A gestora Legacy Capital mantém viés decididamente pessimista em relação ao mercado brasileiro, alertando para uma fragilidade estrutural agravada por tensões nas contas públicas e risco iminente de disparada cambial. Durante evento na Inter Asset na última terça-feira (16), a casa sinalizou que a alocação doméstica exige cautela cirúrgica, reforçando que a dependência de variáveis externas e a deterioração do ambiente interno inviabilizam operações direcionais em qualquer segmento do mercado local.
Pressões Inflacionárias e o Dilema da Taxa de Juros
O diagnóstico da Legacy aponta para um ciclo prolongado de ajustes. A projeção para o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo) é de 5% para o ano vigente e 4,7% para o próximo, patamares que superam as expectativas do relatório Focus e devem complicar a atuação do Banco Central nas próximas semanas. Mesmo com a NTN-B (títulos públicos federais indexados ao IPCA com pagamento semestral de juros) oferecendo taxa real de 8% ao ano, a atratividade relativa perde força diante de um juro real da Selic (retorno da taxa básica acima da inflação) fixado em torno de 9%, patamar que deve se estender por horizonte prolongado. A resolução de conflitos internacionais traz alívio pontual, porém a perpetuação das políticas econômicas atuais pode elevar os riscos país e comprometer a precificação dos ativos no médio prazo.
Posicionamento Tático e Performance dos Fundos
A estratégia prática espelha a aversão institucional ao risco doméstico. O portfólio da Legacy concentra 80% da exposição no exterior, alocando no Brasil apenas manobras táticas de curtíssimo prazo. A dinâmica opera pela redução de prazos e exigência de prêmios elevados. A casa entrou em títulos pré (com taxa de juros fixada na aquisição) quando a curva atingiu 14,87%, liquidando a posição três dias depois. No crédito privado, a seleção prioriza empresas com baixo nível de endividamento e capacidade de repasse inflacionário, com viés em infraestrutura. No exterior, o foco recai sobre cadeias de inteligência artificial nos EUA, semicondutores e memória em Taiwan e Coreia do Sul, absorvendo também a apreciação das divisas regionais. A performance recente valida o viés defensivo. O Legacy Capital Master, com patrimônio líquido de R$ 3,1 bilhões, registrou valorização de 1,64% em maio, acumula 4,53% em 2026 e totaliza 15,81% nos últimos 12 meses. Já o Legacy Capital Alpha, de perfil arrojado, devolveu 2,27% em maio, com volatilidade anual de 10,52%, contra 5,31% do Master.
| Fundo | Patrimônio | Retorno Maio | Acumulado 2026 | Retorno 12M |
|---|---|---|---|---|
| Master | R$ 3,1 bi | 1,64% | 4,53% | 15,81% |
| Alpha | - | 2,27% | - | - |
Seletividade na Bolsa e Projeções Fiscais
Em linha contrária ao pessimismo, a Tenax Capital aposta na geração de valor via fundamentos, não apenas em descontos pontuais. Alexandre Silvério, CEO da gestora, destaca retorno projetado para três anos de 28% ao ano, o melhor nível desde 2024. A carteira abriga Equatorial Energia (EQTL3), controladora de referência da Sabesp (SBSP3), e a rede de academias Smart Fit (SMFT3). A visão da casa mantém a inflação desancorada, projetando IPCA de 5,9% este ano, mesmo com juro real oscilando entre 8,5% e 9%. O quadro reflete desequilíbrio fiscal que inviabiliza a expansão sustentável do PIB. Para o ciclo eleitoral, a recomendação é portfólio balanceado, com peso em exportadores e margens de repasse. A Legacy vê maiores chances de reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva e receia a manutenção do gasto público. O mercado monitora declarações do ministro da Fazenda, Dario Durigan, que descartou debates sobre alteração da meta de inflação. Caso a pauta retorne, o fluxo de capitais tende a inverter. Apenas 31% dos gestores, conforme pesquisa do BofA, projeta Ibovespa acima de 190 mil pontos em 2026.
O que isso significa para o investidor
A clivagem entre grandes players revela um mercado onde preservação de capital disputa espaço com a geração de alfa. Para o investidor pessoa física, a estrutura de juros elevada por mais tempo comprime múltiplos de valuation e encarece o financiamento corporativo. A proteção via ativos estrangeiros ganha racionalidade, enquanto a exposição nacional demanda análise rigorosa de fluxo de caixa e pricing power. A indefinição política ampliará a dispersão no câmbio e na curva futura, exigindo revisão constante de duration. O ambiente macro privilegia liquidez e empresas resilientes a cenários de crédito restrito e custo de capital elevado.
Fatores de Risco Monitorados
- Depreciação acelerada da moeda local, criando cenário de estagflação e impacto direto na importação de bens intermediários.
- Tentativa de elevação na arrecadação tributária ou mudanças bruscas na orientação de política econômica.
- Commodities energéticas fixadas acima de US$ 60 o barril, obrigando reposição global de estoques e sustentando pressão externa sobre custos.
- Perda de ancoragem das expectativas, compelindo o Banco Central a sustentar a taxa básica de juros acima de 14%.
- Fragmentação política nas eleições, com resultado provável apenas no desfecho da campanha e volatilidade associada aos discursos.
Perspectiva e Próximos Passos
O investidor deve monitorar os boletins mensais de inflação e as atas do Copom, que definirão a postura da Selic. Sinais fiscais do Ministério da Fazenda e o reposicionamento de gestores institucionais nortearão o sentimento de mercado. A dinâmica do petróleo e a recomposição de estoques internacionais ditarão o custo de capital externo, enquanto a definição do cenário eleitoral brasileiro comandará os prêmios de risco na B3.
As informações deste editorial foram produzidas pela redação do Ativo Virtual com base em reportagem publicada pelo(a) InfoMoney. Este conteúdo tem caráter exclusivamente informativo e não constitui recomendação de investimento. Decisões financeiras devem ser tomadas com o auxílio de um profissional certificado.
