de 0,65% na terceira quadrissemana de maio de 2026. No acumulado dos últimos 12 meses, a variação atinge 4,16%, mantendo a trajetória de pressão sobre os preços de bens e serviços. Paralelamente, a confiança dos consumidores apresentou recuo. O ICC (Índice de Confiança do Consumidor), medido pelo FGV IBRE, caiu 0,3 ponto em maio, atingindo 88,8 pontos após dois meses consecutivos de alta. Apesar do movimento mensal, a média móvel trimestral do indicador ainda avançou 0,9 ponto, sugerindo que a percepção de longo prazo sobre a economia mantém certa resiliência, embora o consumo corrente enfrente restrições orçamentárias.

Estabilidade Financeira e Crédito às Famílias

O Banco Central do Brasil divulgou seu Relatório de Estabilidade Financeira, apontando aumento na materialização de riscos no crédito concedido às famílias. Os ativos problemáticos (empréstimos com atraso ou probabilidade elevada de calote) cresceram em todas as modalidades de crédito a pessoas físicas. A inadimplência segue como o principal vetor de deterioração, persistindo mesmo em um cenário hipotético onde as práticas de baixa a prejuízo (reconhecimento contábil de perdas esperadas) das instituições financeiras não tivessem se alterado em 2025.

“Prospectivamente, as estimativas de probabilidade de default indicam que a trajetória de alta deve permanecer para a maioria das modalidades”, destacou o BC.
No crédito corporativo, as probabilidades de inadimplência mantiveram tendência de queda em todas as faixas de porte, porém patamares ainda elevados. A instituição reiterou que a desaceleração do crédito avança em linha com a moderação do crescimento econômico. Sinais de propensão ao risco persistem no mercado, mas as instituições financeiras continuam a reduzir o apetite por operações alavancadas.

Movimentações Corporativas e Day Trade

O pregão da B3 registrou movimentos corporativos estratégicos e ajustes técnicos em ativos específicos. A Neogrid (NGRD3) comunicou que a Dalpe Gestão realizará uma OPA (Oferta Pública de Aquisição) para cancelar o registro de companhia aberta, pagando R$ 33,82 por ação. A RD Saúde aprovou a aquisição de 66,67% do capital da Stix Fidelidade e Inteligência (Stix) por R$ 23,0 milhões, sendo R$ 2,3 milhões pagos como sinal e R$ 20,7 milhões no fechamento, o que lhe conferirá 100% do controle da operação. A Sabesp (SBSP3) recebeu aval do Cade (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) para adquirir a Sanessol, concessionária dos serviços de água e esgoto de Mirassol (SP). A Dasa reorganizou suas operações no Rio de Janeiro, integrando as 11 unidades da marca Lâmina às redes Sérgio Franco, CDPI, Bronstein e Alta Diagnósticos, visando capilarização e acesso a exames de alta complexidade.

No mercado à vista e de derivativos, o mini-índice (WINM26, contrato futuro baseado no Ibovespa com vencimento em junho de 2026) abriu com alta de 0,95%, a 179.370 pontos, enquanto o minidólar (WDOM26, contrato futuro de dólar americano) recuou 0,63%, cotado a 5.019,50. O dólar futuro caiu 0,60% para 5.019,50 pontos. O Bitcoin Futuro (BITFUT) iniciou a sessão com ganhos expressivos de 2,92%, alcançando 388.500,00. No segmento de combustíveis, a diferença entre os preços praticados no Brasil e a paridade internacional ampliou. O diesel S10 (média nacional) opera 40% abaixo da paridade, com desconto de R$ 1,45 (ante -38%/-R$ 1,38 na sexta). A gasolina A registra diferença de 70%, ou R$ 1,77 (ante -66%/-R$ 1,67). A Petrobras manteve os últimos reajustes da gasolina há 119 dias e do diesel há 73 dias. Na análise técnica, o IFR (Índice de Força Relativa, oscilador que mede a velocidade e magnitude de movimentos de preço para identificar condições de sobrecompra ou sobrevenda) sinaliza euforia na Usiminas e coloca a Raia Drogasil em região de sobrevenda, atraindo atenção de operadores de curto prazo.

O que isso significa para o investidor

A convergência de fatores externos e internos exige uma leitura multifatorial para a alocação de recursos. A descompressão nos preços do petróleo e a queda generalizada na curva de DI favorecem ativos de renda fixa prefixados e atrelados à inflação, uma vez que a expectativa de manutenção da Selic em patamares elevados, somada ao recuo dos juros futuros, pode valorizar títulos existentes na carteira. A estabilidade do dólar nas projeções de longo prazo, aliada à leve desvalorização projetada para 2026 (R$ 5,17), indica que o hedge cambial permanece estratégico, mas sem urgência de recomposição imediata. O recuo da confiança do consumidor para 88,8 pontos e a deterioração nos indicadores de crédito familiar reforçam a tese de cautela no varejo e no consumo discricionário, setores sensíveis ao poder de compra e à disponibilidade de financiamento. A manutenção do foco em empresas com balanços sólidos, geração de caixa previsível e exposição limitada ao endividamento de curto prazo se mostra defensivamente coerente. A volatilidade geopolítica, embora amenizada pelas negociações no Oriente Médio, segue como vetor de risco latente que pode alterar rapidamente a dinâmica de commodities e a curva de juros.

Riscos em Evidência

  • Risco Geopolítico Residual: A falta de um acordo formal entre EUA e Irã mantém a possibilidade de interrupções no Estreito de Ormuz, o que elevaria abruptamente os prêmios de risco em petróleo e inflação global.
  • Deterioração do Crédito Doméstico: O aumento da materialização de risco nas carteiras de crédito às famílias e a trajetória de alta projetada nas probabilidades de default pressionam a lucratividade de instituições financeiras e podem levar a uma maior provisão para devedores duvidosos.
  • Inflação de Segunda Rodada: O alerta do BCE e a persistência do IPC-S em patamares elevados reforçam a possibilidade de repasses de custos para a cadeia de serviços, dificultando o ciclo de queda de juros reais.
  • Desaceleração Econômica Projetada: A revisão para baixo do PIB de 2027 (1,70%) sinaliza que o ciclo de expansão atual não é sustentável sem ajustes estruturais, impactando receitas corporativas de médio prazo.

Perspectiva e Próximos Passos

O calendário macroeconômico e corporativo das próximas sessões será crucial para validar as teses de mercado. A coletiva do presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, e do diretor de Fiscalização, Ailton De Aquino, às 11h, trará detalhes sobre o Relatório de Estabilidade Financeira e poderá oferecer pistas sobre a tolerância da autoridade monetária ao atual patamar de inadimplência. Simultaneamente, a presença do ministro da Fazenda, Dario Durigan, no lançamento do 5º Leilão do Eco Invest Brasil às 10h30 indicará o ritmo de captação e a atratividade de ativos verdes para investidores estrangeiros. A abertura dos mercados americanos após o feriado, combinada com a divulgação de dados de consumo e a evolução das negociações diplomáticas no Oriente Médio, servirão como catalisadores para a definição de tendência na B3. O investidor deve acompanhar a reação dos contratos de DI à frente fiscal e a sustentabilidade da queda nos futuros de petróleo, fatores que ditarão a direção dos fluxos entre renda fixa e variável nas próximas semanas.

As informações deste editorial foram produzidas pela redação do Ativo Virtual com base em reportagem publicada pelo(a) InfoMoney. Este conteúdo tem caráter exclusivamente informativo e não constitui recomendação de investimento. Decisões financeiras devem ser tomadas com o auxílio de um profissional certificado.