O Banco do Japão escancarou a divisão interna sobre a velocidade do aperto monetário. O compilado de manifestações da reunião de setembro, divulgado nesta quinta-feira, mostrou que parte das autoridades defende subir os juros mais depressa — ou levar a taxa de referência para perto do nível considerado neutro o quanto antes. No encontro do mês passado, o banco levou os juros a 1,25%, o patamar mais alto em 31 anos.

A partir daí, o mercado passou a trabalhar com novas altas. Analistas começaram a projetar um novo aumento em outubro ou dezembro, depois que o presidente da instituição sinalizou uma fase dedicada a impedir que a inflação se distancie da meta.

Taxa a 1,25% ainda está no piso do intervalo neutro

O dado que explica a pressão sobre o Banco do Japão não é a alta em si, mas onde ela deixa a taxa. O patamar de 1,25% está próximo do limite inferior do intervalo estimado de 1,1% a 2,5% para a taxa neutra nominal do país — faixa em que a economia nem perde tração nem se aquece em excesso. Em outras palavras: mesmo após levar os juros ao ponto mais alto em três décadas, o Japão mantém uma política monetária estimulativa pelos próprios parâmetros do banco.

Isso ajuda a entender por que o Banco do Japão enfrenta mais pressão para apertar do que outras autoridades monetárias. Com a taxa colada ao piso do intervalo neutro, sobra menos espaço para lidar com uma inflação que insiste em rondar a meta de 2%. Vários membros do conselho avaliaram que a inflação subjacente — medida que exclui itens voláteis e capta a tendência dos preços — já alcançou ou está perto de alcançar esse alvo.

Governo pede cautela e esfria aposta em alta imediata

Se por dentro o debate é por mais aperto, por fora surgiu um freio. O mesmo compilado mostrou que um representante do governo pediu ao banco central que agisse com prudência diante de novas altas. O recado bastou para o mercado reduzir as fichas em uma nova elevação logo neste mês, e o iene passou a ser vendido.

A pesquisa trimestral divulgada nesta quinta-feira reforçou o movimento. O levantamento trouxe poucos indícios de que as expectativas de inflação estejam ganhando força a ponto de justificar uma alta imediata — o que arrefeceu ainda mais as chances de um aperto em outubro.

O que os membros do conselho defendem

O compilado revela graus distintos de urgência. Boa parte das manifestações citou a necessidade de dar sequência à alta de setembro com novo aperto, na medida em que as pressões inflacionárias se acumulam. Uma das autoridades deixou claro que a disposição de apertar cresce caso a inflação surpreenda para cima. Para outra, vale encurtar o caminho até o nível neutro estimado — assim sobra espaço de reação a imprevistos.

Um terceiro membro pregou equilíbrio: não há motivo para pressa, mas a taxa precisa subir para evitar reajustes de preços excessivos e duradouros, já que a inflação subjacente deve bater 2% em breve. Outra manifestação alertou que o banco não pode confundir prudência com imobilismo e deve agir na hora certa, diante dos riscos relevantes de alta para os preços, além de aprimorar a análise da estimativa da taxa neutra.

O teste das próximas reuniões e a meta de 2%

O próximo teste para o Banco do Japão é a leitura que o mercado fará das próximas reuniões. Com a meta de 2% ao alcance da mão e a taxa ainda no piso do intervalo neutro, o debate interno tende a seguir dividido entre acelerar o aperto e preservar a cautela pedida pelo governo.

Para quem acompanha ativos ligados ao Japão — do iene a bolsas e títulos internacionais —, o ponto a monitorar é o grau de convicção das autoridades. Um ritmo mais veloz de altas tende a dar suporte à moeda japonesa, enquanto a hesitação costuma pesar sobre ela. O mercado, por ora, aposta mais na segunda hipótese.