A confirmação de um caso de doença de Newcastle em uma granja comercial de Santa Catarina, na segunda-feira, colocou o mercado de proteínas em alerta. O país é o principal fornecedor global de carne de aves, e a reação foi imediata: as ações da MBRF (MBRF3) recuaram mais de 4% no pregão, enquanto os papéis da JBS (JBSS32), listados nos Estados Unidos, caíram 1%. O México, que foi o sétimo maior destino das aves brasileiras no ano anterior, bloqueou as compras de imediato. A Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) informou que o Brasil suspenderia voluntariamente os embarques destinados à China até que as autoridades chinesas digam se o bloqueio atinge o país inteiro ou fica restrito ao foco.
O que separa MBRF3 de JBSS32 na exposição ao risco
Na avaliação do Santander, a MBRF carrega risco comercial maior que a JBS, cuja presença internacional é mais ampla. Pequim absorve 10% de tudo o que o Brasil embarca em aves, e é justamente esse mercado que concentra a maior incerteza. O banco projeta que, mantidos os protocolos vigentes, eventuais barreiras alcançariam perto de 15% da produção nacional de aves. A JBS, por ter operações e vendas mais espalhadas pelo mundo, tende a absorver melhor choques localizados — mas não está imune, como mostra a queda de 1% de seus papéis. A MBRF, mais concentrada no frango brasileiro, sente o anúncio antes e com mais força.
| Indicador | Valor |
|---|---|
| Queda da MBRF3 na segunda-feira | mais de 4% |
| Queda da JBSS32 | 1% |
| Peso da China nas exportações brasileiras de frango | cerca de 10% |
| Produção sob protocolos de exportação | cerca de 15% |
| Recuo dos embarques em 2024 | cerca de 25% |
| Volume afetado em 2024 | 100 mil toneladas métricas |
| Bloqueio chinês ao Estado atingido em 2024 | até janeiro de 2026 |
2024: o precedente que ajuda a calibrar o tamanho do risco
O setor já passou por um teste parecido. Em julho de 2024, o Brasil registrou um foco da doença no Rio Grande do Sul, Estado vizinho a Santa Catarina. O JPMorgan calcula que os embarques de aves recuaram aproximadamente 25% naquele mês de restrições, uma perda de 100 mil toneladas métricas. As vendas externas se recuperaram rapidamente com a reabertura dos mercados, sem impacto significativo nos lucros da MBRF e da JBS, de acordo com o banco. O bloqueio chinês ao Estado atingido se estendeu até janeiro de 2026. México, União Europeia, Arábia Saudita e Japão estão entre os compradores relevantes que, no episódio anterior, reagiram de forma mais pontual: alguns afrouxaram exigências logo, outros limitaram o bloqueio à região do foco. O JPMorgan observa que vários países alteraram seus protocolos para um raio de ação, isto é, restringem o bloqueio a uma área delimitada ao redor do foco.
A conta de 4% contra 1% no risco das processadoras
Para quem acompanha o setor, a diferença de 4% para 1% resume o grau de proteção que a diversificação geográfica oferece. A JBS é uma empresa do mesmo segmento, mas com receita mais distribuída; a MBRF concentra mais a operação no frango brasileiro. Isso não significa que a JBS esteja imune: a queda de 1% mostra que o mercado também precificou o risco nela. Significa que o choque comercial tende a ser mais direto na MBRF. O número de 15% ajuda a dimensionar o problema: não é a produção inteira, mas uma fatia relevante o suficiente para mexer com preços e margens se a suspensão se prolongar.
O risco assimétrico entre as duas processadoras
Num cenário de bloqueio longo, a avaliação do Santander é que o volume seria desviado para compradores alternativos ou para o consumo doméstico, o que pode pesar sobre preços e margens. O México já interrompeu compras, e a ABPA informou que o Brasil se antecipou com o autoembargo à China. O mercado passa a monitorar três variáveis: a decisão de Pequim, a duração da suspensão e a capacidade de redirecionar volume. Enquanto essas respostas não vierem, a tendência é de volatilidade maior nos papéis do setor, com a MBRF mais sensível a manchetes negativas e a JBS funcionando como comparação de diversificação.
A decisão da China e a duração do autoembargo
A resposta chinesa é o item mais sensível da agenda. Se Pequim limitar as restrições à área afetada, o impacto tende a ficar contido; se optar por barrar todo o frango brasileiro, o alcance será outro. A rapidez da contenção sanitária e a extensão geográfica das restrições comerciais definirão se o episódio será um ruído de curto prazo ou um novo teste para as margens das processadoras.
