A Petrobras (PETR3; PETR4) intensificou as vendas de fertilizantes nitrogenados produzidos em suas fábricas no Nordeste para clientes em diversos estados brasileiros, atendendo a 12% da demanda nacional de ureia (principal fertilizante nitrogenado utilizado na agricultura) em meio às perturbações causadas por ataques recentes dos Estados Unidos e Israel ao Irã.
Retomada Operacional nas Unidades da Bahia e Sergipe
As plantas de fertilizantes na Bahia e em Sergipe reiniciaram as operações nos últimos meses e alcançaram níveis de 90% a 95% de sua capacidade máxima. Na Bahia, a unidade voltou em meados de janeiro e supera 95% na produção de ureia, equivalente a cerca de 1.300 toneladas por dia (t/d). Em Sergipe, a produção começou em dezembro e opera a 90% da capacidade, com 1.250 t/d de amônia (insumo químico usado na fabricação de fertilizantes e petroquímicos) e 1.800 t/d de ureia.
| Unidade | Produto | Capacidade Máxima (t/d) | Nível Atual |
|---|---|---|---|
| Sergipe | Amônia | 1.250 | 90% |
| Sergipe | Ureia | 1.800 | 90% |
| Bahia | Ureia | ~1.300 | >95% |
As vendas de ureia ocorrem a granel ou em big bags (sacos grandes para transporte de granéis sólidos) para clientes na Bahia, Goiás, Mato Grosso, Minas Gerais, Espírito Santo e São Paulo. Já a amônia abastece o polo petroquímico de Camaçari, na Bahia, e compradores locais.
Histórico de Hibernação e Retomada
Antes do controle direto pela estatal no ano passado, essas fábricas estavam arrendadas à Unigel e permaneciam inoperantes desde 2023 devido a problemas financeiros. A reativação atende a uma orientação do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, visando diminuir a dependência externa de adubos.
Dependência Externa e Fontes de Importação
O Brasil, maior potência agrícola global, importa a maior parte de sua ureia. No ano passado, entraram 7,7 milhões de toneladas, das quais apenas cerca de 2% vieram do Irã. Considerando o Oriente Médio como bloco, fornecedores como Omã, Catar, Arábia Saudita, Irã, Emirados Árabes Unidos e Bahrein responderam por 2,7 milhões de toneladas. Essa região atendia 35% da demanda externa brasileira de ureia em 2025, conforme registros recentes.
Tensões Geopolíticas no Oriente Médio
Os recentes ataques ao Irã, iniciados no fim de semana, afetam fluxos comerciais globais. O Estreito de Ormuz, passagem entre Omã e Irã que conecta o Golfo Pérsico ao Mar Arábico, responde por 20% do petróleo bruto consumido mundialmente. Um bloqueio superior a 40 dias poderia gerar escassez global de óleo.
O aumento da produção de ureia no Brasil pode ajudar a amortecer choques externos, e reduzir um pouco das incertezas que existem no mercado de nitrogenados, dada a nossa dependência das importações.
Tomás Pernias, analista de inteligência de mercado da StoneX
Expansão para Outras Unidades
A companhia planeja elevar a cobertura para 20% da demanda de ureia com a reativação da Araucária Nitrogenados S.A. (Ansa), no Paraná, prevista para o primeiro trimestre de 2026. Essa unidade tem capacidade anual de 720 mil toneladas de ureia e 475 mil toneladas de amônia, e abriu concurso para 126 vagas de níveis superior e médio. Já a Unidade de Fertilizantes Nitrogenados 3 (UFN-3), em Três Lagoas (MS), avança na fase de contratações, com aprovação final de investimentos no primeiro semestre de 2026 e retomada das obras ainda este ano, podendo levar a cobertura total a 35%.
O que isso significa para o investidor
Para o investidor pessoa física, a maior autossuficiência em fertilizantes nitrogenados reforça a resiliência operacional da Petrobras diante de volatilidades geopolíticas e flutuações no câmbio, que encarecem importações. Em um cenário de Selic elevada e IPCA pressionado por commodities, choques em adubos podem elevar custos agrícolas, impactando margens de produtores e, indiretamente, o Ibovespa via setores dependentes como agronegócio. Otimista: expansão produtiva sustenta receitas diversificadas além de óleo. Pessimista: persistência de conflitos globais mantém pressão sobre preços de insumos.
Riscos
- Manutenção da dependência majoritária de importações de nitrogenados, sujeita a interrupções em rotas comerciais internacionais.
- Fragilidade no poder de compra dos produtores rurais, agravada por relação de troca desfavorável entre milho e ureia, pior que em 2022, quando crédito era mais acessível e preços agrícolas elevados.
- Incertezas ampliadas pelo atual conflito, com dúvidas sobre suprimento mesmo com produção local crescente.
O poder de compra do produtor já não era bom antes de tudo isso. Agora, as dúvidas aumentam.
Jeferson Souza, analista de inteligência de mercado da Agrinvest Commodities
Investidores devem monitorar o primeiro trimestre de 2026 para a reativação da Ansa e o concurso de vagas, além da aprovação de investimentos para a UFN-3 no primeiro semestre, eventos que podem acelerar a redução da exposição externa. Acompanhar também evoluções no Estreito de Ormuz e negociações comerciais de fertilizantes.
As informações deste editorial foram produzidas pela redação do Ativo Virtual com base em reportagem publicada pelo(a) InfoMoney. Este conteúdo tem caráter exclusivamente informativo e não constitui recomendação de investimento. Decisões financeiras devem ser tomadas com o auxílio de um profissional certificado.
