O setor de energia na B3 operou em um cenário de forte volatilidade nesta terça-feira (10), marcado por uma desconexão entre a queda vertical das commodities no exterior e o desempenho das ações brasileiras. Enquanto os contratos futuros do petróleo registraram perdas superiores a 11% — o maior recuo percentual diário desde março de 2022 — os ativos das petrolíferas locais mostraram resiliência relativa. O movimento global foi desencadeado por declarações do presidente dos EUA, Donald Trump, que arrefeceram os temores de um bloqueio prolongado no Estreito de Ormuz, canal marítimo vital por onde circula cerca de 20% do suprimento mundial de óleo.

Desempenho das petroleiras brasileiras no pregão

As ações das produtoras de petróleo listadas no Brasil não acompanharam a magnitude do colapso internacional. A Petrobras (PETR4), principal empresa do setor no país, encerrou o dia com uma desvalorização de apenas 0,53%, cotada a R$ 42,93. Entre as chamadas junior oils (empresas de menor porte focadas em exploração e produção), os resultados foram mistos, indicando que fatores específicos de cada tese de investimento ajudaram a amortecer o choque externo.

AtivoTickerPreço de FechamentoVariação do Dia
Petrobras PNPETR4R$ 42,93-0,53%
PRIOPRIO3R$ 58,90-1,34%
Brava EnergiaBRAV3R$ 19,51-0,05%
PetroReconcavoRECV3R$ 12,89+0,23%

O colapso dos preços do petróleo no mercado internacional

No mercado global, a correção foi drástica. O petróleo Brent, referência para a precificação da Petrobras, recuou US$ 11,16, fechando a US$ 87,80 por barril. Já o WTI (West Texas Intermediate), referência para o mercado norte-americano, registrou queda de US$ 11,32, encerrando o dia a US$ 83,45 por barril. Ambos os indicadores haviam atingido as máximas de quatro anos na sessão anterior, o que acentuou o movimento de realização de lucros.

Intervenção verbal de Trump e escolta militar

A reversão de tendência começou no after market (período de negociação estendido após o fechamento regular) da sessão anterior. Donald Trump sugeriu que as hostilidades com o Irã poderiam cessar em breve, embora tenha mantido um tom de ameaça, afirmando que o país persa seria atingido 20 vezes mais duramente caso tentasse interromper o fluxo de energia. O clima de otimismo foi reforçado quando o secretário de Energia dos EUA, Chris Wright, informou que a Marinha norte-americana escoltou com sucesso um navio petroleiro pelo Estreito de Ormuz.

“Vimos hoje um colapso dos preços devido ao que costumávamos chamar de intervenção verbal do presidente”, afirmou Bob McNally, presidente do Rapidan Energy Group.

McNally destacou que o mercado está processando o fato de que o fechamento total do Estreito de Ormuz — algo que não ocorreu totalmente nem nos conflitos da década de 1980 — foi evitado. O governo dos EUA enfrenta pressão interna devido às Midterms (eleições de meio de mandato que renovam o Congresso) em novembro, onde o preço da gasolina é um tema central para os eleitores americanos.

O que isso significa para o investidor

Para o investidor brasileiro, o cenário exige cautela analítica. A resiliência das ações em relação à queda livre da commodity sugere que parte do mercado já precificava uma volatilidade geopolítica passageira ou confia na proteção de caixa das petroleiras locais. No entanto, a redução dos preços internacionais impacta diretamente a geração de receita e o fluxo de dividendos futuro, especialmente em empresas que possuem custos de extração mais elevados.

  • Cenário Macro: A queda do petróleo auxilia no controle da inflação global, o que pode influenciar a trajetória de juros nos EUA e, consequentemente, afetar o câmbio no Brasil.
  • Fator Político: A postura agressiva de Trump pode gerar novos picos de volatilidade se o Irã decidir responder militarmente ou atacar infraestruturas petrolíferas na região.
  • Valuation: Investidores devem observar se a queda nos preços das ações reflete apenas o movimento da commodity ou se há oportunidades baseadas em múltiplos de Ebitda (Lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) que se tornaram mais atraentes.

Riscos no radar do mercado

Apesar do alívio temporário, analistas como Andy Lipow, da Lipow Oil Associates, consideram prematuro declarar o fim da crise. Os principais riscos monitorados incluem:

  • Possível retaliação iraniana contra infraestruturas críticas de petróleo nas próximas horas ou dias.
  • Incerteza sobre a manutenção da segurança na navegação pelo Estreito de Ormuz sem a necessidade de escolta militar contínua.
  • Impacto das eleições americanas na política externa e na disposição dos EUA em intervir diretamente no mercado de energia.

Os investidores devem acompanhar de perto a resposta oficial do governo do Irã e os próximos carregamentos de óleo bruto que tentarão atravessar a região, pois qualquer novo incidente pode reverter o movimento de baixa dos preços visto nesta terça-feira.

As informações deste editorial foram produzidas pela redação do Ativo Virtual com base em reportagem publicada pelo InfoMoney. Este conteúdo tem caráter exclusivamente informativo e não constitui recomendação de investimento. Decisões financeiras devem ser tomadas com o auxílio de um profissional certificado.