Os preços na saída das fábricas chinesas subiram 5% em setembro na comparação anual, o maior ritmo em mais de quatro anos, enquanto a inflação sentida pelo consumidor ficou em 0,9% e veio abaixo da previsão de 1% dos economistas. O contraste entre os dois indicadores, divulgados na quarta-feira (14) pelo Departamento Nacional de Estatísticas da China, revela uma economia em que os custos industriais avançam sem encontrar demanda suficiente para chegar ao bolso das famílias.
PPI a 5%, maior alta desde junho de 2022
O índice de preços ao produtor — o PPI, que mede a variação de preços na saída da fábrica, antes de o produto virar preço de prateleira — passou de 3,8% em agosto para 5% em setembro e superou a projeção de 4,5% apurada em pesquisa da Reuters. É o avanço mais rápido desde junho de 2022.
A origem da pressão explica mais do que o número isolado. Petróleo e outras commodities encareceram por causa de interrupções no transporte, de condições climáticas adversas e de tensões geopolíticas, empurrando os custos da indústria para cima. Do outro lado, a demanda fraca limitou o quanto desse custo chegou ao consumidor.
Segundo Nguyen Hoang Nam, economista da Capital Economics dedicado à China, “Grande parte da pressão de alta ainda veio das interrupções no abastecimento de commodities causadas pelo conflito no Oriente Médio, com os preços subindo de forma particularmente acentuada no processamento de combustíveis, produtos químicos e metais não ferrosos”.
| Indicador (variação anual) | Setembro | Agosto | Consenso |
|---|---|---|---|
| PPI (preços ao produtor) | 5,0% | 3,8% | 4,5% |
| IPC (preços ao consumidor) | 0,9% | 0,8% | 1,0% |
| Núcleo do IPC | 1,0% | 1,0% | não informado |
| Gasolina | 16,6% | não informado | não informado |
Gasolina sustenta o IPC, núcleo não se mexe
Na ponta do consumidor, o IPC subiu 0,9% em 12 meses, um pouco acima dos 0,8% de agosto, mas abaixo do 1% esperado. A gasolina respondeu por boa parte desse movimento: alta de 16,6% no período e contribuição de cerca de 0,47 ponto percentual para o índice cheio, conforme a agência de estatísticas.
O núcleo — que retira alimentos e energia da conta para isolar a tendência de fundo — marcou 1%, sem alteração ante agosto. Na comparação mensal, o IPC avançou 0,2%, menos que os 0,4% de agosto e que a expectativa de 0,3%.
Pequim adiciona 550 bilhões de iuanes ao estímulo
No mesmo dia dos dados de preços, Pequim ampliou o suporte à atividade ao aprovar 550 bilhões de iuanes — cerca de US$ 82,15 bilhões — em cotas não utilizadas de títulos de dívida pública de governos locais, ou seja, limites de emissão já autorizados e não aproveitados, destinados a infraestrutura e outros gastos. A medida se soma a subsídios para hipotecas.
O esforço ainda não mudou o quadro de fundo: o gasto das famílias continua moderado e a confiança do setor privado, frágil, o que reforça a percepção de uma retomada desigual, sustentada mais pelas exportações do que pelo consumo interno.
O que o dado chinês muda para quem investe no Brasil
Para carteiras com exposição ao ciclo de matérias-primas, a informação relevante não está no número da inflação chinesa, e sim na composição da demanda que a sustenta. Se a recuperação depende mais das vendas externas do que do gasto doméstico, o consumo de insumos tende a permanecer atrelado à atividade industrial, e não ao bolso do consumidor chinês.
Um PPI que acelera sem contrapartida equivalente no IPC sugere repasse de custos travado. Historicamente, esse tipo de configuração costuma pressionar margens industriais e esfriar a demanda por novos insumos — movimento que tende a aparecer, com defasagem, nos preços das commodities e no desempenho de ativos ligados a esse ciclo.
Dois pontos merecem acompanhamento nos próximos meses: se a distância entre os dois índices encolhe ou se amplia, e se o pacote de 550 bilhões de iuanes se converte de fato em atividade. São eles que ajudam a calibrar o apetite global por matérias-primas, do qual o mercado brasileiro é historicamente sensível.
