O Dilema Macroeconômico: Alívio Externo vs. Ruído Fiscal

O Ibovespa (Índice Bovespa, principal termômetro da bolsa brasileira) voltou a perder forças nesta quinta-feira (13), operando com queda de 0,51% aos 166.643 pontos. A oscilação intraday, que variou entre a mínima de 166.197 pontos e a máxima de 168.515 pontos, expõe a fragilidade do apetite por risco doméstico. O pregão foi marcado pela repercussão de nova bateria de resultados corporativos e pelo foco antecipado nas eleições, que ofuscou qualquer otimismo vindo de fora.

Mais cedo, os dados de inflação nos EUA chegaram a animar o mercado. Os números do CPI (Consumer Price Index, índice que mede a inflação ao consumidor) e do PPI (Producer Price Index, focado na inflação ao produtor) reforçaram a percepção de que o Federal Reserve (Fed, banco central americano) pode manter a taxa de juros no nível atual, situada entre 3,5% e 3,75%, nas próximas reuniões. Essa leitura reduz a probabilidade de aperto monetário já em setembro. Para Kevin Oliveira, sócio e advisor da Blue3, esse cenário melhora o ambiente para emergentes e dá conforto ao Copom (Comitê de Política Monetária) para seguir no ciclo de cortes da Selic (taxa básica de juros), projetando alta de juros nos EUA apenas em dezembro.

Contudo, a euforia externa esbarrou na realidade local. O petróleo, pressionado pelo impasse no Oriente Médio, estoques elevados e menor demanda, recuou cerca de 1%. O barril do tipo Brent operava em baixa de 1,11% a US$ 87,99, enquanto o S&P 500 subia 0,45%. A divergência entre as bolsas americanas e a brasileira sinaliza que o prêmio de risco doméstico está exigindo um desconto maior dos investidores.

A Sombra Eleitoral e o Arcabouço Fiscal

O mercado passou a precificar com mais peso o cenário eleitoral. A preocupação com o discurso dos candidatos à presidência — o atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), que busca a reeleição, e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) — gera dúvidas sobre a manutenção de um novo desenho fiscal para o país. Bruno Perri, economista-chefe e sócio-fundador da Forum Investimentos, destaca que o mercado busca sinais de recuperação do arcabouço fiscal, um gatilho para a bolsa, mas que não deve ocorrer no curto prazo por não ser um tema popular em ano eleitoral.

No fronte dos dados econômicos locais, as vendas no varejo cresceram 0,45% em junho na comparação com maio, e 2,9% ante o mesmo período de 2025. Apesar da resiliência do consumo, o entendimento é de que há um processo de desaceleração da atividade econômica. Esse movimento reforça as apostas de nova queda de 0,25 ponto porcentual na Selic, levando a taxa para 13,75%.

Raio-X dos Balanços: A Seletividade Acirrada

A temporada de resultados do segundo trimestre ditou o ritmo das ações, com vencedores e perdedores claros. A disparidade entre os setores mostra que a análise individualizada de cada empresa é mais crucial do que nunca para o investidor.

EmpresaTickerResultado do 2TVariação da Ação
HapvidaHAPV3R$ 12,5 milhões-23,38%
MRV&COMRVE3R$ 73,8 milhões10,95%
Rede D'OrRDOR3R$ 1,3 bilhão5,94%
UltraparUGPA3R$ 1,7 bilhão2,98%
SabespSBSP3R$ 1,46 bilhão-7,70%

O Tombo do Setor de Saúde e a Pressão do Agronegócio

O setor de saúde e o crédito rural foram os grandes pontos de tensão. A Hapvida (HAPV3) desabou 23,38% em meio ao tombo de 95,8% no lucro do segundo trimestre ante igual intervalo de 2025, atingindo apenas R$ 12,5 milhões, em resultado marcado também por aumento do endividamento. O Banco do Brasil (BBAS3) caía 3,68% mesmo com lucro acima do esperado, pois a inadimplência continuou pressionada, principalmente nos segmentos agro e pessoa física. O banco reiterou suas previsões para o ano, afirmando esperar melhora nas provisões do agronegócio apoiada pelo programa de reestruturação de dívidas do setor rural. A Minerva (BEEF3) também sentiu o peso, caindo 5,47% após lucrar R$ 197 milhões, queda de 57% na base anual.

Saneamento, Siderurgia e a Dicótoma dos Investimentos

No saneamento, a Sabesp (SBSP3) estava entre as maiores pressões negativas, recuando 7,7% após reportar lucro líquido de R$ 1,46 bilhão no segundo trimestre, resultado 31,4% abaixo do obtido um ano antes. A empresa corre para concluir investimentos bilionários e atender metas de universalização em São Paulo até 2029. Na siderurgia, a CSN (CSNA3) subia 2,78% em meio à análise do prejuízo líquido de R$ 773,1 milhões no segundo trimestre, ante prejuízo de R$ 130,4 milhões no ano passado. A CSN Mineração (CMIN3) recuava 5,18%. A Azzas 2154 (AZZA3) perdia 3,97% após mostrar queda de 62,5% no lucro, para R$ 107 milhões, com receita líquida recorrente caindo 8,2%.

Alavancagem Operacional e Recuperação de Margens

Em contrapartida, empresas com reestruturação de passivos ou recuperação de margens brilharam. A MRV&CO (MRVE3) avançava 10,95%, tendo no radar lucro líquido ajustado de R$ 73,8 milhões no segundo trimestre, quando excluídos impairments (baixas contábeis por perda de valor) dos ativos da Resia. A companhia afirmou que as transações de venda de ativos devem reduzir a dívida líquida consolidada para cerca de R$ 4,6 bilhões, em comparação com a dívida de R$ 5,9 bilhões registrada no trimestre. A Cogna (COGN3) subia 4,43% na esteira do lucro líquido ajustado de R$ 210,2 milhões, alta de 18%, com destaque para a educação básica. A Rumo (RAIL3) registrava elevação de 4,09% após divulgar lucro líquido ajustado de R$ 688 milhões, resultado 5,8% abaixo do obtido um ano antes, mas acima do esperado. A Ultrapar (UGPA3) ganhava 2,98% em meio à alta de 46% no lucro líquido, para R$ 1,7 bilhão, impulsionada pelo combate ao comércio ilegal de combustíveis. Por fim, a Rede D’Or (RDOR3) era um contrapeso positivo, valorizando-se 5,94% com lucro líquido ajustado de R$ 1,3 bilhão no segundo trimestre de 2026, valor 8,5% superior ao visto no mesmo período do ano anterior.