O mercado financeiro brasileiro enfrentou uma sessão de forte volatilidade e aversão ao risco nesta quinta-feira, marcada por um movimento de estresse agudo na curva de juros. O principal catalisador foi a combinação de uma inflação doméstica acima das expectativas com o agravamento severo das tensões geopolíticas no Oriente Médio. Esse cenário impulsionou as taxas dos DIs (Depósitos Interfinanceiros) — contratos que refletem a expectativa do mercado para os juros futuros — que fecharam o dia com altas expressivas, superando os 30 pontos-base em diversos vencimentos.

Inflação doméstica: IPCA surpreende e acende alerta nos serviços

O IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo), que é o indicador oficial de inflação do Brasil, registrou uma alta de 0,70% em fevereiro. O dado representou uma aceleração considerável frente aos 0,33% observados em janeiro e ficou acima da mediana das projeções do mercado, que apontava para 0,65%. No acumulado de 12 meses, a inflação atingiu 3,81%, descolando-se dos 3,77% inicialmente projetados por analistas.

Mais do que o índice cheio, a composição qualitativa do indicador preocupou os investidores. O setor de serviços, que possui grande peso na política monetária por ser mais resiliente, mostrou uma aceleração drástica. Os serviços subjacentes — uma métrica que exclui itens voláteis para captar a tendência real de preços — subiram de 0,57% para 0,64%.

Componente do IPCAJaneiroFevereiroVariação Mensal
IPCA Cheio0,33%0,70%+0,37 p.p.
Serviços0,10%1,51%+1,41 p.p.
Serviços Subjacentes0,57%0,64%+0,07 p.p.
Serviços Intensivos em Mão de Obra0,64%0,68%+0,04 p.p.
Média dos Núcleos (BC)0,42%0,62%+0,20 p.p.

Petróleo em patamares críticos e tensões no Estreito de Ormuz

No cenário externo, a crise no Irã adicionou uma camada de complexidade aos ativos brasileiros. A escalada bélica envolvendo Irã, EUA e Israel elevou o preço do petróleo tipo Brent para além da barreira dos US$ 100 por barril. O novo líder supremo iraniano, Mojtaba Khamenei, sinalizou a intenção de manter fechado o Estreito de Ormuz, ponto nevrálgico por onde circulam aproximadamente 20% do petróleo mundial. O ataque a petroleiros em águas iraquianas e a bases norte-americanas consolidaram o receio de um choque de oferta global.

Como o petróleo é uma commodity essencial, sua alta tem efeito direto na inflação global, pressionando os custos de transporte e produção. No Brasil, essa pressão reflete-se quase imediatamente nas expectativas inflacionárias, dada a política de preços de combustíveis e a dependência logística do setor rodoviário.

Reação na Curva de Juros e Impacto na Selic

A resposta do mercado de títulos foi imediata. A curva a termo de juros passou a precificar um cenário muito mais conservador para a próxima reunião do Comitê de Política Monetária (Copom). Antes do agravamento da guerra, o mercado trabalhava com a probabilidade majoritária de um corte de 50 pontos-base na taxa Selic (a taxa básica de juros da economia). Agora, a probabilidade saltou para 84% a favor de uma redução de apenas 25 pontos-base.

Além da decisão de curto prazo, a projeção para a Selic terminal ao fim de 2026 subiu para 13%, patamar significativamente superior aos 12,13% indicados pela mediana do Relatório Focus. Confira as taxas de fechamento dos principais contratos de DI:

Vencimento do DIAjuste AnteriorFechamento AtualVariação (bps)
Janeiro 202813,131%13,970%+31 pts
Janeiro 203513,654%13,855%+20 pts

Medidas Governamentais e o Cenário Externo

Para tentar conter a transmissão da alta do petróleo para os preços internos, o governo brasileiro anunciou um pacote de medidas emergenciais. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou a desoneração de PIS/Cofins (impostos federais) sobre o diesel, gerando uma redução estimada de R$ 0,32 por litro nas refinarias. Adicionalmente, foi instituída uma subvenção de outros R$ 0,32 por litro para produtores e importadores, além da criação temporária de uma taxa de 12% sobre as exportações de petróleo bruto para equilibrar as contas públicas.

Enquanto isso, nos Estados Unidos, os rendimentos dos Treasuries (títulos do Tesouro americano) também avançaram. O rendimento da nota de dois anos, extremamente sensível à política monetária do Federal Reserve, subiu 10 pontos-base, atingindo 3,732%. Esse movimento global de alta de juros dificulta a valorização do Real e pressiona ainda mais a inflação importada no Brasil.

O que isso significa para o investidor

O cenário atual exige cautela redobrada do investidor pessoa física. O aumento das taxas na curva longa de juros impacta negativamente o valor de mercado de títulos de renda fixa prefixados e IPCA+ através da marcação a mercado (o preço do título cai quando a taxa sobe). Por outro lado, novas alocações passam a oferecer taxas de retorno nominais mais atraentes.

No mercado de ações, o aumento da Selic terminal e o estresse nos juros futuros tendem a penalizar empresas de crescimento e aquelas com alto endividamento, pois o custo de capital sobe e o valor presente dos fluxos de caixa futuros diminui. Em contrapartida, setores ligados a commodities podem se beneficiar da alta do petróleo, embora o risco de intervenções governamentais e a tributação sobre exportações precisem ser monitorados de perto.

Principais Riscos no Radar

  • Choque Energético: A manutenção do petróleo acima de US$ 100 pode forçar reajustes adicionais nos combustíveis, realimentando o ciclo inflacionário.
  • Risco Fiscal: As medidas de subvenção e desoneração do diesel podem pressionar as contas públicas se não houver compensação clara de receita.
  • Desancoragem das Expectativas: Se o mercado continuar revisando a Selic terminal para cima, o Banco Central poderá ser forçado a encerrar o ciclo de cortes antes do previsto.
  • Geopolítica Global: A entrada direta de grandes potências no conflito iraniano pode gerar uma fuga generalizada de ativos de mercados emergentes para o dólar.

Perspectiva e Próximos Passos

O foco total dos investidores se volta agora para a reunião do Copom na próxima semana. O comunicado do Banco Central será decisivo para confirmar se a autoridade monetária adotará uma postura de "wait and see" (esperar para ver) ou se intensificará o tom de alerta diante dos núcleos de inflação resilientes e do choque externo de energia. Até lá, a volatilidade deve permanecer elevada nos contratos de DI e no câmbio.

As informações deste editorial foram produzidas pela redação do Ativo Virtual com base em reportagem publicada pelo InfoMoney. Este conteúdo tem caráter exclusivamente informativo e não constitui recomendação de investimento. Decisões financeiras devem ser tomadas com o auxílio de um profissional certificado.