Um lucro três vezes maior com endereço contábil

A ISA Energia (ISAE3) encerrou o terceiro trimestre com lucro líquido de R$ 1,9 bilhão, mais de três vezes o apurado em igual intervalo de 2025. O motor do salto foi a contabilização do descruzamento de participações societárias fechado com a Axia (AXIA3) — a reorganização das fatias que as duas companhias detêm uma na outra, registrada como efeito não recorrente. O balanço saiu nesta terça-feira.

Na leitura ajustada, o número muda de escala. O lucro pró-forma — métrica que retira do cálculo eventos sem repetição — ficou em R$ 625 milhões, alta de 14% na base anual. É esse patamar que descreve a operação da transmissora; o bilhão contábil, não.

IndicadorReportadoVariação anualPró-formaVariação anual
Lucro líquidoR$ 1,9 bimais de 3xR$ 625 mi+14%
EbitdaR$ 3,19 bi+259%R$ 1,25 bi+41%

Ebitda ajustado de R$ 1,25 bi e a receita que passou a faturar

O Ebitda — lucro antes de juros, tributos, depreciação e amortização, indicador que aproxima a geração operacional de caixa — alcançou R$ 3,19 bilhões, com expansão de 259% em doze meses. Sem o efeito contábil, o indicador somou R$ 1,25 bilhão, 41% acima do 3T do ano anterior.

O CEO Rui Chammas creditou o avanço a um conjunto de fatores: linhas e subestações recém-energizadas passaram a faturar, um ativo de grande porte entrou no consolidado, a tarifa foi reajustada e as despesas ficaram contidas. A leitura importa porque a base ajustada cresce em ritmo de dois dígitos sem qualquer ajuda de evento societário.

R$ 17 bi de dívida e alavancagem em 3,5 vezes

A companhia fechou setembro com dívida líquida de R$ 17 bilhões, 20% acima do encerramento de 2025, em meio à execução de obras de grande porte. O índice de alavancagem — quantas vezes a dívida líquida representa a geração operacional — recuou de 3,63 para 3,5 vezes no mesmo intervalo, porque a receita cresceu mais rápido que o passivo.

A diretora financeira Silvia Wada descreveu o endividamento como confortável e lembrou que fatia relevante dos débitos é corrigida pelo IPCA, índice que também reajusta a receita da transmissora — arranjo que cria proteção natural entre o que se paga e o que se recebe.

O negócio de transmissão tem uma sequência própria: o investimento e a dívida chegam antes, e a receita só aparece quando as instalações são energizadas. Enquanto o ciclo de obras está no início, a alavancagem tende a ficar pressionada; conforme os projetos entram em operação, o indicador costuma acomodar. O trimestre mostrou a segunda metade desse movimento em parte da carteira.

R$ 7,6 bi em reforços e a decisão que depende de 2027

Os reforços e melhorias na rede já existente, autorizados pela Aneel, somam R$ 7,6 bilhões em investimentos planejados para os próximos anos — projetos que adicionam receita sem depender de novas concessões.

Na frente de expansão, Chammas afirmou que a ISA segue avaliando oportunidades interessantes na licitação de lotes de transmissão prevista para o início de 2027, mas que a decisão de disputar ainda não foi tomada, por cautela com o patamar atual de dívida e com a incerteza sobre o custo do capital nos próximos anos.

O leilão de baterias, segmento em que a companhia opera o primeiro sistema de grande escala do país, também segue em estudo.

Há ainda um ponto regulatório aberto: a Aneel entende que as transmissoras podem participar do certame desde que respeitem as condições dos contratos de concessão, o que devolveria parte da receita nova à modicidade tarifária — o mecanismo que busca tarifas menores ao consumidor final. Wada afirmou que a ISA discorda dessa leitura e que o tema seguirá em trabalho.

O que separa o número grande da tendência

O trimestre entrega duas informações de naturezas distintas: um lucro contábil que não se repete e uma operação que avança em ritmo de dois dígitos, financiada por dívida que a companhia classifica como administrável. Para quem acompanha ISAE3, o critério de leitura passa a ser a velocidade das energizações e o custo do capital que balizará a próxima rodada de leilões — variáveis mais informativas do que o lucro de três dígitos do trimestre.