Principais pontos
- "O secretário do Tesouro, Scott Bessent, elevou de US$ 2 bilhões para pelo menos US$ 4 bilhões o limite das operações de recompra"
- "A taxa primária de empréstimo de um ano foi mantida em 3,00%, enquanto a LPR de cinco anos permaneceu em 3,50%"
- "O ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou nesta quinta-feira que a equipe econômica está pronta para fazer esforço fiscal da mesma dimensão do mandato atual"
O mercado global de títulos e a geopolítica do Oriente Médio assumiram o papel de protagonistas absolutos nesta quinta-feira (20), sobrepondo-se aos ruídos locais e redefinindo o apetite por risco. A intervenção sem precedentes do Tesouro dos EUA no mercado de Treasuries (títulos do governo americano) e a escalada retórica de Washington contra o Irã ditam o humor das bolsas, enquanto o Brasil acompanha de perto a sinalização fiscal de Dario Durigan e a resistência do real ante o dólar em um cenário de eleições presidenciais no horizonte.
O resgate de liquidez e o teto de 5,34%
A movimentação mais técnica e reveladora da sessão internacional partiu do Departamento do Tesouro norte-americano. O secretário do Tesouro, Scott Bessent, elevou de US$ 2 bilhões para pelo menos US$ 4 bilhões o limite das operações de recompra de títulos de longo prazo. O objetivo estrutural é claro: injetar liquidez no sistema, acomodar a demanda por papéis seguros e estancar a disparada dos juros longos, que culminou com o rendimento da Treasury de 30 anos atingindo 5,34%, o maior nível em 19 anos.
A leitura de mercado, contudo, é de profundo ceticismo. Analistas locais avaliam que a medida atua mais como um circuit breaker (mecanismo de contenção de pânico e liquidez emergencial) do que como uma solução definitiva para o déficit fiscal americano. O alívio registrado na véspera, que permitiu à bolsa de Nova York fechar no azul, já perdeu força nesta manhã, com os índices futuros operando estáveis e o mercado de títulos voltando a vender. O custo de capital mais alto induzido por esses rendimentos elevados cria uma tensão latente: os lucros corporativos seguem sólidos, mas a precificação das empresas de crescimento enfrenta o vento contrário dos juros reais americanos, exigindo um prêmio de risco maior para cada ponto percentual adicional na curva.
Tensões no Oriente Médio e o petróleo como termômetro
A retórica de Donald Trump acendeu o alerta vermelho nas commodities energéticas. Ao classificar as próximas sanções contra nações que ofereçam qualquer tipo de apoio ao Irã como um 'DIA D ECONÔMICO', o mandatário americano não detalhou as medidas concretas, mas o mercado precifica um risco de oferta sem precedentes. O bombardeio russo a Kiev, que deixou ao menos seis mortos e 33 feridos durante a madrugada, apenas reforça o prêmio de risco geopolítico global, com mísseis danificando edifícios residenciais, uma unidade de saúde e uma instituição de ensino.
O reflexo imediato foi o disparo do petróleo, que sobe pelo quinto dia consecutivo. A cotação do barril de Brent avança para US$ 93,90 (+2,50%), enquanto o WTI atinge US$ 88,20 (+2,76%). Esse movimento na Europa já alimenta preocupações diretas com a oferta e a inflação, limitando os ganhos do continente. Em contrapartida, a demanda interna chinesa permanece fraca, derrubando o minério de ferro na bolsa de Dalian para 707,00 iuanes (US$ 105,06), uma queda de 1,19%, devolvendo os ganhos da sessão anterior e pressionado pela demanda persistentemente fraca por aço.
Nesse ambiente de busca por proteção contra a desvalorização monetária e a instabilidade fiscal, o Bitcoin encontrou um novo fôlego. A principal criptomoeda disparou e superou a barreira dos US$ 70 mil, alcançando o pico de US$ 71.900, o maior patamar desde 31 de maio, impulsionada pelo alívio momentâneo nos Treasuries e pelo empurrão narrativo das políticas americanas.
China congela empréstimos e Ásia celebra o varejo
A segunda maior economia do mundo optou pela estabilidade monetária em detrimento do afrouxamento. As autoridades chinesas mantiveram as taxas referenciais de empréstimo pelo 15º mês consecutivo em agosto. A taxa primária de empréstimo de um ano foi mantida em 3,00%, enquanto a LPR de cinco anos permaneceu em 3,50%.
