O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) de fevereiro registrou variação de 0,70%, superando as estimativas do mercado, impulsionado por reajustes anuais no setor de educação e elevação nas passagens aéreas. Apesar da desaceleração no acumulado de 12 meses para 3,8% (contra 4,4% anteriormente), a aceleração nos núcleos de inflação e nos serviços reflete um mercado de trabalho ainda robusto, gerando cautela para o Comitê de Política Monetária (Copom) na reunião marcada para 17 e 18 de março.

Principais pressões no IPCA de fevereiro

O setor de educação, após variação de apenas 0,02% em janeiro, saltou para 5,21% em fevereiro, refletindo os reajustes contratuais anuais típicos do período. Subgrupos como ensino médio (8,19%), fundamental (8,11%), pré-escola (7,48%) e creches (6,28%) puxaram essa alta generalizada.

Subgrupo de EducaçãoVariação em fevereiro (%)
Ensino Médio8,19
Ensino Fundamental8,11
Pré-Escola7,48
Creches6,28

No grupo de transportes, a inflação subiu para 0,74% (ante 0,6% em janeiro), com passagens aéreas avançando 11,4% no mês e acumulando 24,61% em 12 meses, devido a fatores sazonais e demanda reprimida.

Dinamismo nos núcleos e surpresas setoriais

Os núcleos de inflação, que excluem itens voláteis para capturar tendências subjacentes, mostraram resistência, especialmente nos serviços ligados à atividade econômica interna. Na média móvel de três meses, a inflação subjacente de serviços acelerou para 5,4% (de 4,7%), enquanto a do setor industrial se manteve em 3,4%. A média das medidas subjacentes passou de 4,0% para 4,1%.

Alimentos surpreenderam com altas em feijão, ovos de galinha, aves e batata-inglesa. Habitação registrou +0,30%, revertendo queda anterior, pressionada por tarifas de água, esgoto e energia elétrica residencial. Saúde e cuidados pessoais avançaram 0,59%, com itens de higiene e planos de saúde em destaque. No núcleo de bens, a recente apreciação cambial ainda não se reflete, mantendo volatilidade apesar de juros altos e desaceleração econômica.

Desaceleração persiste, mas com ressalvas

Embora os dados apontem resistência inflacionária doméstica, o quadro geral mantém trajetória de desinflação, apoiada pela valorização cambial, estabilidade pré-conflito nas commodities, recuo nos alimentos e moderação nos custos de produção agrícola e industrial. A inflação em 12 meses segue em queda, com serviços resilientes demandando monitoramento nos itens inerciais.

Riscos elevados pelo conflito no Oriente Médio

O principal ponto de cautela reside nos recentes ataques dos Estados Unidos e Israel contra o Irã, cujos efeitos na cotação do petróleo ainda não se materializaram nos preços internos. A defasagem nos combustíveis domésticos amplia pressão por reajustes, independentemente da paridade internacional adotada pela Petrobras.

  • Prolongação do conflito pode restringir oferta global de petróleo, adiando desinflação.
  • Alimentos in natura pressionados por chuvas, com risco sazonal de persistência.
  • Resiliência em serviços e núcleos reforça cautela no Copom.

O que isso significa para o investidor

Para o investidor pessoa física, os dados sinalizam um ambiente macroeconômico com Selic em 15% e inflação mais teimosa nos serviços, o que pode moderar o ritmo de cortes nas taxas de juros. Cenário otimista envolve resolução rápida do conflito no Oriente Médio, ancorando commodities e permitindo Selic em torno de 12,5% ao fim de 2025, favorecendo renda fixa pós-fixada atrelada ao CDI. No pessimista, persistência das tensões eleva riscos inflacionários, pressionando o câmbio e rendimentos reais. Fatores como atividade econômica em desaceleração e mercado de trabalho aquecido demandam atenção ao balanço entre renda variável sensível a juros e ativos protegidos contra inflação.

Projeções para o IPCA ao fim de 2025 variam: 4% na Suno Research, 3,8% no Itaú e no Daycoval, com ASA revisando para cima de 3,6%.

Perspectiva e próximos passos

O Copom, em 17 e 18 de março, deve iniciar ciclo de flexibilização com corte de 0,25 ponto percentual na Selic, adotando postura cautelosa ante incertezas. Analistas divergem: Suno e Ancord preveem 0,25 p.p., Genial e Daycoval reforçam gradualismo, enquanto Mirae Asset mantém base em 0,50 p.p., ajustável conforme o conflito. Monitorar duração das tensões no Oriente Médio, evolução dos núcleos e chuvas sobre alimentos será essencial para calibração das expectativas de política monetária.

As informações deste editorial foram produzidas pela redação do Ativo Virtual com base em reportagem publicada pelo(a) InfoMoney. Este conteúdo tem caráter exclusivamente informativo e não constitui recomendação de investimento. Decisões financeiras devem ser tomadas com o auxílio de um profissional certificado.