Com mais de R$ 17 bilhões sob gestão e uma carteira de 140 fundos ativos, a Ouro Preto Investimentos consolidou-se como uma das maiores gestoras independentes de crédito do mercado brasileiro. O fundador e CEO, João Peixoto Neto, detalhou em entrevista ao programa Stock Pickers como uma trajetória iniciada na advocacia moldou uma das estruturas mais robustas de crédito estruturado do país, em um percurso que reflete diretamente a modernização da B3 e a maturidade do sistema financeiro nacional.
Da Sala de Aula da USP ao Mercado de Capitais
Formado pela Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP) — a histórica São Francisco, inaugurada em 1827 e que formou 17 presidentes da República — Peixoto Neto sempre lidou com o universo jurídico. O convívio profissional começou aos 13 anos ao lado do pai, absorvendo a linguagem do direito como segunda natureza. Contudo, a vocação inicial apontava para a filosofia e as ciências sociais, eventualmente física. O direito representava a segurança financeira e a tradição familiar, não a paixão intelectual. A transição para o mercado financeiro ocorreu de forma orgânica, impulsionada pela necessidade de resolver problemas práticos de clientes que possuíam ativos financeiros órfãos de custódia.
A Era dos Títulos Físicos e o Legado das Empresas Incentivadas
Antes da década de 1990, a infraestrutura de custódia da bolsa operava de maneira descentralizada. A aquisição de uma linha telefônica da Telebrás ou a obtenção de um empréstimo bancário resultava na emissão física de ações da própria instituição emissora. Milhares de investidores desconheciam a posse desses papéis, acumulando direitos não exercidos e deixando de receber proventos que, pela legislação vigente, prescrevem em três anos. Paralelamente, o governo militar instituiu mecanismos de fomento regional por meio de empresas incentivadas. Os fundos FINOR e FISET direcionavam recursos para o desenvolvimento do Nordeste, da Amazônia e de projetos de reflorestamento, permitindo que companhias alocassem parte do Imposto de Renda em troca de certificados de investimento. A demanda por consultoria jurídica especializada nesse ecossistema abriu as portas para Peixoto Neto.
O Home Broker e a Queda Radical dos Custos Operacionais
A virada do século trouxe uma ruptura tecnológica com a popularização do home broker, interface eletrônica que permitiu ao investidor pessoa física operar ações remotamente com execução imediata e custos drasticamente reduzidos. O modelo tradicional de negociação exigia tarifas proibitivas, inviabilizando a liquidez para o varejo.
| Cenário | Tarifa Média | Custo Operacional (Exemplo) |
|---|---|---|
| Pré-Home Broker (Corretagem Tradicional) | 0,50% por ponta | R$ 10.000 em operações de ida e volta (R$ 1 milhão em PETR3/PETR4) |
| Pós-Implantação do Home Broker (Final dos Anos 1990) | Despencou significativamente | Explosão no volume de ordens e democratização do acesso |
A compressão das tarifas corroeu o modelo de negócios das corretoras convencionais, forçando a profissionalização do setor. Nesse ambiente, um cliente demandou a estruturação de uma DTVM (Distribuidora de Títulos e Valores Mobiliários), instituição autorizada pelo Banco Central para intermediar ofertas e negociar ativos. Peixoto Neto atuou na assessoria jurídica da operação e, progressivamente, migrou para a gestão executiva.
2004 a 2008: A Gênese dos FIDCs e o Choque da Crise Global
Em 2004 e 2005, a equipe lançou o primeiro FIDC (Fundo de Investimento em Direitos Creditórios), veículo regulado pela Comissão de Valores Mobiliários (CVM) que capta recursos para adquirir carteiras de créditos geradas por empresas, antecipando recebíveis e desburocratizando o fluxo de capital. O instrumento conectou diretamente tomadores de crédito a alocadores de capital, retirando o spread bancário tradicional. A expansão do modelo exigiu escala e capacidade de custódia. Em 2008, no auge da crise do subprime global, a DTVM solicitou ao Bacen a conversão para instituição financeira múltipla, visando atuar como agente de custódia e integrar o sistema de pagamentos nacional.
| Indicador | Valor | Contexto |
|---|---|---|
| Meta de Captação (FIC FIDC - Fundo de Investimento em Cotas de FIDC) | R$ 500 milhões | Distribuição conjunta JP Morgan e Deutsche Bank |
| Captação Efetiva | R$ 70 milhões | Colapso da liquidez internacional e demissões em massa |
| Ano de Referência | 2008 | Crise financeira global e fuga para qualidade |
A retração foi severa. A distribuição internacional entrou em colapso, e os contatos com as grandes mesas de distribuição desapareceram. Dois anos depois, desalinhamentos societários culminaram na separação das partes.
