Lucro recorde de US$ 85 bi: por que os dividendos da Petrobras encolheram

O segundo trimestre de 2026 marcou um retorno triunfal das margens petroleiras, impulsionado pela retomada das cotações do barril de petróleo ao longo do ano. Contudo, a leitura fria dos balanços revela uma ruptura estrutural na distribuição de caixa entre as gigantes globais. Enquanto as majors internacionais expandem a remuneração aos acionistas, a estatal brasileira reduziu seus repasses absolutos, mesmo reportando um salto expressivo na lucratividade.

A média de lucro líquido do setor saltou de aproximadamente US$ 36,3 bilhões no primeiro trimestre para US$ 85,0 bilhões no segundo, refletindo uma alta de 134%. O levantamento, conduzido pela consultoria Elos Ayta com 15 das maiores petroleiras com dados comparáveis — a Equinor ainda não havia divulgado os números de junho de 2026 —, aponta um cenário de euforia nos números contábeis.

Em valores absolutos, o pódio do trimestre foi dominado por ExxonMobil (US$ 14,5 bilhões), Chevron (US$ 12,1 bilhões), Shell (US$ 10,8 bilhões) e Petrobras (US$ 10,1 bilhões). Somadas, essas quatro corporações concentraram cerca de 56% de todo o lucro líquido do grupo comparável no período. Na direção oposta, a Occidental Petroleum foi a única companhia da lista a apresentar queda de lucro na comparação trimestral, recuando de US$ 3,3 bilhões para US$ 3,0 bilhões (-11%), com a margem líquida encolhendo de 65,75% para 35,98% — ainda assim, o maior patamar de margem líquida entre todas as petroleiras analisadas.

O abismo da margem e a concentração de caixa

Mesmo com lucro nominal inferior ao das gigantes norte-americanas e europeias, a Petrobras seguiu entre as empresas mais rentáveis do setor. A companhia brasileira apresentou margem líquida de 30,97% e margem EBITDA (Lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) de 55,36%.

EmpresaMargem EBITDAMargem Líquida
Petrobras55,36%30,97%
Chevron33,14%17,43%
ExxonMobil24,46%12,83%
Shell23,92%11,21%
BP19,42%6,18%

A vantagem da estatal brasileira torna-se ainda mais evidente quando comparada às integradas de porte similar. Isso demonstra que, mesmo sendo significativamente menor que as três maiores petroleiras internacionais em escala, a Petrobras continua muito eficiente em converter receita em resultado operacional.

As maiores variações percentuais vieram de empresas menores ou mais dependentes de refino, que partiam de uma base baixa de comparação. A Phillips 66 saltou de US$ 0,2 bilhão para US$ 3,8 bilhões de lucro líquido (alta de 1.758%), enquanto a Marathon Petroleum foi de US$ 0,5 bilhão para US$ 5,1 bilhões (alta de 906%). Entre as gigantes, Chevron e ExxonMobil registraram os maiores avanços em termos absolutos, com o lucro subindo 446% e 247%, respectivamente.

Do total de 16 empresas mapeadas pela Elos Ayta, a composição geográfica é liderada por oito americanas (ExxonMobil, Chevron, Marathon Petroleum, ConocoPhillips, Phillips 66, Valero Energy, Occidental Petroleum e EOG Resources), seguidas por três canadenses (Canadian Natural Resources, Suncor Energy e Imperial Oil), duas britânicas (Shell e BP), uma brasileira (Petrobras), uma italiana (Eni) e uma norueguesa (Equinor).

O ralo do Capex e a nova matemática dos dividendos

No quesito remuneração, ExxonMobil, Chevron, Shell e Petrobras seguiram como as maiores pagadoras em valores absolutos, desembolsando US$ 4,3 bilhões, US$ 3,5 bilhões, US$ 2,2 bilhões e US$ 1,5 bilhão, respectivamente.

A Petrobras chama a atenção por ser a única entre essas quatro a reduzir o valor distribuído na comparação trimestral — caindo de US$ 2,2 bilhões para US$ 1,5 bilhão — mesmo com o lucro líquido crescendo 62% no período. Um fator que ajuda a explicar a diferença é a escala: ExxonMobil, Chevron e Shell são empresas maiores e, mesmo com margens inferiores às da Petrobras, conseguem gerar caixa suficiente para manter desembolsos nominalmente maiores.

Segundo análise de João Vitor A. Saccardo, Head da Mesa de Renda Variável, essa queda relativa da Petrobras como pagadora de dividendos entre as grandes petroleiras não parece refletir uma deterioração da capacidade operacional da empresa, mas sim de mudanças na forma como a companhia passou a alocar o caixa gerado.

A Petrobras direcionava 60% da diferença entre o fluxo de caixa operacional e os investimentos para remunerar os acionistas.

A mudança na política de remuneração reduziu a parcela do caixa destinada aos acionistas, mesmo com o fluxo operacional estável e preços favoráveis do petróleo. Em meados de 2023, o percentual passou para 45% do fluxo de caixa livre. O analista também destaca o efeito do aumento do Capex (investimentos em capital): como o fluxo de caixa livre corresponde ao caixa gerado pelas operações descontados os investimentos realizados, um volume maior de aportes reduz a base sobre a qual os dividendos são calculados.

Os investimentos da companhia praticamente dobraram em relação aos níveis observados em 2022. Entre 2021 e 2022, a companhia vinha de um longo processo de desalavancagem, venda de ativos e maior disciplina de capital — circunstâncias que permitiam converter uma parcela muito maior da geração de caixa em dividendos, levando ao pagamento de aproximadamente R$ 194 bilhões em 2022. Atualmente, a prioridade voltou a incluir crescimento e expansão da produção, o que naturalmente aumenta a retenção de recursos dentro da companhia.

Em 2026, os preços do petróleo voltaram a negociar em patamar alto, dando suporte aos resultados, mas agora o caixa adicional é dividido entre remuneração ao acionista, maiores investimentos e gestão da dívida. Mesmo em um ambiente de petróleo favorável, o benefício direto para o acionista tende a ser menor do que foi no biênio 2021/2022.