A economia dos Estados Unidos criou apenas 29 mil vagas líquidas em setembro, segundo o payroll — o relatório oficial de emprego do país, divulgado pelo Departamento do Trabalho —, bem abaixo da mediana de 85 mil postos projetada por analistas ouvidos pelo Projeções Broadcast. Em vez de punir o risco, o dado destravou alta generalizada em Wall Street nesta sexta-feira (2), com o mercado recalculando o quanto de aperto monetário o Federal Reserve ainda tem pela frente.

O raciocínio por trás do movimento é conhecido: um mercado de trabalho mais fraco reduz a pressão sobre o Fed para manter os juros altos por mais tempo. Isso enfraquece o dólar e derruba os rendimentos dos Treasuries — os títulos do Tesouro americano, referência global para o juro livre de risco —, combinação que costuma favorecer ativos de maior risco.

Nvidia e mais três ações de tecnologia tocam máxima histórica

Perto das 10h50 no horário de Brasília, o Nasdaq subia 1,47%, aos 26.766,723 pontos, à frente do S&P 500, que ganhava 0,91%, aos 7.736,24 pontos, e do Dow Jones, que avançava 0,60%, aos 51.230,64 pontos.

ÍndiceVariaçãoPontos
Dow Jones+0,60%51.230,64
S&P 500+0,91%7.736,24
Nasdaq+1,47%26.766,723

Nas ações de tecnologia, o apetite foi concentrado: Nvidia, CrowdStrike, Palo Alto Networks e AMD marcaram, cada uma, o maior preço já registrado em bolsa.

Revisões transformam julho em mês de perda de vagas

O relatório de setembro não é o único a acender o sinal amarelo. O Departamento do Trabalho revisou agosto de 162 mil para 133 mil vagas abertas e refez julho, que saiu de um saldo positivo de 21 mil postos para uma perda de 10 mil. O mês de julho, portanto, deixou de gerar emprego e passou a destruir vagas, o que muda a leitura da série: não é um dado isolado fraco, mas um trimestre com trajetória revisada para baixo.

O desemprego americano, por sua vez, avançou de 4,1% em agosto para 4,2% em setembro, contrariando a expectativa de analistas, que apontavam estabilidade. É o principal termômetro do mercado de trabalho dos EUA e uma das variáveis que orientam a política monetária.

Chance de alta do Fed em dezembro cai a 79,6%

Com o relatório mais fraco, o mercado reduziu de 86% para 79,6% a probabilidade de o Fed elevar os juros na reunião de dezembro, segundo o Fed Watch, ferramenta do CME Group. A maioria segue apontando para nova alta, mas a queda na precificação revela que parte do aperto dado como certo deixou de ser consenso.

No câmbio e na renda fixa, o dólar perdeu força e os retornos dos Treasuries recuaram, refletindo a perspectiva de uma política monetária menos restritiva do que a observada duas semanas antes.

Capital Economics vê mercado de trabalho sólido apesar do dado fraco

Para a consultoria Capital Economics, o ritmo mais fraco de contratação e o avanço do desemprego em setembro não bastam para deteriorar a percepção sobre um mercado de trabalho que segue aquecido de forma ampla.

Brent recua com decisão europeia sobre reservas estratégicas

O petróleo Brent recuava, sustentado pela decisão de países europeus de abrir suas reservas estratégicas, tomada sob pressão do governo de Donald Trump. O alívio nos preços da commodity reforça o apetite por risco nos mercados acionários.

O que muda para quem investe do Brasil

Para quem investe a partir do Brasil, a combinação de dólar mais fraco com rendimentos dos Treasuries em queda costuma reduzir o prêmio de risco exigido de emergentes, aliviando a pressão sobre o câmbio e sobre ativos domésticos. A outra face do mesmo dado é que um mercado de trabalho americano menos aquecido tende a arrefecer a demanda global, o que historicamente pesa sobre commodities — fatia relevante da pauta de exportação brasileira.

O ponto de observação daqui para frente é a reunião de dezembro do Fed, para a qual o mercado ainda precifica maioria em favor de nova alta. Caso os próximos relatórios de emprego confirmem enfraquecimento além do que as revisões sinalizam, o dado que hoje sustenta a alta das bolsas pode passar a ser lido como alerta sobre atividade, e não como alívio.