As taxas da dívida pública federal recuaram de forma generalizada no mercado secundário e no Tesouro Direto nesta quarta-feira (26), motivadas pelo IPCA-15 (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo 15) de agosto, que registrou deflação de 0,40%. O resultado superou a expectativa de queda de 0,30% projetada pela Reuters, acumulando alta de 4,24% em 12 meses, abaixo da projeção de 4,34%.
O motor da deflação e o viés de cautela
O principal vetor desse alívio foi a conta de luz. A energia elétrica residencial despencou 6,25%, respondendo sozinha por um impacto de 0,26 ponto percentual no índice geral. Esse movimento é fruto da incorporação do Bônus de Itaipu nas faturas emitidas em agosto, gerando um desconto aproximado de 8% para consumidores que gastam até 350 kWh mensais. O grupo Habitação caiu 1,41% no período.
Já o grupo Transportes cedeu 1,00%, puxado pelo recuo de 13,30% nas passagens aéreas, enquanto Alimentação e bebidas registrou queda de 0,57%.
A inflação subjacente e o fim da sazonalidade favorável
Para o investidor que acompanha a curva de juros, a leitura do número cheio exige filtro. J.R. Faria, diretor da Wagner Investimentos, pondera que o alívio tem origem em um evento não recorrente. A média dos núcleos (indicadores que excluem itens voláteis para medir a inflação estrutural) subiu apenas 0,23%, com nova deflação em alimentos no domicílio e preços livres, enquanto a difusão (percentual de itens com alta de preços) ficou pouco acima de 52%.
Faria alerta que o país praticamente chega ao final do período de sazonalidade favorável para inflação e difusão mais baixas, tornando relevante o acompanhamento dos números futuros.
Leonardo Costa, economista do ASA, concorda que a surpresa baixista concentra-se em itens voláteis, mas nota que o balanço qualitativo segue benigno no curto prazo. Isso sugere viés de revisão para baixo na projeção da casa para o IPCA cheio de agosto, atualmente em -0,17%. Costa ressalta, contudo, que houve aceleração dos serviços subjacentes na margem, um ponto de atenção para a formatação de risco.
O mapeamento da queda nas taxas do Tesouro Direto
A reação imediata do mercado de renda fixa foi o repricamento dos títulos públicos, com quedas expressivas em pontos-base (bps, onde 1 bp equivale a 0,01%).
| Título | Taxa Anterior | Taxa Atual | Variação |
|---|---|---|---|
| Tesouro Prefixado 2029 | 14,13% | 14,06% | -7 bps |
| Tesouro Prefixado 2032 | 14,50% | 14,43% | -7 bps |
| Prefixado com Juros Semestrais 2037 | 14,50% | 14,44% | -6 bps |
| IPCA+ com Juros Semestrais 2037 | 7,70% | 7,63% | -7 bps |
| IPCA+ 2050 | 7,29% | 7,23% | -6 bps |
| IPCA+ 2032 | 8,00% | 7,95% | -5 bps |
| IPCA+ com Juros Semestrais 2045 | 7,48% | 7,43% | -5 bps |
| IPCA+ com Juros Semestrais 2060 | 7,34% | 7,29% | -5 bps |
| IPCA+ 2040 | 7,48% | 7,44% | -4 bps |
Vale notar que os títulos com Juros Semestrais (que pagam cupons periódicos de rendimento ao investidor) acompanharam o movimento geral de queda das taxas reais e nominais.
No exterior, o núcleo do PCE (Personal Consumption Expenditures, o índice de preços preferido do Federal Reserve, o banco central dos EUA) subiu 0,2% em julho, dentro do esperado. O dado, contudo, saiu após a primeira atualização das taxas do Tesouro Direto e ainda não estava refletido nos preços praticados na manhã desta quarta-feira.
