As ações do grupo Natura (NATU3) recuaram 6% no pregão desta terça-feira (12), antes de recuperar parcialmente o terreno e fechar a manhã em baixa de 2,29%, negociadas a R$ 10,26. A reação imediata do mercado reflete a publicação de um balanço que ampliou o prejuízo líquido trimestral para R$ 445 milhões, mais que o triplo do rombo de R$ 152 milhões registrado na mesma janela de 2025.
Desempenho Financeiro do 1º Trimestre
Os resultados de janeiro a março evidenciaram contração simultânea em receita e eficiência operacional. A receita líquida contraiu 7,7%, fixando-se em R$ 4,75 bilhões. O EBITDA (Lucro Antes de Juros, Impostos, Depreciação e Amortização) recorrente despencou 55,7% em base anual, atingindo R$ 346 milhões. O CEO João Ferreira classificou o período como desafiador, mas alinhado às projeções internas. A diretoria financeira, comandada por Silvia Vilas Boas, sinalizou que o programa de redução de 25% do quadro administrativo começará a gerar efeitos a partir do segundo trimestre, com a integralização dos ganhos prevista apenas para o segundo semestre.
| Indicador (1T) | Valor Reportado | Variação Anual |
|---|---|---|
| Receita Líquida | R$ 4,75 bilhões | -7,7% |
| EBITDA Recorrente | R$ 346 milhões | -55,7% |
| Prejuízo Líquido | R$ 445 milhões | vs R$ 152 milhões (2025) |
Compressão de Margens e Impacto no Fluxo de Caixa
A combinação de desalavancagem operacional, despesas rescisórias e queda nas vendas comprimiu severamente a rentabilidade. A margem EBITDA sofreu erosão de 7,9 pontos percentuais na comparação anual. O efeito negativo refletiu-se diretamente na geração de caixa, com queima de FCF (Fluxo de Caixa Livre, indicador que mensura o capital disponível após investimentos de capital e manutenção da operação) negativa em R$ 430 milhões. Esse movimento foi impulsionado por desembolsos extraordinários vinculados ao acordo Chapman, custos do plano de ajustes, sazonalidade típica e fraqueza operacional.
Leitura das Corretoras: Suportes e Revisões
A análise institucional reforçou a fraqueza momentânea. A XP notou que o EBITDA ajustado ficou 6% abaixo do consenso, ainda que os custos rescisórios tenham sido menores que o esperado. O cenário macro adverso no Brasil e na Argentina forçou a elevação de repasses à rede de consultoras para estimular vendas.
“Como esperado, a Natura apresentou resultados fracos, com o macro permanecendo como vento contrário principalmente no Brasil e na Argentina, o que levou a companhia a aumentar os investimentos em consultoras para estimular a atividade”, avaliou a equipe da XP.
O Bradesco BBI mantém viés de curto prazo negativo, aguardando revisões baixistas. Contudo, destaca que o risco de queda mais acentuada encontra limitação no compromisso da Advent, estabelecido em R$ 9,75. O banco reitera a recomendação de compra com preço-alvo de R$ 17,00. A diretoria reafirmou as metas para 2026: margem EBITDA reportada acima de 14,1% e geração de caixa anual robusta, implicando margem próxima de 16% e captação de cerca de R$ 1,1 bilhão nos próximos nove meses.
O que isso significa para o investidor
Para o investidor pessoa física que monitora o setor de bens de consumo, o balanço ilustra os desafios inerentes a uma reestruturação corporativa em ambiente de demanda volátil. A migração de sistemas de gestão (ERP - Enterprise Resource Planning, ou software integrado de processos) programada para junho introduz um fator crítico de execução. O segundo trimestre será marcado por transição, com alerta explícito sobre turbulências durante o go-live (início da operação definitiva) do SAP. A estratégia de cortes busca eficiência de longo prazo, mas gera atritos contábeis imediatos. O mercado deve avaliar se a recuperação gradual no Brasil e a aceleração na América Latina Hispânica, favorecida por bases de comparação mais brandas no México e na Argentina, compensarão a inércia atual do canal direto.
Riscos Identificados
- Execução Tecnológica: A migração para o SAP em junho apresenta riscos operacionais que podem interromper temporariamente o faturamento e a logística.
- Volatilidade da Demanda: A dinâmica irregular nas vendas diretas, com concentração de fragilidade no Nordeste, pode atrasar a recomposição das margens.
- Cenário Macroeconômico: Ventos contrários na região exigem maiores incentivos à rede de consultoras, pressionando o custo das mercadorias vendidas.
- Dependência de Receita: As metas para o restante de 2026 permanecem atreladas a uma retomada orgânica consistente; sem isso, a geração de caixa projetada de R$ 1,1 bilhão pode não se materializar.
Perspectiva e Próximos Passos
A atenção dos participantes do mercado se volta para o ciclo de resultados do segundo trimestre, que validará se os ajustes comerciais na rede Avon e a redução de custos começam a se traduzir em eficiência. A capacidade da administração em navegar o processo de integração do ERP sem perdas de participação de mercado será o principal catalisador para a reavaliação dos múltiplos. A consolidação dos ganhos operacionais está prevista apenas para o segundo semestre, tornando a próxima divulgação um termômetro decisivo para a trajetória dos papéis na B3.
As informações deste editorial foram produzidas pela redação do Ativo Virtual com base em reportagem publicada pelo(a) InfoMoney. Este conteúdo tem caráter exclusivamente informativo e não constitui recomendação de investimento. Decisões financeiras devem ser tomadas com o auxílio de um profissional certificado.
