Na quinta-feira (8), o Tesouro Nacional colocou R$ 33,3 bilhões em títulos prefixados — desde dezembro de 2020 não se registrava volume financeiro tão alto em uma oferta desse tipo. O tamanho, porém, conta só parte da história: medido pelo risco que carrega, o leilão é o terceiro maior do ano. É nessa distância entre volume e sensibilidade a juros que aparece a explicação para o recuo das taxas logo depois do resultado.

42 milhões ofertados, 40,8 milhões vendidos

A oferta reunia 42 milhões de papéis, sendo 35 milhões em LTNs — prefixados de prazo tipicamente mais curto — e 7 milhões em NTN-Fs, que trazem cupom semestral. As LTNs foram integralmente absorvidas. Já as NTN-Fs deixaram 1,17 milhão de títulos sem comprador, e o total colocado terminou em 40,8 milhões.

DV01 de US$ 1,331 milhão: o terceiro maior do ano

O DV01 mede quanto o valor de uma carteira oscila a cada ponto-base de variação nas taxas — um ponto-base equivale a um centésimo de ponto percentual. Nessa operação, o indicador somou US$ 1,331 milhão, o terceiro maior patamar de 2026, conforme levantamento de Sergio Goldenstein, sócio e diretor da Eytse Estratégia.

LeilãoDV01 (US$ milhões)
29 de janeiro1,44
3 de setembro1,35
8 de outubro1,331

A ordem muda quando o critério deixa de ser o risco e passa a ser o dinheiro. Papéis de vencimento mais curto reagem menos a cada movimento da curva, e foi justamente a concentração em prazos curtos que reduziu o risco relativo da oferta. Luis Felipe Vital, estrategista-chefe de macro e dívida pública da Warren Investimentos, associa esse desenho à queda das taxas observada a partir das 10h30.

DI para 2032 recua 162 pontos-base em poucos pregões

No ajuste de 2 de outubro, o contrato futuro de Depósito Interfinanceiro com vencimento em janeiro de 2032 marcava 14,07%. O último fechamento ficou em 12,495%, o equivalente a 162 pontos-base de recuo em poucos pregões. O movimento vinha de antes: o primeiro turno das eleições provocou uma reprecificação ampla da curva, com juros em queda e a expectativa de que o Tesouro acelerasse as emissões para aproveitar a janela, segundo a Warren Investimentos.

Nem tudo caminhou na mesma direção na sessão de quinta. As taxas abriram em leve alta, influenciadas pelo tom negativo do exterior, e o resultado do leilão ficou abaixo do que a casa projetava. Um dia antes, a colocação de NTN-Bs havia sido menor do que o esperado — desempenho pior desses papéis frente aos prefixados, na avaliação de Vital —, o que amplificou a aposta em uma oferta grande.

84% e 164%: os comparativos da Warren

Pelos dados da Warren Investimentos, o financeiro do leilão de LTN e NTN-F ficou 84% acima do registrado no mesmo período do ano passado. O DV01, por sua vez, superou em 164% o da operação anterior.

O que a compressão de prêmios muda na carteira prefixada

Prêmio de risco menor se traduz em preço maior para os títulos já emitidos. Quando a curva cede, papéis comprados com taxas mais altas ganham valor na marcação a mercado — efeito que historicamente aparece nas cotas de fundos de renda fixa com exposição a títulos públicos. Na outra ponta, juros comprimidos reduzem o retorno contratado de quem compra agora.

Há também o efeito sobre o custo de financiamento do governo. Com taxas mais baixas e demanda firme, a tarefa de alongar a dívida prefixada fica mais barata, o que tende a se refletir nos próximos leilões. A sustentação desse quadro, no entanto, é eleitoral: na leitura predominante entre os participantes, um governo de direita com o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) eleito teria maior probabilidade de entregar um ajuste fiscal crível, o que abriria espaço para cortes mais profundos na Selic e prêmios menores. Caso essa percepção se altere, o movimento pode se inverter, e a marcação a mercado passa a trabalhar contra posições montadas com juros baixos.

A agenda de leilões e a temperatura do debate fiscal até a definição das urnas são os próximos pontos de leitura da curva de juros.