PIB de 0,5% no 2º tri: a fraqueza do consumo e o viés de baixa para os juros
O Produto Interno Bruto (PIB - soma de todos os bens e serviços produzidos no país) avançou 0,5% no segundo trimestre, numa leitura superficial de resiliente, mas que esconde uma desaceleração estrutural nos setores sensíveis ao crédito. Após subir 1,1% nos primeiros três meses do ano, o resultado recente foi sustentado quase que exclusivamente por setores menos expostos ao ciclo econômico doméstico, evidenciando que o aperto monetário já cobra seu preço da atividade econômica.
O abismo entre o agro e o varejo
A sustentação do PIB no período veio da agropecuária e da indústria extrativa mineral, atividades atreladas a safra e extração de petróleo e gás, cujo comportamento foge das oscilações da taxa básica de juros. Em contrapartida, os componentes que dependem de financiamento e renda discricionária despencaram. O principal sinal de alerta veio da retração no consumo das famílias, acompanhada por recuos na indústria de transformação e na construção civil.
O arrefecimento também alcançou o setor de serviços, tipicamente cíclico, que viu sua expansão na base interanual encolher de 2,1% no primeiro trimestre para 1,5% no segundo. Roberto Padovani, do banco BV, avalia que o peso dos juros já afeta a indústria de transformação de maneira contundente, e a expectativa é que o desempenho do agro diminua no terceiro trimestre, enquanto o efeito do aperto monetário continua se espalhando.
Rodolfo Margato, da XP, classifica os resultados desagregados como fracos, apontando sinais de uma economia que perde tração a despeito de um mercado de trabalho ainda aquecido e de uma série de estímulos à demanda no curto prazo. Para ele, o consumo das famílias ficou bem aquém do projetado. Natalie Victal, da SulAmérica Investimentos, corrobora a visão ao afirmar que o qualitativo veio um pouco pior do que o headline sugere.
Gustavo Rostelato, da Armor Capital, reforça que a queda no consumo somada a uma absorção doméstica praticamente estável evidenciam a perda de tração da demanda interna. Leonardo Costa, do ASA, complementa que os segmentos mais sensíveis ao ciclo econômico doméstico continuam perdendo dinamismo, com indicadores já sugerindo a entrada dessa fraqueza no terceiro trimestre.
Revisões generalizadas e a curva da Selic
Diante do desgaste dos setores que mais sentem o peso do crédito, as principais mesas de análise ajustaram suas projeções. A leitura analítica indica que a inércia dos indicadores antecedentes já sinaliza a entrada dessa fraqueza no terceiro trimestre.
A XP atribuiu um viés baixista à sua projeção atual de crescimento de 2% para o PIB de 2026, calculando estagnação no segundo semestre. Para 2027, a casa projeta alta de apenas 1%. No front monetário, a expectativa é de continuidade do afrouxamento pelo Copom (Comitê de Política Monetária do Banco Central), com três cortes sucessivos de 0,25 ponto percentual. A Selic (taxa básica de juros) deve encerrar 2026 em 13,25% e chegar a 11,5% em 2027.
O ASA revisou a projeção de avanço do PIB de 2026 de 2,0% para 1,8%, esperando um crescimento modesto de 0,2% no terceiro trimestre e expansão de 1,5% para 2027. O Banco Daycoval ajustou a estimativa de 1,7% para 1,8%, mas alerta para um segundo semestre com crescimento variando entre 0,15% e 0,2%. O Banco BV mantém a previsão de alta de 1,9% no acumulado do ano, prevendo avanço reduzido de 0,2% no terceiro trimestre.
| Instituição | PIB 2026 | PIB 2027 | Projeção 3º Tri | Selic Fim 2026 |
|---|---|---|---|---|
| XP | 2,0% (viés de baixa) | 1,0% | Estagnação | 13,25% |
| ASA | 1,8% | 1,5% | 0,2% | - |
| Daycoval | 1,8% | - | 0,15% a 0,2% | - |
| BV | 1,9% | - | 0,2% | - |
O que o investidor deve monitorar
A dissipação do efeito dos estímulos de demanda e a propagação do aperto monetário pela economia real exigem cautela na alocação de recursos em ativos atrelados ao consumo interno. A dinâmica atual tende a impor um ambiente de margens pressionadas para empresas dependentes de crédito. O monitoramento dos dados de serviços e da confiança do consumidor será o termômetro para validar se a estagnação do segundo semestre se tornará uma tendência de longo prazo.
