Principais pontos
- O abatimento referente à distribuição de 2025 caiu no mês passado e derrubou os preços da energia elétrica residencial em 7,63%, a maior queda do item em um mês de agosto desde a criação do real, em julho de 1994.
- O resultado reforça as condições para o Banco Central promover mais um corte de 0,25 ponto na Selic, hoje em 14% ao ano, na reunião do Copom da semana que vem.
- Segundo relatório da consultoria 4intelligence, os alimentos deverão abandonar a deflação já em setembro.
- A conta de luz também ficará mais cara este mês com o fim do bônus de Itaipu.
O IPCA de agosto recuou 0,32%, a maior deflação mensal em quatro anos — desde agosto de 2022 —, informou o IBGE. O número ficou abaixo da projeção do mercado, de -0,28%, e teve dois motores: o desconto do bônus de Itaipu na conta de luz e a queda de 0,34% do grupo alimentação e bebidas, que acumula três meses seguidos de recuo.
O resultado reforça as condições para o Banco Central promover mais um corte de 0,25 ponto na Selic, hoje em 14% ao ano, na reunião do Copom da semana que vem. A leitura do Ativo Virtual é que o dado sustenta o passo imediato, mas não encerra a discussão sobre o ritmo do ciclo: boa parte da deflação de agosto é emprestada por um evento pontual, e setembro chega com ingredientes de alta no radar.
O que o bônus de Itaipu fez com o índice
O bônus de Itaipu é o valor distribuído aos consumidores de eletricidade quando a conta de comercialização da usina hidrelétrica controlada por Brasil e Paraguai fecha no azul. O repasse não vira dinheiro na mão: entra como desconto na conta de luz. O abatimento referente à distribuição de 2025 caiu no mês passado e derrubou os preços da energia elétrica residencial em 7,63%, a maior queda do item em um mês de agosto desde a criação do real, em julho de 1994.
O resultado tem a influência grande da energia elétrica, por causa do bônus de Itaipu. Mas tivemos recuos importantes de alguns alimentos, a passagem aérea ficou mais barata, e também os combustíveis, com destaque para a gasolina. — Fernando Gonçalves, gerente do IPCA no IBGE
Além da energia, as passagens aéreas recuaram 13,17% e a gasolina caiu 0,59%. Dentro de alimentação, o item alimentação em domicílio cedeu 0,61%, com baixas expressivas em batata-inglesa (-19,89%), cenoura (-11,22%), cebola (-11,07%), tomate (-10,94%), ovo de galinha (-4,15%) e café moído (-1,86%).
| Item do IPCA | Variação em agosto |
|---|---|
| Batata-inglesa | -19,89% |
| Passagens aéreas | -13,17% |
| Energia elétrica residencial | -7,63% |
| Alimentação em domicílio | -0,61% |
| Gasolina | -0,59% |
| IPCA (índice cheio) | -0,32% |
A trégua dos alimentos tem prazo de validade
Entre maio e agosto, os preços dos alimentos costumam se comportar, especialmente os in natura, como frutas, legumes e hortaliças, favorecidos pelo clima na produção. Neste ano, o alívio veio um pouco mais acentuado, na avaliação da economista do C6, Cláudia Moreno. É justamente aí que mora o risco.
A partir de agora, chuvas e calor mais intensos, típicos da primavera e do verão, tendem a ser menos favoráveis à produção, e a sazonalidade aponta para meses de comida mais cara. Um El Niño mais forte — fenômeno climático marcado pelo aquecimento das águas do Pacífico — pode intensificar esse movimento.
Segundo relatório da consultoria 4intelligence, os alimentos deverão abandonar a deflação já em setembro. Parte dessa pressão já começou a se espalhar no atacado. O documento projeta altas em “cereais, leguminosas e oleaginosas”, “farinhas, féculas e massas”, “tubérculos, raízes e legumes” (com destaque para o tomate), “açúcares e derivados”, frutas, carnes, pescados, panificados e “óleos e gorduras” — movimentos que devem se somar a quedas menos intensas em hortaliças e verduras, carnes, peixes industrializados, aves e ovos e bebidas e infusões. A conta de luz também ficará mais cara este mês com o fim do bônus de Itaipu.
Núcleos e serviços: o que o Copom olha além do índice cheio
Para medir o quanto os juros estão, de fato, esfriando os preços, economistas recorrem aos núcleos da inflação — cálculos que eliminam os itens de maior volatilidade, para mais ou para menos — e ao índice de serviços, mais sensível à demanda e menos exposto a choques de oferta.
No ciclo atual de queda da Selic, o Banco Central trabalha com a hipótese de que o juro alto demais vinha esfriando a economia além da conta, enquanto a maioria dos economistas avalia que a estratégia é preservar o efeito restritivo. Em outras palavras: um juro menos alto esfriará a demanda um pouco menos.
Para Matheus Pizzani, economista da PicPay que acompanha o IPCA, os dados de agosto não trazem sinal de que a desaceleração provocada pelos juros foi suficiente para domar a inflação:
Existe uma desaceleração, mas o mercado de trabalho ainda se comporta de maneira restritiva.
Na mesma direção, Cláudia, do C6, avalia que a economia brasileira gira em plena capacidade. O banco projeta crescimento econômico de 1,7%, patamar próximo ao crescimento potencial do país — aquele que bate no limite da capacidade instalada de todos os fatores:
Já estamos usando toda a capacidade. Então, para desaquecer, para deixar de usar toda a capacidade, teríamos que crescer abaixo disso.
O relatório da 4intelligence identifica nos serviços de agosto uma desaceleração que não era consenso há pouco tempo, por conta da robustez do mercado de trabalho, e vê o setor cedendo a alguma perda de tração da atividade em um cenário de juros em terreno restritivo. Para Fábio Romão, economista da consultoria, isso ainda é insuficiente para mudar as perspectivas para os juros:
O mercado de trabalho está desacelerando, mas a renda continua crescendo.
Segundo ele, a atividade mais fraca ainda não deu sinal claro de que vai alterar a curva de juros — até porque o país está às vésperas de um encontro com um El Niño superforte, que deve aparecer na formação de preços no último trimestre e no ano que vem.
O que muda para quem investe
O corte de 0,25 ponto na Selic, se confirmado na semana que vem, tende a ser lido como continuidade de um ciclo, não como mudança de regime. O que muda para o investidor é a régua de acompanhamento: com o índice cheio beneficiado por fatores pontuais e os núcleos sem o mesmo alívio, a velocidade dos próximos passos fica refém de serviços, do mercado de trabalho e do comportamento dos alimentos no último trimestre.
Para quem carrega renda fixa atrelada à Selic, cada corte reduz o rendimento nominal da parcela pós-fixada; para horizontes mais longos, o que importa é a trajetória do ciclo, e não o ajuste isolado. A deflação de agosto, sozinha, não garante nada além do próximo passo, e a maioria dos economistas avalia que a estratégia do Banco Central é manter o efeito restritivo.
O que observar daqui para frente
- Copom na semana que vem: decisão sobre a Selic, hoje em 14% ao ano, com corte de 0,25 ponto nas apostas do mercado.
- IPCA de setembro: sem o bônus de Itaipu e com os alimentos deixando a deflação, segundo a 4intelligence.
- Núcleos e serviços: as medidas que separam o ruído do movimento de fundo da inflação.
- El Niño: efeitos previstos na formação de preços no último trimestre e no ano que vem.
