O Banco do Brasil iniciou nesta quarta-feira as renegociações do programa de reestruturação de dívidas do setor rural, mirando um volume de até R$ 100 bilhões que envolve cerca de 113 mil clientes potencialmente elegíveis. A operação, ancorada na Medida Provisória (MP) 1.376, publicada pelo governo federal no mês passado, representa um movimento de contenção de danos para a maior carteira de crédito agrícola do país, que enfrenta um ciclo prolongado de estresse financeiro entre os produtores de grãos.
O salto da inadimplência e o alívio nas provisões
A movimentação do BB busca alterar a trajetória de calotes no segmento, que deteriorou rapidamente as contas do banco. A inadimplência acima de 90 dias — índice que mede contratos em atraso por mais de três meses — na carteira agro da instituição atingiu 6,27% no segundo trimestre, um salto expressivo ante os 3,16% registrados um ano antes e os 6,22% do trimestre imediatamente anterior.
Para o investidor que acompanha as instituições financeiras, esse cenário exige atenção. O aumento do calote obriga o banco a elevar suas provisões, o valor que a instituição precisa reservar em seu balanço para cobrir potenciais perdas com créditos que podem não ser pagos. A leitura de mercado é que a MP 1.376 atua como um catalisador para a regularização desses contratos estressados, o que tende a mitigar novas altas nas provisões nos próximos trimestres.
O mecanismo da MP 1.376 e o ruído macroeconômico
Publicada no mês passado, a medida provisória cria linhas especiais de crédito voltadas para a composição de dívidas rurais. O público-alvo abrange produtores e cooperativas que acumularam perdas decorrentes de eventos climáticos adversos ou de descompassos de mercado em duas ou mais safras consecutivas, no período entre 2019 e 2025.
Gilson Bittencourt, vice-presidente de Agronegócios e Agricultura Familiar do BB, reforçou que o mecanismo oferece uma oportunidade para restabelecer as condições financeiras de quem sofreu com ciclos sucessivos de quebras. Segundo o executivo, a norma deve acelerar a regularização das operações estressadas e colaborar para a retomada dos índices de pontualidade no campo.
O ambiente macroeconômico, contudo, traz ruídos paralelos. Relatórios como o do UBS alertam que falas recentes de Gabriel Galípolo, presidente do BC, sobre medidas contra o endividamento podem elevar a incerteza e pressionar os bancos. Simultaneamente, o Tesouro anunciou mudanças no plano de financiamento da dívida, após uma autoridade da pasta afirmar no mês passado que uma revisão seria necessária.
Pressão na margem e o ciclo da safra 2026/27
O resgate dessas dívidas ocorre em uma janela crítica para o agronegócio nacional. Os produtores de grãos, que concentraram o maior volume de estresse financeiro recente, já iniciam os preparativos para o plantio da safra 2026/27 de soja e milho.
As expectativas para a oleaginosa, principal commodity do setor, indicam que a área plantada no ciclo 2026/27 deve ficar praticamente estável. O comportamento reflete uma mudança de chave na estratégia do campo: após anos de expansão agressiva, o setor agora lida com margens de lucro comprimidas, endividamento represado e um custo de crédito mais restrito e oneroso. A renegociação facilitada pelo governo federal surge, portanto, como uma tábua de salvação para garantir o custeio e a manutenção da atividade produtiva nos próximos meses.