O LPR (Loan Prime Rate, a taxa básica de empréstimo da China) congelado sinaliza que o governo chinês pretende depender de estímulos fiscais acelerados para sustentar o crescimento, uma vez que as margens de lucro dos bancos locais já operam próximas a mínimas recordes. Apesar de uma série de dados de julho mostrar uma demanda interna persistentemente fraca, as bolsas asiáticas ignoraram o pessimismo chinês e surfaram a onda de alívio global, com o setor de saúde registrando forte alta e o de tecnologia se recuperando de vendas anteriores.
| Índice | País | Variação |
|---|---|---|
| Kospi | Coreia do Sul | +6,00% |
| Nikkei | Japão | +1,36% |
| Hang Seng | Hong Kong | +0,80% |
| Nifty 50 | Índia | +0,70% |
| ASX 200 | Austrália | +0,33% |
| Shanghai SE | China | +0,24% |
Brasil: o dilema fiscal e o radar do JPMorgan
No front doméstico, a atenção se volta para a sustentabilidade da dívida pública e o ruído eleitoral. O ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou nesta quinta-feira que a equipe econômica está pronta para fazer esforço fiscal da mesma dimensão do mandato atual caso o presidente Luiz Inácio Lula da Silva seja reeleito. Em entrevista à rádio CBN, Durigan enfatizou a necessidade de mostrar que a trajetória de gastos obrigatórios não vai crescer sem controle, argumentando que é possível reverter a trajetória da dívida com a redução dos juros.
O mercado internacional, porém, mantém o radar calibrado para o risco político brasileiro. Segundo o JPMorgan, as eleições podem levar o dólar a R$ 5,50 em um cenário negativo para o mercado. A instituição, no entanto, pondera que o real tem demonstrado maior resistência ao ruído eleitoral neste ano do que em ciclos anteriores. O dólar comercial terminou a sessão anterior com queda de 0,87%, aos R$ 5,176, acompanhando a fraqueza do DXY (índice dólar), que recuou 0,85% para 98,81 pontos após o plano de aliviar os preços dos títulos mais longos.
A curva de juros futuros também reagiu ao alívio externo, registrando baixas por toda a extensão, o que indica uma acomodação das expectativas de inflação de curto prazo.
| Contrato | Taxa (%) | Variação (pp) |
|---|---|---|
| DI1F27 | 13,720 | -0,025 |
| DI1F28 | 13,880 | -0,075 |
| DI1F29 | 14,195 | -0,120 |
| DI1F31 | 14,500 | -0,115 |
| DI1F32 | 14,595 | -0,110 |
| DI1F33 | 14,625 | -0,115 |
| DI1F34 | 14,635 | -0,120 |
| DI1F35 | 14,625 | -0,110 |
Raio-X do Ibovespa e o Varejo em Choque
O Ibovespa terminou a quarta-feira com alta de 0,90%, aos 167.830,27 pontos, sustentado por um volume financeiro robusto de R$ 27,40 bilhões. O índice oscilou fortemente, com a máxima tocando 170.340,60 e a mínima em 166.334,73, refletindo a disputa entre o alívio externo e a cautela com os fundamentos locais. No acumulado do ano, o principal índice da B3 registra alta de 2,44%, mas ainda amarga uma queda de 5,71% apenas no mês de agosto.
No balanço corporativo, o setor de varejo enfrentou ventos contrários severos. A Magalu (MGLU3) despencou 5,37%, fechando a R$ 4,05, e a Gerdau (GGBR4) recuou 5,21%, aos R$ 22,94. A siderurgia e o agronegócio, por outro lado, puxaram as altas: a CSN (CSAN3) saltou 8,31%, para R$ 3,39, e a Marfrig (MBRF3) avançou 7,65%, aos R$ 17,31.
| Ação | Variação (%) | Preço (R$) |
|---|---|---|
| CSAN3 | +8,31% | 3,39 |
| MBRF3 | +7,65% | 17,31 |
| BEEF3 | +6,57% | 3,57 |
| MGLU3 | -5,37% | 4,05 |
| GGBR4 | -5,21% | 22,94 |
No segmento de óleo e gás, Petrobras, PetroReconcavo, Brava e Origem ampliaram contratos de gás na UTG Catu. Os aditivos produzem efeitos imediatos, assegurando a continuidade do processamento da produção. Para o investidor, essa movimentação garante previsibilidade de fluxo de caixa e mitiga riscos operacionais na cadeia de utilidades regionais, em um momento em que a segurança energética se torna um ativo cada vez mais valorizado.
