Principais pontos

  • A intervenção rara do governo americano expõe o crescente desconforto de Washington com o custo elevado de captação, mas analistas veem o plano como uma solução de curto prazo.
  • A gestora Franklin Templeton mantém posição underweight, termo que designa alocação abaixo do índice de referência, em títulos de vencimento longo.
  • O rendimento do título alemão de 30 anos registrou pouca variação, fixando-se em 3,76%, patamar próximo da máxima observada desde 2011.

O Disparador e o Ceticismo Global

A decisão do secretário do Tesouro dos Estados Unidos, Scott Bessent, de ao menos dobrar o volume de recompra de títulos públicos de longo prazo provocou um alívio temporário nos mercados globais de dívida, mas a euforia durou pouco. A intervenção rara do governo americano expõe o crescente desconforto de Washington com o custo elevado de captação, mas analistas veem o plano como uma solução de curto prazo. Para grandes gestoras internacionais, o movimento atua estritamente como um circuit breaker — termo em inglês para disjuntor de mercado, mecanismo que interrompe quedas bruscas para evitar pânico generalizado —, e não como uma solução estrutural para as pressões inflacionárias e fiscais.

O rali inicial foi sincronizado. Impulsionados pelas quedas continuadas dos rendimentos dos Treasuries de 30 e 10 anos em relação às máximas de décadas, os mercados de dívida soberana da Ásia-Pacífico, do Japão à Austrália, avançaram em conjunto. O movimento ecoou ganhos registrados nos títulos europeus no dia anterior. No entanto, a Franklin Templeton, a Barrenjoey Markets e a Nomura Holdings alertam que o efeito positivo de contágio deve ser limitado, já que diversos governos ao redor do mundo enfrentam dívidas crescentes e déficits orçamentários estruturais.

Radiografia dos Juros Soberanos

A leitura superficial dos números pode sugerir uma vitória dos compradores de títulos, mas uma análise detalhada dos pontos-base (p.b., unidade que equivale a 0,01% ou um centésimo de porcentagem) revela a fragilidade do movimento. O título de 30 anos do Japão caiu quase nove pontos-base, aproximando-se de 4%, a maior queda desde 14 de julho. Os papéis soberanos australianos recuaram quatro pontos-base, marcando a maior baixa em duas semanas.

Contudo, a realidade americana e europeia já demonstrava sinais de reversão na sequência. O título de 30 anos dos Estados Unidos voltava a subir, com alta de quatro pontos-base, atingindo 5,23%. Na Europa, o rendimento do título alemão de 30 anos registrou pouca variação, fixando-se em 3,76%, patamar próximo da máxima observada desde 2011. O equivalente britânico subiu dois pontos-base para 5,80%, após fechar cinco pontos-base mais baixo no dia anterior.

PaísAtivo (30 anos)Variação RecenteNível / Destaque
JapãoSoberanoQueda de quase 9 p.b.~4% (maior baixa desde 14/07)
AustráliaSoberanoRecuo de 4 p.b.Maior baixa em duas semanas
EUATreasuriesAlta de 4 p.b.5,23% (retorno à alta)
AlemanhaTítulo de 30 anosPouca variação3,76% (perto da máxima de 2011)
Reino UnidoEquivalente BritânicoAlta de 2 p.b.5,80% (após cair 5 p.b.)

O Risco Fiscal e a Ilusão do Disjuntor

A leitura do Ativo Virtual é que o mercado não foi convencido de que a intervenção resolve a raiz do problema. Andrew Lilley, estrategista-chefe de juros da Barrenjoey Markets, classifica a ação como um disjuntor para a liquidação de vencimentos longos em nível global, mas pondera que isso não é suficiente, por si só, para deter a alta dos rendimentos. Os investidores estão focados em déficits fiscais excessivos, inflação impulsionada pelo petróleo e pressões de oferta ligadas ao boom de endividamento da indústria de inteligência artificial.

A gestora Franklin Templeton mantém posição underweight, termo que designa alocação abaixo do índice de referência, em títulos de vencimento longo. Andrew Canobi, diretor de renda fixa da gestora, aponta uma sincronia de forças que apontam para juros mais altos e curvas de juros (a diferença entre as taxas de curto e longo prazo) mais inclinadas. Para ele, não há demanda sustentável para os vencimentos mais longos enquanto essas forças prevalecerem.

O ceticismo se estende ao Reino Unido e à Europa. Evelyne Gomez-Liechti, do Mizuho International, nota que a libra recuou fortemente na esteira dos Treasuries, mas o Reino Unido não tem um sinal de política equivalente e o risco fiscal doméstico não desapareceu. O rali foi tratado como uma acomodação tática de posições, e não como o início de um movimento persistente de achatamento da curva. Alex Everett, da Aberdeen Investments, concorda que o suporte americano não se estende à Europa, o que pode gerar desempenho relativamente inferior para os títulos da região.

Andrew Ticehurst, da Nomura Holdings, resume o dilema do investidor: é sempre perigoso tentar enfrentar quem pode mudar as regras do jogo, mas os fundamentos subjacentes fracos são substanciais e cada vez mais evidentes. A consequência prática para quem acompanha o mercado global é que o teste das autoridades por parte dos investidores continuará, exigindo prêmios de risco mais elevados para a dívida soberana de economias desenvolvidas com contas públicas deterioradas.