Dois lotes e R$ 127,9 milhões de receita anual autorizada

Os lotes 1 e 7 do leilão de transmissão da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel) ficaram com a Neoenergia (NEOE3) na disputa de 30 de outubro. Juntos, os contratos somam receita anual permitida (RAP) de R$ 127,9 milhões, valor que a transmissora recebe do sistema elétrico por manter as instalações disponíveis. A Aneel estima R$ 1,4 bilhão em investimentos nos empreendimentos da Bahia e da Paraíba.

A RAP é a métrica usada para comparar leilões de transmissão porque representa remuneração contratual, fixada no certame, sem vínculo com o volume de energia que circula pelas linhas. O que costuma pesar na análise desses ativos é a combinação de três variáveis: prazo de concessão, capital exigido e capacidade de execução da obra.

O aporte previsto pela agência equivale a quase onze vezes a receita autorizada a cada ano. A distância entre um número e outro é própria do modelo: a concessão dura 30 anos, contados da assinatura dos contratos, prevista para fevereiro de 2027, e os projetos têm de 42 a 48 meses para entrar em operação. O caixa tende a se formar de forma escalonada, conforme as linhas são energizadas.

834 km de linhas, com 351 km a construir

A extensão total dos dois contratos chega a 834 km. Desse conjunto, 483 km são instalações que já existem e 351 km precisam ser erguidos. A Aneel projeta 3.132 postos de trabalho gerados pelas obras.

ItemLote 1 (BA)Lote 7 (PB)
Linhas novas238 km113 km
Linhas já existentes483 km—
Capacidade de transformação700 MVA2.100 MVA
Prazo até a operação48 meses42 meses

A capacidade de transformação aparece em MVA (megavolt-ampere): o indicador mostra quanto de energia as subestações conseguem converter entre diferentes níveis de tensão. O lote paraibano concentra a maior exigência de transformação, com 2.100 MVA, embora tenha a menor quilometragem nova entre os dois.

A Bahia já estava no portfólio da companhia

O lote baiano, conforme a empresa, já pertencia à Neoenergia e voltou à disputa no certame. O pacote mistura ativos que a companhia opera com instalações novas que se conectam às suas redes de distribuição e transmissão.

Ativos em operação tendem a exigir menos esforço de implantação do que uma frente inteiramente nova, o que costuma reduzir o risco de execução e encurtar o caminho até a receita. O prazo de 48 meses previsto para o lote 1, no entanto, é o mais longo dos dois contratos.

6,7 mil km com o GIC e mais de 8 mil km próprios

A transmissão já é uma linha de negócio relevante para a companhia, que opera mais de 8 mil km de linhas no país. Em setembro, foi concluída a ampliação da parceria com o fundo GIC nesse segmento: a plataforma reúne 16 ativos, 6,7 mil km de linhas, valor de aproximadamente R$ 25,5 bilhões e RAP da ordem de R$ 2 bilhões, segundo a empresa. A Neoenergia responde por 51% da estrutura, e o GIC, pelos 49% restantes.

Os R$ 127,9 milhões anuais dos novos lotes representam uma fatia modesta diante dessa base — e o material não informa se os dois contratos serão aportados na plataforma conjunta. Os 351 km de linhas novas também são pequenos frente aos 6,7 mil km já reunidos na parceria, o que ajuda a explicar o porte incremental da operação.

O que observar até fevereiro de 2027

O primeiro marco é a assinatura dos contratos, prevista para fevereiro de 2027, quando começam a correr os 30 anos de concessão. Depois, o acompanhamento passa pelos cronogramas de obra: 42 meses para a Paraíba e 48 para a Bahia, contados a partir da assinatura, sem contar eventuais revisões de prazo solicitadas à agência.

A companhia sustenta que os projetos têm sinergia com a estrutura que já mantém nos dois estados. Na visão de Eduardo Capelastegui, CEO da Neoenergia, os lotes cabem numa agenda de expansão seletiva, com rigor na aplicação de recursos e foco em valor no longo prazo.

Para quem acompanha o papel, a natureza do negócio importa mais do que o valor absoluto do contrato. Receitas de transmissão são contratadas por décadas e tendem a ser menos sensíveis ao ciclo de consumo e à hidrologia do que a geração e a comercialização, o que dá previsibilidade à base de resultados. Em contrapartida, exigem desembolso pesado antes do primeiro real de RAP e dependem de execução dentro do prazo — vetores que os próximos balanços, com o avanço das obras, permitirão medir.