A sessão desta terça-feira, 21, foi dominada por pressão vendedora nos metais preciosos, reflexo direto das dúvidas que cercam a diplomacia entre Estados Unidos e Irã e do fortalecimento do dólar. Na Comex, divisão da bolsa de Nova York (Nymex) destinada a commodities, o contrato de ouro com vencimento em junho registrou retração de 2,26%, encerrando o pregão a US$ 4.719,60 por onça-troy (unidade de medida internacional equivalente a 31,1035 gramas). A prata para maio ampliou a desvalorização, cedendo 4,43% e fixando cotação em US$ 76,488 a onça-troy.

Dinâmica geopolítica e fluxo de capitais

A expectativa por uma nova rodada de negociações no Paquistão colidiu com o anúncio de última hora sobre a suspensão dos diálogos. O presidente norte-americano, Donald Trump, manteve discurso duro, descartou a extensão do cessar-fogo — que expira amanhã — enquanto o vice-presidente JD Vance permaneceu em Washington para reuniões na Casa Branca, ausentando-se do encontro com a delegação iraniana.

“Percepções de fim do conflito crescem, desencorajando as compras de ouro, à medida que países priorizam importações de energia, estabilização econômica e cambial sobre a diversificação de reservas com o metal”, aponta Daniel Ghali, analista da TD Securities.

Política monetária e o eixo dólar

A audiência de confirmação de Kevin Warsh, indicado à presidência do Federal Reserve (Fed, banco central dos EUA), adicionou camadas à leitura macroeconômica. A defesa explícita do dólar como alicerce do sistema financeiro global sugere que a administração busca políticas para valorizar a divisa, o que historicamente reprime o preço de ativos que não oferecem rendimento periódico.

Analistas da ANZ destacam que a pressão inflacionária, intensificada pelo conflito no Oriente Médio, pode forçar o Fed a manter a taxa de juros inalterada ou a promover cortes mais modestos. Como o ouro perde competitividade em ambientes de yield (rendimento fixo) elevado, a postura cautelosa de Warsh — que evitou comprometer a trajetória da política monetária, mesmo sob pressão pública de Trump — sustenta a aversão ao risco no segmento de commodities.

No vetor energético, o Secretário de Energia dos EUA, Chris Wright, reportou que o preço da gasolina atingiu um pico há cerca de uma semana. A estabilização inicial do combustível sinalizaria uma trajetória deflacionária, porém a imprevisibilidade sobre a duração da guerra mantém a probabilidade de adiamento indefinido dos cortes de juros, perpetuando um cenário menos atrativo para o metal amarelo.

O que isso significa para o investidor

No Brasil, a correlação entre o dólar forte e os juros americanos elevados impacta diretamente a precificação de contratos futuros e de fundos lastreados em commodities na B3. A manutenção do prêmio de risco externo tende a sustentar o diferencial real de juros, mantendo a atratividade da renda fixa local e pressionando ativos defensivos. A volatilidade cambial exige atenção ao efeito de alavancagem na conversão de contratos internacionais para o real.

A decisão da B3 (B3SA3) de ampliar o horário de negociação de futuros de criptoativos e ouro até as 20h, a partir desta segunda-feira, evidencia a demanda por maior liquidez e instrumentos de hedge (cobertura contra oscilações de preços ou câmbio) em janelas operacionais expandidas, permitindo que investidores ajustem posições com mais agilidade frente a ruídos geopolíticos fora do pregão tradicional.

Riscos mapeados

  • Prolongamento do conflito: Uma escalada militar ou o colapso das tratativas pode reacender a busca por refúgio em metais preciosos, revertendo rapidamente a tendência de baixa.
  • Restrição monetária persistente: Juros nos EUA elevados por período prolongado reduzem a atratividade relativa de ativos que não distribuem dividendos ou cupons.
  • Descolamento cambial: A apreciação do dólar frente ao real pode distorcer a rentabilidade em moeda local, exigindo monitoramento constante da paridade BRL/USD.

O mercado direcionará a atenção para a formalização do prazo do cessar-fogo e para os próximos comunicados do comitê de política monetária do Fed, que poderão definir a inflexão da curva de juros. O acompanhamento dos indicadores de inflação norte-americana e dos desdobramentos diplomáticos no Oriente Médio será determinante para antecipar a próxima fase de precificação dos metais.

As informações deste editorial foram produzidas pela redação do Ativo Virtual com base em reportagem publicada pelo(a) InfoMoney. Este conteúdo tem caráter exclusivamente informativo e não constitui recomendação de investimento. Decisões financeiras devem ser tomadas com o auxílio de um profissional certificado.