O pregão desta segunda-feira (12), em Nova York, terminou sem direção única, e o petróleo organizou o dia. O Dow Jones Industrial Average ganhou 0,34%, equivalentes a 175,51 pontos, e fechou aos 51.830,46 pontos. Na outra ponta, o S&P 500 recuou 0,13%, aos 7.801,03 pontos, e o Nasdaq Composite cedeu 0,46%, aos 27.240,09 pontos. A referência internacional do Brent voltou a superar US$ 106 por barril, no maior nível em quase duas semanas, e os futuros do petróleo bruto americano subiram mais de 2%.
A escalada respondeu a um ataque mortal contra o aeroporto internacional de Riad, no fim de semana, que ofuscou a expectativa de ampliação da oferta mundial. Dias antes, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, havia elogiado novas exportações russas de diesel e comentado um cessar-fogo entre Rússia e Ucrânia voltado a alvos de energia. O risco para quem investe muda de tom: energia mais cara realimenta a inflação, e isso ocorre quando os rendimentos dos títulos do Tesouro americano já estão nas máximas de 24 anos — combinação que historicamente tende a encarecer o capital e a reduzir o apetite por ativos de risco.
Rendimentos em 24 anos convivem com 19% de chance de alta
O feriado do Dia de Colombo manteve o mercado de títulos do Tesouro fechado nos Estados Unidos. Mesmo sem negociação, o patamar recente dos rendimentos — o mais alto em 24 anos — segue no radar de quem opera ações, porque o petróleo caro alimenta justamente o indicador que o Federal Reserve observa para calibrar os juros. A presidente do Fed de Cleveland, Beth Hammack, defendeu que a autoridade monetária adote com relativa rapidez uma postura restritiva, argumentando que o avanço dos preços ficou mais generalizado e já começa a influenciar a definição de preços das empresas.
O discurso caminha em direção oposta ao que os contratos futuros sinalizam. Segundo a ferramenta FedWatch, da CME, a probabilidade atribuída a uma elevação dos juros americanos já neste mês é de apenas 19%. Enquanto uma dirigente pede urgência, o mercado trabalha com a hipótese de taxa estável no curto prazo. É essa divergência que explica boa parte da cautela da sessão.
Bancos abrem a temporada com lucro projetado de 30,6% no S&P 500
A temporada de balanços do terceiro trimestre começa pelo setor financeiro. Na manhã de terça-feira, três grandes bancos divulgam seus números do período: Goldman Sachs, Citigroup e JPMorgan Chase. A expectativa compilada pela LSEG IBES aponta avanço de 30,6% nos lucros das companhias do S&P 500, número que sustenta parte do otimismo que ainda circula apesar do placar misto dos índices.
Também entram na agenda de setembro os índices de preços ao consumidor e ao produtor americanos, além do termômetro das vendas do varejo. Ele também apontou cautela dos investidores diante da falta de referência do mercado de títulos.
O crescimento de lucro projetado é o principal contraponto ao cenário de energia caro e juro longo elevado: se os balanços confirmarem a projeção, o mercado ganha argumento para digerir os rendimentos; se vierem abaixo, o ajuste tende a ser rápido, porque as ações já carregam expectativas altas.
Energia sobe 1,4% e semicondutores derrubam tecnologia
| Setor do S&P 500 | Variação |
|---|---|
| Energia | +1,4% |
| Serviços de comunicação | +1,3% |
| Tecnologia | -1% (aprox.) |
| Consumo discricionário | -0,6% |
Energia ficou no topo entre os 11 setores que compõem o índice, seguida por serviços de comunicação, que avançou 1,3% com impulso da Meta, cujas ações subiram mais de 4%. Apenas dois setores fecharam no vermelho. Tecnologia registrou a maior queda, perto de 1%, com fraqueza concentrada nas fabricantes de chips: o índice de semicondutores da Filadélfia perdeu 2,6% depois de tocar a mínima de três semanas.
No consumo discricionário, a retração de 0,6% teve como um dos destaques negativos o Chipotle Mexican Grill, que caiu 5% após a Starbucks informar que não compraria a rede de restaurantes de burritos. Do lado positivo, a Microsoft avançou 0,9% e o valor de mercado da companhia passou da marca de US$ 4 trilhões, algo que não ocorria há um ano, na esteira do anúncio de um plano para instalar em larga escala processadores próprios de inteligência artificial. A Salesforce ganhou 1,3% após o BofA Global Research revisar para cima sua avaliação do papel, que saiu de desempenho abaixo da média para compra. O eBay, por sua vez, avançou mais de 4% depois de entrar na lista de principais escolhas do Morgan Stanley.
277 novas mínimas na Nasdaq revelam a amplitude do pregão
Os números de amplitude ajudam a medir a qualidade do movimento. Na Bolsa de Nova York, o placar ficou em 1,01 ação em alta para cada uma em queda, com 122 novas máximas e 214 novas mínimas. Do outro lado, a Nasdaq teve 2.828 papéis em queda contra 1.866 em alta — desvantagem de 1,52 para 1. No S&P 500, foram anotadas 10 máximas de 52 semanas diante de 5 mínimas do mesmo tipo; no Nasdaq Composite, o placar foi de 47 máximas contra 277 mínimas. O desequilíbrio costuma indicar ganhos concentrados em poucos nomes, e não uma recuperação ampla.
Duas pressões que chegam à carteira do investidor brasileiro
Para quem investe do Brasil, a combinação do dia tem duas consequências práticas. A primeira é o custo do dinheiro: rendimentos dos títulos americanos no maior nível em 24 anos tendem a elevar o prêmio exigido de ativos de risco em mercados emergentes, o que costuma pressionar moedas e aumentar a taxa de desconto aplicada a ações. A segunda é a inflação: com o petróleo acima de US$ 106, a energia deixa de ser alívio e volta a ser fonte de pressão sobre preços, o que reduz a margem de manobra dos bancos centrais.
Nada disso, porém, elimina o outro lado da balança. Um ambiente de petróleo caro tende a favorecer empresas ligadas a commodities energéticas, e os 30,6% de crescimento de lucro projetados para o S&P 500 mostram que o setor corporativo americano não entrou em modo de contração. O que o pregão de segunda sinaliza é que o mercado vai cobrar confirmação: primeiro nos balanços dos bancos, na terça-feira, e depois nos dados de inflação e de vendas no varejo dos Estados Unidos.
