O Itaú Unibanco (ITUB4) fechou o terceiro trimestre de 2026 com lucro líquido recorrente de R$ 12,6 bilhões, avanço de 6,7% sobre o mesmo intervalo do ano anterior e de 2,5% na comparação com o segundo trimestre, com ROE — o retorno sobre o patrimônio líquido, indicador que mede quanto a empresa gera de lucro para cada real de capital próprio — de 23,6%. O balanço veio com um detalhe que a manchete do número não mostra: os primeiros sinais de pressão na inadimplência.
Na mesma quarta-feira (4), a leva de comunicados ao mercado colocou lado a lado três tipos de resultado que o investidor costuma tratar como equivalentes. Existe o lucro que nasce da operação e se repete, o ganho que vem de um evento contábil e não deve voltar, e o resultado que encolhe porque a margem encolheu antes. Quem olha apenas o percentual do trimestre perde essa distinção.
| Empresa | Resultado no 3T26 | Variação anual |
|---|---|---|
| Itaú (ITUB4) | Lucro recorrente de R$ 12,6 bi | +6,7% |
| BB Seguridade (BBSE3) | Lucro gerencial recorrente de R$ 2,432 bi | -5,1% |
| ISA Energia (ISAE4) | Lucro líquido de R$ 1,9 bi | +246% |
| Marcopolo (POMO4) | Lucro líquido de R$ 186,5 mi | -43,4% |
| RD Saúde (RADL3) | Lucro ajustado de R$ 439,1 mi | +9,2% |
| Latam Airlines | Lucro de US$ 441 mi | +16,3% |
Itaú: rentabilidade alta e crédito na mira
O ROE de 23,6% sustenta a leitura de que o maior banco privado do país segue convertendo capital próprio em lucro num ritmo elevado. O ponto de atenção está no outro lado do balanço: a inadimplência, fatia da carteira de crédito que não é paga no prazo combinado, começou a dar sinais de aperto. Esse é o indicador que costuma antecipar o movimento de provisões, o dinheiro separado para cobrir calotes. Se a deterioração se confirmar nos próximos trimestres, parte do ganho tende a ser consumida por esse colchão. O número divulgado é o recorrente, limpo de itens que não devem se repetir — e é justamente ele que serve de base para comparar o próximo trimestre.
ISA Energia: R$ 1,9 bilhão com origem contábil
O salto de 246% no lucro da ISA Energia (ISAE4) tem endereço certo. O resultado de R$ 1,9 bilhão, mais de três vezes o apurado um ano antes, foi produzido pela contabilização do acerto com a Axia Energia (AXIA3) para desfazer participações cruzadas entre as duas companhias, conforme o balanço apresentado na terça-feira (3). Ganho contábil não é caixa: ele repõe valor no papel sem necessariamente se repetir no trimestre seguinte. O efeito colateral é estatístico — a base de comparação de 2027 fica mais alta e qualquer crescimento tende a parecer menor.
BB Seguridade: R$ 2,432 bilhões e recuo de 5,1%
A BB Seguridade (BBSE3) registrou R$ 2,432 bilhões de lucro gerencial recorrente entre julho e setembro, recuo de 5,1% frente ao mesmo período de 2025. A leitura melhora quando a régua é o trimestre imediatamente anterior: alta de 13%. Nos nove primeiros meses do ano, o lucro somou R$ 6,804 bilhões, praticamente estável, com avanço de 0,1%. A distância entre as duas janelas descreve uma seguradora que perdeu ritmo na comparação anual, mas reconstruiu resultado dentro do trimestre.
Marcopolo e RD Saúde: margens em sentidos opostos
A Marcopolo (POMO4) fechou o trimestre com lucro líquido de R$ 186,5 milhões, tombo de 43,4% na comparação anual. A receita operacional líquida caiu para R$ 2,29 bilhões, recuo de 8,5%, num cenário de produção mais lenta e margens operacionais mais estreitas. Na RD Saúde (RADL3), dona das redes Raia e Drogasil, o caminho foi inverso: lucro líquido ajustado de R$ 439,1 milhões, alta de 9,2%, sustentada por vendas maiores e despesas financeiras menores — ainda que as margens da companhia continuem sob pressão. Nos dois casos, o que decide o resultado é a margem, não o volume.
WEG: 400 mil m² na Índia por US$ 8 milhões
A WEG (WEGE3) informou a compra de um terreno em Dharmapuri, no estado de Tamil Nadu, na Índia, por US$ 8 milhões, valor equivalente a cerca de R$ 44 milhões. A área soma 400 mil metros quadrados e está a 95 km da fábrica de Hosur. O desembolso é pequeno diante do porte da companhia, mas o movimento reforça a estratégia de expansão no mercado asiático e aumenta a exposição operacional a uma região onde a empresa já produz.
Alupar: leilão no Chile com RAP de US$ 11,9 milhões
A Alupar (ALUP11) informou na noite de terça-feira (3) que a controlada Alupar Inversiones Chile venceu a licitação do projeto Nueva S/E Pelarco – Nueva S/E Trueno e da linha de 2×66 kV Trueno–Pelarco. Os investimentos estimados somam US$ 85 milhões, com RAP — receita anual permitida, a remuneração regulada recebida pela disponibilidade da linha de transmissão — de US$ 11,9 milhões. O fato relevante enviado ao mercado indica que a companhia inicia agora os trâmites de formalização junto ao órgão regulador local.
AgroGalaxy: grupamento para voltar à régua da B3
A AgroGalaxy (AGXY3), em recuperação judicial, poderá fazer um grupamento de ações — a reunião de várias ações em uma só, recurso que eleva o preço unitário do papel sem alterar o valor de mercado da companhia — para se reenquadrar às regras da B3. Em comunicado divulgado na terça-feira (3), a empresa informou ter recebido notificação da bolsa porque a cotação não supera R$ 1 desde 11 de setembro de 2026. O grupamento resolve o critério formal de preço, mas não mexe no tamanho da dívida nem no andamento da recuperação judicial.
Latam: US$ 441 milhões de lucro com Ebitda menor
A Latam Airlines apurou lucro líquido de US$ 441 milhões no terceiro trimestre, 16,3% acima dos US$ 379 milhões de um ano antes. A receita operacional chegou a US$ 4,567 bilhões, crescimento de 18,4%. O Ebitda ajustado — lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização — caiu 4,7%, para US$ 1,095 bilhão. Receita maior com Ebitda menor sugere que os custos avançaram em ritmo superior ao das vendas: a operação ganhou escala sem ganhar eficiência na mesma proporção.
O que a sessão deixa para quem acompanha
O dia 4 de novembro entrega três leituras distintas. No Itaú, o lucro de R$ 12,6 bilhões é operacional e recorrente, mas convive com um indicador de crédito que começa a virar — é ali que a temporada seguinte será julgada. Na ISA Energia, o número espetacular de 246% nasce de um evento contábil e não descreve a operação do dia a dia. Em Marcopolo e RD Saúde, a margem aparece como o divisor de águas entre lucro em queda de dois dígitos e expansão de 9,2%. Há ainda os anúncios de capital de longo prazo, como o terreno indiano da WEG e o projeto chileno da Alupar, cujo retorno só aparece nos próximos ciclos de balanço. Para quem compara desempenho, a pergunta que organiza o trimestre não é quanto cada empresa lucrou, mas quanto desse lucro deve se repetir.
