A Companhia do Metropolitano de São Paulo (Metrô SP) consolidou o avanço da Linha 17-Ouro ao registrar quatro propostas técnicas e financeiras válidas para a continuidade do monotrilho que integrará a zona sul ao Aeroporto de Congonhas. Os valores apresentados variam de R$ 49 milhões a R$ 91 milhões, sinalizando a retomada de um empreendimento adiado por mais de uma década e com impacto direto na avaliação de ativos de infraestrutura. O resultado do certame será divulgado em 20 de agosto, definindo o calendário de entregas que se estende até 2034.
Estrutura de Preços e Composição dos Consórcios
A licitação foca na adaptação do desenho original e na elaboração do projeto executivo (fase de detalhamento técnico que viabiliza a cotação precisa de insumos e a futura contratação da obra física) para quatro novas paradas: Panamby, Paraisópolis, Américo Maurano e Vila Paulista. O julgamento adotará o critério de menor preço aliado à solidez técnica. Três adicionais foram desclassificadas. A tabela abaixo detalha os lances validados:
| Consórcio Proponente | Empresas Integranes | Valor da Proposta |
|---|---|---|
| Projetista Linha 17-Monotrilho | ARX Brasil, Themag, Metroeng, Pedro Taddei e Ettec | R$ 48.985.070,73 |
| Hidroconsult-Agência E-Bonin | Hidroconsult, Agência E e Bonin | R$ 63.586.090,66 |
| Egis-Sener-Setec-EGT | Egis, Sener, Setec e EGT | R$ 71.305.926,25 |
| IMNP 17 | Intertechne, Maubertec, Nova Eng. e Pólux | R$ 91.361.067,00 |
O vencedor assumirá o ajuste do projeto original, já que o intervalo de mais de uma década desde o traçado inicial exige readequação às normas vigentes. A etapa de engenharia terá duração estimada de dois anos.
Cronograma Físico-Financeiro e Paralelismo Operacional
O planejamento original previa 18 estações conectando o Estádio do Morumbi ao Terminal Rodoviário do Jabaquara. Apenas oito foram erguidas. O trecho entre Congonhas e a Linha 9-Esmeralda teve operação parcial inaugurada em março, funcionando das 9h às 16h de segunda a sexta, com headway (intervalo entre trens) ampliado. A operação plena está programada para outubro.
A estatal segmentou a expansão remanescente para otimizar o fluxo de caixa e a execução física. A fase dois abrange as quatro estações em licitação. A fase três incluirá Estádio Morumbi, São Paulo-Morumbi, Vila Babilônia, Cidade Leonor, Hospital Sabóia e Jabaquara. A licitação para construção da fase dois está prevista para 2028, com início das obras em 2029 e duração de três anos, visando entrada em operação em 2032. O Metrô não aguardará a conclusão para iniciar a fase três, buscando entrega até 2034.
"Enquanto estiverem acontecendo as obras do trecho de Vila Paulista até Américo Maurano, paralelamente estaremos fazendo a contratação de projeto executivo e obras do trecho adjacente. Não vou esperar terminar o trecho dois para iniciar a licitação, projeto executivo e obras do outro trecho. Isso vai acontecer concomitantemente", afirma Roberto Torres Rodrigues, diretor de Engenharia e Planejamento do Metrô.
Revisão Contratual e Déficit da Concessão
O governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) avalia a retirada da Linha 17 do contrato com a concessionária Motiva, responsável pela operação após os testes iniciais. A análise técnica indica que o monotrilho apresentará déficit operacional (quando os custos de manutenção, energia e folha superam a arrecadação direta das tarifas). O bilhete vigente é de R$ 5,40. Segundo o gestor, a liberação do ativo permitiria realocar recursos para reforçar o serviço nas linhas 8-Diamante, 9-Esmeralda, 4-Amarela e 5-Lilás. A alteração depende de anuência da empresa e não possui prazo definido. A Motiva confirmou em nota o acompanhamento e o interesse estatal.
Evolução de Custos e Impactos Históricos
Anunciado em janheiro de 2010 para a Copa do Mundo de 2014, o projeto perdeu o traçado original do Morumbi para o Estádio do Corinthians, em Itaquera. A perda de financiamento federal e a deflagração da Operação Lava Jato, em 2014, paralisaram a iniciativa. As investigações apuraram desvios de R$ 10 bilhões, atingindo diretamente Odebrecht e Andrade Gutierrez. O Metrô rescindiu o contrato em 2016 e retomou os trabalhos em 2020. O orçamento inicial de 18 estações era de R$ 2,9 bilhões (R$ 7,1 bilhões em valores corrigidos). O custo real da primeira etapa atingiu R$ 5,97 bilhões.
O que isso significa para o investidor
A retomada da Linha 17-Ouro reflete a complexidade de modelar concessões de transporte de massa em cenários de restrição fiscal. Para o mercado de capitais, a licitação de projetos executivos antecipa a demanda por serviços de engenharia especializada, beneficiando indiretamente companhias do setor de construção pesada e gestão de infraestrutura listadas na B3. A discussão sobre o déficit da Motiva evidencia um padrão recorrente em PPPs (Parcerias Público-Privadas) e concessões: a assimetria entre projeções de demanda e receita tarifária real. Investidores que monitoram o setor de infraestrutura devem acompanhar a reequilíbrio econômico-financeiro do contrato, pois eventuais repasses de ônus ao Tesouro estadual podem pressionar as contas públicas e afetar a capacidade de endividamento para novas obras. Em um ambiente de taxa Selic elevada, o custo de capital de longo prazo para esses ativos permanece sensível, exigindo prêmios de risco adequados e mecanismos de reajuste contratual transparentes.
Fatores de Risco Monitorados
- Atrasos na licitação de construção: A transição entre projeto executivo e contrato de obras depende de aprovações ambientais e urbanísticas que podem alongar o ciclo para 2028.
- Descolamento orçamentário: O histórico de R$ 2,9 bilhões para R$ 5,97 bilhões na primeira etapa sinaliza risco de superávit de custos se não houver controle rígido de Capex (gastos de capital).
- Disputa contratual com a concessionária: A retirada da Linha 17 do pacote da Motiva pode gerar litígios judiciais sobre indenizações, travando recursos públicos por anos.
- Risco político-eleitoral: Mudanças de gestão ou priorização de portfólio estadual podem redirecionar verbas antes mesmo do início das obras em 2029.
- Déficit tarifário estrutural: A tarifa de R$ 5,40 pode não cobrir o OPEX (custos operacionais) do sistema de monotrilho, exigindo subsídios diretos ou renegociações que impactam o rating de crédito do estado.
Perspectiva e Próximos Passos
O calendário institucional aponta a divulgação do vencedor em 20 de agosto, iniciando a fase de detalhamento técnico que se estenderá por 24 meses. O mercado monitorará a licitação de construção prevista para 2028, o início efetivo dos canteiros em 2029 e a entrega operacional da fase dois em 2032. A decisão sobre a desvinculação da Motiva e os termos de compensação financeira definirão o risco regulatório do ativo para a próxima década.
As informações deste editorial foram produzidas pela redação do Ativo Virtual com base em reportagem publicada pelo(a) InfoMoney. Este conteúdo tem caráter exclusivamente informativo e não constitui recomendação de investimento. Decisões financeiras devem ser tomadas com o auxílio de um profissional certificado.
