As cotações dos contratos futuros de Depósitos Interfinanceiros (DI), derivativos que precificam as expectativas de juros para o mercado brasileiro, encerraram a sessão de segunda-feira em forte alta. O movimento reflete o impasse diplomático entre Estados Unidos e Irã para um cessar-fogo no Oriente Médio. A continuidade das hostilidades sustentou a escalada dos yields (rendimentos) dos Treasuries (títulos da dívida pública dos EUA), pressionando diretamente a curva doméstica e as projeções para o ciclo de política monetária.

Curva de Juros e Prêmio de Risco Externo

A curva a termo brasileira registrou movimentos consistentes na ponta intermediária e longa, acompanhando o cenário global. O DI com vencimento em janeiro de 2028 foi negociado a 13,77%, alta de 16 pontos-base (unidade equivalente a 0,01%) em relação ao ajuste de 13,61% da véspera. Na extremidade mais distante, o DI para janeiro de 2035 atingiu 13,85%, acréscimo de 14 pontos-base sobre o patamar de 13,712%. O Treasury de dez anos, referência internacional para o custo do capital, avançou cinco pontos-base a 4,410%, sinalizando que os mercados ainda exigem prêmio adicional diante da incerteza.

Cenário para Junho (Copom)Probabilidade AtualProbabilidade (07/04)
Corte de 25 pontos-base64,0%32,5%
Manutenção da Selic em 14,50%24,5%29,5%
Corte de 50 pontos-base10,5%28,0%

Choque no Petróleo e Vetores da Inflação Doméstica

O barril de Brent, referência internacional para a precificação de combustíveis, recuperou a faixa de US$ 104 com o agravamento das tensões. A proposta iraniana de domingo, que incluía o fim das hostilidades no Líbano, compensações por danos, soberania no Estreito de Ormuz e garantia de não agressão, foi classificada pelo presidente dos EUA como inaceitável, mantendo o quadro de conflito ativo. Em relatório, o Daycoval destacou que o choque de oferta, potencializado pelo fechamento do Ormuz, é o principal motor da alta de preços. A decomposição do IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) do 1º trimestre de 2026 confirma o fenômeno: a variação acumulada de 1,4% teve 0,82 ponto percentual explicado por fatores de oferta, reversão clara após o arrefecimento observado em 2025.

Revisão de Expectativas no Relatório Focus

A persistente pressão inflacionária forçou ajustes no levantamento semanal de projeções de mercado, conhecido como Relatório Focus. A mediana para a Selic (taxa básica de juros da economia, definida pelo Comitê de Política Monetária) no fim de 2026 permanece em 13,00%, mas para dezembro de 2027 subiu de 11,00% para 11,25%. Na frente de preços, a expectativa para o IPCA de 2026 passou de 4,89% para 4,91%, enquanto a de 2027 estagnou em 4,00%. Ambos os indicadores se distanciam do centro da meta do Banco Central, fixado em 3,00%.

O que isso significa para o investidor

O ambiente atual exige reavaliação de duration (sensibilidade dos preços de títulos às mudanças na taxa de juros). Com a inflação de oferta resiliente e o petróleo acima da casa dos três dígitos, o espaço para flexibilização monetária se contrai. A renda fixa pós-fixada mantém atratividade real enquanto o Copom sinaliza cautela. Já os participantes de renda variável devem ponderar o custo de capital mais elevado, que historicamente comprime múltiplos de valuation (avaliação justa) e impacta o consumo final das famílias. O cenário base aponta para uma normalização gradual, dependente diretamente da trégua geopolítica e da eficiência do repasse cambial.

Riscos em Monitoramento

  • Interrupção definitiva das rotas marítimas pelo Estreito de Ormuz, desencadeando novo choque de commodities.
  • Desancoragem das expectativas de longo prazo caso o IPCA acumule pressão superior às projeções do mercado.
  • Valorização abrupta do dólar frente ao real, ampliando a importação de custos industriais e pressionando o balanço de pagamentos.

A próxima catalisadora imediata será a divulgação do IPCA de abril pelo IBGE, na manhã de terça-feira. O índice validará ou contestará a tese de inflação dominada pela oferta e determinará a precificação das opções para a reunião de junho do Banco Central.

As informações deste editorial foram produzidas pela redação do Ativo Virtual com base em reportagem publicada pelo(a) InfoMoney. Este conteúdo tem caráter exclusivamente informativo e não constitui recomendação de investimento. Decisões financeiras devem ser tomadas com o auxílio de um profissional certificado.