O Itaú BBA anunciou nesta semana o início da cobertura de mercado para as ações da Bradsaúde, ativo que passará a ser negociado sob o código SAUD3 a partir da próxima terça-feira (5). A instituição definiu um preço-alvo de R$ 19,00 para o encerramento de 2026, apontando um potencial de valorização de 30% em relação às cotações atuais da OdontoPrev (ODPV3). A recomendação inicial é de compra, lastreada na consolidação da participação da companhia no setor de saúde suplementar e na maturação de seus investimentos hospitalares.

Estratégia Comercial e Expansão Regional

A tese de investimento defende que a operadora superou incertezas estruturais sobre a sustentabilidade de sua margem e a eficácia da parceria com a Atlântica D’Or. Desde 2025, a companhia retomou adições líquidas saudáveis de beneficiários, equilibrando a oferta de produtos acessíveis com coparticipação e a venda de categorias premium. Diferente de modelos tradicionais, a gestão atua simultaneamente nos dois extremos da curva de renda, ampliando a penetração em praças estratégicas.

O relatório documenta ganhos de market share nas cinco principais regiões metropolitanas: São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador, Belo Horizonte e Brasília. A expansão comercial ganha tração em pontos de inflexão nos quais a empresa passou a deter propriedade ou participação em hospitais, reduzindo a dependência exclusiva de contratos com terceiros.

PraçaVariação de PenetraçãoCatalisador Local
Guarulhos (SP)+0,7 ponto percentualLançamento/aquisição de unidade
Campinas (SP)+0,3 ponto percentualLançamento/aquisição de unidade
Estado de SP (Interior)Tendência de altaTaubaté e Ribeirão Preto

O cenário paulista é considerado particularmente favorável. A entrada em operação do Einstein Vila Mariana e do Mater Dei Santana, somada a capilaridade no interior, deve sustentar o crescimento de longo prazo. Ativos recentes como o Glória D’Or e a Maternidade São Luiz Star ainda carecem de histórico consolidado, mas a configuração atual já sinaliza capacidade de retenção e atração de novos clientes.

Reversão de Resultados e Eficiência na Saúde Suplementar

O braço de seguros da Bradsaúde demonstra solidez estrutural após um ciclo de reestruturação. O lucro operacional da vertical saltou de um prejuízo de R$ 11 bilhões em 2022 para um resultado positivo de R$ 10 bilhões em 2025. Essa virada elevou o ROE (Retorno sobre Patrimônio Líquido, métrica que mensura a rentabilidade gerada sobre o capital dos acionistas) para 38%, patamar superior aos índices observados no período pré-pandemia.

A manutenção dessa rentabilidade exige a continuidade de iniciativas de controle de sinistralidade. O banco destaca a implementação de ferramentas mais rigorosas de combate a fraudes, o aumento do mix de planos com coparticipação e mecanismos de normalização da MLR (Medical Loss Ratio ou Taxa de Sinistralidade, que relaciona despesas médicas com receita de prêmios). A trajetória de participação da operadora apresenta viés de alta após o credenciamento de unidades da Atlântica D’Or, consolidado via joint venture com a Rede D’Or.

Apesar da melhora estrutural, os analistas sinalizam uma desaceleração no ritmo de expansão dos lucros no curto prazo. O ciclo de reajustes agressivos de preços chegou ao fim e a dinâmica de constituição de provisões para sinistros tende a ser menos benéfica que a praticada em 2025. O IBNR (Incurred But Not Reported ou Sinistros Ocorridos mas Não Reportados, reserva técnica para despesas médicas já realizadas mas ainda não comunicadas à seguradora) apresentou comportamento atípico e moderado no ano passado, fenômeno que dificilmente se repetirá em 2026, gerando pressão natural sobre os resultados operacionais.

