O Ibovespa encerrou o pregão de segunda-feira (21) com alta de 0,74%, aos 186.595,60 pontos, depois de superar a marca dos 187 mil e tocar 187.434,25 pontos na máxima. A mínima ficou em 185.246,81 pontos e o giro financeiro somou R$ 27,79 bilhões.

O dado isolado não explica o movimento. A bolsa brasileira subiu porque o ambiente externo abriu espaço para risco: o S&P 500 avançou 1,49%, impulsionado por papéis ligados a inteligência artificial, o rendimento do Treasury de 10 anos, papel do Tesouro norte-americano, recuou a 4,953% (de 4,996% na sexta-feira) e o Brent caiu 3,4%, a US$ 100,34.

Uma alta de três vetores — e nenhum nasce no Brasil

O primeiro vetor é o alívio nos juros longos dos Estados Unidos, que historicamente costuma destravar apetite por risco em mercados emergentes. O segundo é o petróleo mais barato, que tende a aliviar pressões inflacionárias. O terceiro é eleitoral.

Na avaliação de Bruno Perri, economista-chefe e sócio-fundador da Forum Investimentos, o recuo do barril — ainda que a cotação siga em patamar elevado — melhora o humor externo ao favorecer perspectivas mais positivas para a inflação e para a curva de juros, com reflexos no apetite a risco. A consequência para quem acompanha a B3 é direta: o índice segue respondendo mais ao humor internacional do que a fundamentos domésticos, e é esse fio que precisa ser monitorado.

Pesquisas eleitorais: o que o mercado precifica antes de qualquer definição

A nova pesquisa BTG/Nexus mostrou que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) diminuiu a vantagem sobre o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) no primeiro turno e segue numericamente à frente no segundo turno por 1 ponto percentual, com os dois ainda em empate técnico. Outro levantamento, assinado pela Quaest, estava previsto para a mesma sessão.

A disputa apertada, com melhora mais visível no desempenho de Flávio nas sondagens, tem alimentado apostas de troca de poder em Brasília. Segundo Perri, a possibilidade de vitória do senador endossa expectativas fiscais melhores. Levantamentos eleitorais tendem a mover preços em janelas curtas e com volatilidade alta: cada nova rodada reposiciona expectativas antes de qualquer definição concreta.

Focus aponta Selic a 13,50% no fim de 2026 e mantém o juro alto no cenário

O boletim Focus, que reúne projeções de economistas ouvidos pelo Banco Central, passou a indicar a Selic em 13,50% ao ano no encerramento de 2026, contra 13,75% estimados na semana anterior. O relatório também trouxe ajustes nas projeções de crescimento da economia e de inflação para este ano. Um juro básico menor à frente alivia o custo do dinheiro, mas o patamar projetado segue restritivo — e sustenta a concorrência da renda fixa com a bolsa.

Fluxo estrangeiro: saída no dia 17 corta o saldo de setembro

Dados da B3 registraram saída líquida de capital estrangeiro das ações brasileiras no dia 17, e o saldo positivo de setembro recuou para R$ 5,597 bilhões, vindo de R$ 6,287 bilhões apurados até o dia 16. O investidor externo é historicamente um dos principais combustíveis dos ralis da bolsa brasileira. Uma saída líquida em um dia de exterior favorável sugere que a compra do pregão veio de outras mãos — e que a alta tem base internacional menor do que o índice sugere.

BB Seguridade derrapa com dados da Susep enquanto privados avançam

BBSE3 recuou 2,55%, após analistas do Citi destacarem números da Susep, a autarquia que fiscaliza o setor de seguros, mostrando que o lucro líquido de julho caiu 19% na comparação anual, reflexo parcial de resultados financeiros mais fracos da BrasilPrev, além de recuo de 40% nos prêmios do segmento rural, sinal de demanda mais fraca depois do novo Plano Safra.

A maioria dos bancos do Ibovespa fechou no azul: BPAC11 +3,42%, ITUB4 +1,77%, SANB11 +1,53% e BBDC4 +0,94%. A exceção foi BBAS3, com baixa de 0,91%, tendo os números operacionais da BB Seguridade na mira. O Bank of America afirmou que segue seletivo com bancos na América Latina, mantendo o Itaú entre as preferências no Brasil e cautela em relação ao Banco do Brasil.

Petróleo mais barato pressiona Petrobras; minério estável segura Vale

PETR4 cedeu 1,03% em mais uma sessão de queda do petróleo, com o Brent encerrando a US$ 100,34 (-3,4%) enquanto o mercado digere a expectativa de progresso diplomático na crise envolvendo o Irã. A estatal saudita Saudi Aramco carregou cerca de 14 milhões de barris de óleo bruto em sete superpetroleiros no domingo, segundo a apuração. A campanha exploratória da Petrobras em poços vizinhos a Morpho, destinada a delimitar a descoberta e obter mais informações, deve começar apenas no ano que vem.

VALE3 recuou 1,12%, acompanhando a estabilidade dos futuros de minério na China, com a referência para outubro em Cingapura a US$ 97,2 por tonelada. No setor, CSNA3 saltou 6,5%, o melhor desempenho do dia entre mineradoras e siderúrgicas após duas quedas seguidas — a última delas de 6,4% na sexta-feira. USIM5 subiu 0,14% e GGBR4 avançou 0,71%.

Sensíveis a juros: o alívio dos DIs vem de fora

CEAB3 avançou 6,6% em um pregão favorável a papéis sensíveis a juros, amparado pelo alívio das taxas dos DIs — contratos futuros que servem de referência para o custo do dinheiro. O segmento de consumo da B3, medido por seu índice setorial, avançou 1,9%. O contraste com o Focus merece atenção: o juro projetado para 2026 segue alto, e o alívio do dia veio de fora, dos Treasuries. Movimentos apoiados nesse tipo de fio tendem a durar menos do que os sustentados por fundamentos locais.

AtivoVariaçãoVetor do dia
PETR4-1,03%Brent a US$ 100,34, com queda de 3,4%
VALE3-1,12%minério estável a US$ 97,2 por tonelada
CSNA3+6,5%recuperação após duas quedas seguidas
CEAB3+6,6%alívio das taxas dos DIs
USIM5+0,14%siderurgia sem direção única
GGBR4+0,71%acompanha o desempenho do setor

Ficam no radar dos próximos pregões a divulgação do levantamento Quaest sobre a corrida presidencial, a continuidade ou não do fluxo estrangeiro negativo na B3 e a trajetória do petróleo e dos rendimentos do Treasury — os três fios que explicam boa parte do movimento descrito na apuração desta segunda-feira.