Dois pregões separam a bolsa brasileira das urnas

Faltam dois pregões na B3 até as eleições de 2026, e o Ibovespa atravessa essa reta final em território positivo: o índice fechou setembro aos 186.340,46 pontos, alta de 5,03% no mês, depois de recuar 0,33% em agosto. O contraste vem de fora. O EWZ — iShares MSCI Brazil, o principal ETF brasileiro negociado em Nova York — recua 0,99% nesta quinta-feira (1º), cotado a US$ 36,88. ETF é um fundo que replica um índice e tem suas cotas negociadas em bolsa; no caso do EWZ, ele funciona como termômetro da bolsa brasileira para quem opera em moeda estrangeira.

O descasamento entre a bolsa em reais e o termômetro em dólar

A alta de setembro veio com a retomada do fluxo estrangeiro, conforme a fonte que embasa este editorial. Na manhã desta quinta-feira (1º), o EWZ caminha na direção oposta e escancara uma divisão de humor entre quem opera aqui dentro e quem acessa o Brasil pelo mercado americano. As duas leituras convivem sem contradição: medem a mesma bolsa em moedas e horários diferentes, e reagem a públicos distintos.

Avanço de 5,03% no Ibovespa e recuo de 0,99% no ETF não apontam para desalinhamento de fundamentos, mas de posicionamento. O índice local foi empurrado pela volta do capital externo ao longo do mês; o próprio veículo usado por boa parte desse capital, o EWZ, é quem abre o dia no vermelho. Quando o investidor de fora reduz exposição às vésperas de uma eleição, o primeiro lugar em que isso costuma aparecer é justamente na cota do ETF.

No mês passado, o dólar à vista cedeu 0,10% sobre o real e encerrou a última sessão a R$ 5,1750 — variação pequena, mas relevante para quem converte o retorno da bolsa brasileira para outra moeda. Esse detalhe ajuda a explicar por que o mesmo conjunto de ações pode render de formas distintas conforme a régua usada.

Para quem tem exposição à renda variável brasileira, o ponto central é o calendário: a alta de setembro foi construída antes de o mercado saber o resultado das urnas. Nas duas sessões que restam, a agenda política tende a ditar o ritmo com mais força que os balanços das companhias listadas. Em janelas eleitorais, o mercado costuma alternar euforia e aversão ao risco com poucas horas de intervalo, e os fluxos estrangeiros são historicamente os primeiros a mudar de direção.

Palanque da noite: Flow Podcast às 20h50 e debate às 21h20

Nesta quinta-feira (1º), dois eventos concentram a atenção doméstica: a divulgação da pesquisa Datafolha e o último debate entre os presidenciáveis, promovido pela TV Globo. Luiz Inácio Lula da Silva (PT) não estará no palco — o presidente concede entrevista ao Flow Podcast às 20h50. A partir das 21h20, horário de Brasília, devem se apresentar Flávio Bolsonaro (PL), Romeu Zema (Novo), Ronaldo Caiado (PSD) e Augusto Cury (Avante).

Agenda do dia: PMIs, leilão de títulos e payroll na sexta

A manhã também é densa em indicadores de atividade. O PMI — índice de gerentes de compras, usado como termômetro da indústria — sai na Alemanha (04:55), na Zona do Euro (05:00), no Brasil (10:00) e nos Estados Unidos (10:45). No front doméstico, o calendário traz o IPC-S da quarta quadrissemana de setembro e o Índice de Confiança Empresarial, ambos às 08:00, além do leilão de NTN-F e LTN, títulos públicos federais, às 11:30.

  • 06:00 — taxa de desemprego de agosto na Zona do Euro
  • 09:30 — pedidos de auxílio-desemprego de setembro nos EUA
  • 11:00 — ISM industrial de setembro e gastos com construção de agosto nos EUA
  • 19:45 — discurso de Lorie Logan, do Fed de Dallas
  • 20:30 — CPI e taxa de desemprego do Japão

A China celebra o Dia Nacional, feriado que deixa as bolsas de Xangai e Hong Kong sem negociação. Na sexta-feira (2), o payroll — relatório oficial de emprego dos Estados Unidos e indicador mais aguardado da semana — cai no último pregão antes da votação, o que concentra risco de agenda no fim de uma semana já curta.

Brent acima de US$ 100 e criptomoedas em leve alta

O petróleo sustenta o tom positivo das commodities nesta manhã: o Brent avança 2,43%, a US$ 100,41 o barril, e o WTI sobe 1,95%, a US$ 92,18. O ouro marca +0,11%, a US$ 4.191,10 por onça-troy. No mercado cripto, o bitcoin ganha 0,9%, a US$ 83.607,21, e o ethereum, 0,8%, a US$ 2.685,21.

AtivoVariaçãoCotação
Brent+2,43%US$ 100,41
WTI+1,95%US$ 92,18
Ouro+0,11%US$ 4.191,10
Bitcoin+0,9%US$ 83.607,21
Ethereum+0,8%US$ 2.685,21

Ásia fecha em alta, Europa cede e futuros de Nova York mistos

PraçaÍndiceVariação
TóquioNikkei+3,43%
Hong KongHang Seng+0,37%
XangaiXangai+0,31%
LondresFTSE 100-1,59%
FrankfurtDAX-0,67%
ParisCAC 40-0,96%
Nova York (futuro)Nasdaq+0,56%
Nova York (futuro)S&P 500+0,21%
Nova York (futuro)Dow Jones-0,18%

Os mercados asiáticos encerraram o dia em alta, com o Nikkei à frente. Na Europa, a abertura foi negativa nas três principais praças. Em Nova York, os futuros operam sem direção única, com Nasdaq e S&P 500 no campo positivo e o Dow Jones levemente no negativo.

Os dois vetores que definem as próximas duas sessões

Com dois pregões restantes, dois vetores definem o humor do mercado brasileiro: o que sair das pesquisas e do debate desta quinta-feira (1º) e o payroll de sexta-feira (2), que chega na última sessão antes do pleito. A diferença de sinal entre o Ibovespa e o EWZ indica que o investidor estrangeiro chegou à véspera da eleição com postura mais defensiva que o mercado local — e é esse fluxo que costuma determinar a intensidade dos movimentos.

A consequência prática para quem acompanha a bolsa aparece em dois lugares: na volatilidade, que tende a ser maior em dias de evento político, e no custo de se posicionar, já que oscilações mais largas encarecem a proteção de carteira. Nenhum desses fatores altera o quadro de preços por si só, mas juntos explicam por que uma semana de apenas dois pregões pode concentrar mais oscilação que um mês inteiro de setembro.

O dado da noite ainda pendente é a pesquisa Datafolha, cuja leitura o mercado absorve já na abertura de sexta-feira (2), junto com o payroll. Entre os dois eventos, a sessão desta quinta-feira (1º) deve ser de ajuste fino, com liquidez mais concentrada nas horas próximas ao debate.