Modelagem de Valuation e Projeções Financeiras

A avaliação do Itaú BBA utiliza metodologia híbrida, refletindo a diversificação entre o negócio de seguros e a vertical hospitalar. Para o segmento assistencial (Bradesco Saúde, Bradesco Operadora, Mediservice e Odontoprev), aplicou-se o DDM (Dividend Discount Model ou Modelo de Desconto de Dividendos, técnica que calcula o valor presente dos dividendos futuros esperados), resultando em um valor de patrimônio líquido de R$ 46,6 bilhões. Já para o segmento hospitalar, foi construído um DCF (Discounted Cash Flow ou Fluxo de Caixa Descontado, método que projeta e traz a valor presente os fluxos de caixa futuros) independente para a Atlântica D’Or.

IndicadorValor
P/L (Preço sobre Lucro) projetado 202610x
P/L projetado 20279x
CAGR (Taxa de Crescimento Anual Composta) de Lucros~15%
Rendimento de Dividendos7%

As projeções indicam que a Atlântica D’Or deve entregar lucro líquido de R$ 413 milhões em 2026 e R$ 552 milhões em 2027. A participação de 50% da Bradsaúde nessa operação impacta diretamente o resultado de equivalência patrimonial consolidado. A precificação também internaliza as fatias no Grupo Santa, Novamed, Croma Oncologia e a participação de 24,9% no Fleury (FLRY3). A geração de caixa permanece robusta, sustentada pela distribuição de JCP (Juros sobre Capital Próprio, mecanismo que permite às empresas remunerar acionistas com tratamento fiscal diferenciado) e pela maturação dos lucros das subsidiárias. A expectativa de FCF (Free Cash Flow ou Fluxo de Caixa Livre, recursos disponíveis após investimentos necessários para manter a operação) forte deve compensar os ventos contrários de sinistralidade, suportando um crescimento de 10% no lucro de 2027.

O que isso significa para o investidor

Para o investidor pessoa física, o relatório desenha um cenário de reavaliação de múltiplos (re-rating, processo no qual o mercado paga múltiplos mais altos por um ativo ao reconhecer melhoria na qualidade dos lucros ou redução de riscos). A combinação de P/L de 10x para 2026 com uma taxa de crescimento anual composta de dois dígitos sugere que o ativo pode estar precificando um prêmio de risco excessivo frente à realidade operacional atual. Em um ambiente macroeconômico de taxa Selic em patamares que exigem custo de oportunidade elevado, a geração de caixa recorrente e o rendimento de dividendos projetado de 7% funcionam como estabilizadores de portfólio. A tese se sustenta na capacidade de a companhia migrar de um modelo de recomposição de margens para um ciclo de expansão orgânica, ainda que dependa da execução disciplinada dos contratos de coparticipação.

Fatores de Risco e Monitoramento

A trajetória de valorização não é isenta de volatilidade, e a fonte destaca pontos de atenção que podem pressionar os resultados no ciclo de 12 a 24 meses:

  • Normalização da curva de sinistralidade e fim do ciclo de recomposição via reajustes de preços;
  • Comportamento menos favorável do IBNR em 2026 em comparação ao ano anterior;
  • Necessidade de validação operacional de ativos recentes (Glória D’Or e Maternidade São Luiz Star) em prazos curtos;
  • Dependência de sinergia e integração plena na joint venture com a Atlântica D’Or para sustentar a margem hospitalar.

Perspectiva e Próximos Passos

O mercado acompanhará a transição do código ODPV3 para SAUD3 na próxima terça-feira (5), que deve atrair atenção institucional e ampliar a liquidez do papel. A atenção dos analistas se concentrará nos relatórios trimestrais de 2026, especificamente na métrica de MLR, na velocidade de captação das novas unidades hospitalares em São Paulo e no ritmo de realização dos lucros da Atlântica D’Or. A confirmação do crescimento de 10% no lucro de 2027 dependerá da manutenção da eficiência operacional e da estabilidade do ambiente regulatório de saúde suplementar.

As informações deste editorial foram produzidas pela redação do Ativo Virtual com base em reportagem publicada pelo(a) InfoMoney. Este conteúdo tem caráter exclusivamente informativo e não constitui recomendação de investimento. Decisões financeiras devem ser tomadas com o auxílio de um profissional certificado.