A Fundação da Ouro Preto e a Consolidação no Crédito Estruturado
Em 2010, Peixoto Neto fundou a Ouro Preto Investimentos. A entrada no mercado exigia regularização na CVM, regra que obrigava o candidato a comprovar experiência como subordinado a um gestor registrado, exigência que ele e diversos colegas de corretoras e bancos enfrentaram. O primeiro fundo da gestora nasceu em 2011. A tentativa inicial de atuar no segmento de fundos multimercado (estratégia que combina diversos ativos e fatores de risco, popularizada por nomes como Luiz Stuhlberger) não alcançou a tração esperada, seguindo um padrão do setor onde a alta rotatividade e o fechamento precoce são frequentes. A especialização em FIDCs, contudo, provou-se o eixo sustentável. Quinze anos após a primeira captação, a carteira atingiu aproximadamente R$ 17 bilhões, distribuídos em 140 fundos focados em crédito estruturado.
O que isso significa para o investidor
A trajetória da Ouro Preto e a maturação dos fundos de crédito evidenciam a sofisticada engenharia financeira disponível ao varejo brasileiro. A estrutura desses veículos desconecta a rentabilidade dos humores de curto prazo da bolsa, uma vez que a ausência de um mercado secundário ativo para as cotas inibe a volatilidade intradiária. Os investidores pessoa física são atraídos pela previsibilidade de fluxo e pelos regimes tributários diferenciados aplicados a aplicações de longo prazo. No macro cenário, a solidez do sistema bancário nacional e a contínua digitalização das instituições financeiras criam um ecossistema resiliente. Para o alocador, compreender a mecânica do crédito privado — que substitui o intermédio bancário por securitização de recebíveis — torna-se essencial para diversificar portfólios além de títulos públicos e renda variável tradicional, especialmente em ambientes de taxa Selic elevada, onde a captação corporativa ganha competitividade.
Fatores de Atenção e Riscos Estruturais
A operação com crédito privado exige análise criteriosa da qualidade dos ativos subjacentes e da capacidade de pagamento das originadoras. Os participantes do mercado devem monitorar:
- Concentração de carteira: a exposição a um único setor ou tomador pode elevar a sensibilidade a choques setoriais.
- Liquidez das cotas: a natureza dos FIDCs implica prazos de resgate estendidos, incompatíveis com necessidades de caixa imediatas.
- Ciclo econômico e inadimplência: a saúde do crédito privado está intrinsecamente ligada ao nível de atividade econômica e à capacidade das empresas de honrar obrigações em cenários de aperto monetário.
- Regulação da CVM: alterações normativas sobre lastro, alavancagem e classificação de risco podem impactar a estrutura e a rentabilidade dos veículos.
O mercado de crédito estruturado no Brasil segue em curva de expansão, impulsionado pela busca de yield (retorno) acima do CDI (Certificado de Depósito Interbancário) e pela necessidade das empresas de alternativas ao financiamento bancário tradicional. A evolução tecnológica das corretoras e a padronização das carteiras de crédito tendem a aprofundar a liquidez e a transparência do setor. Acompanhar os relatórios mensais de performance, as alterações nas taxas de captação e a evolução do risco-país será determinante para avaliar a sustentabilidade dos retornos no médio prazo.
As informações deste editorial foram produzidas pela redação do Ativo Virtual com base em reportagem publicada pelo(a) InfoMoney. Este conteúdo tem caráter exclusivamente informativo e não constitui recomendação de investimento. Decisões financeiras devem ser tomadas com o auxílio de um profissional certificado.
