A inflação ao produtor dos Estados Unidos veio bem acima do previsto e reavivou o temor de juros mais altos, mas não foi capaz de derrubar o conjunto das bolsas europeias. O Stoxx 600, índice pan-europeu, avançou 0,38% e encerrou aos 640,16 pontos, mesmo com o setor de tecnologia recuando 1,4% na esteira da onda de vendas global que castiga as ações ligadas à inteligência artificial. Balanços corporativos e o desempenho das telecomunicações amorteceram o impacto, deixando as principais praças do continente com fechamento divergente.
PPI americano supera o dobro da projeção e pressiona o Fed
O gatilho da aversão a risco veio de Washington. O PPI americano — sigla em inglês para índice de preços ao produtor — avançou 1,3% em setembro, contra 0,5% projetados, e acumulou 6,3% em 12 meses. O núcleo do indicador subiu 0,7% no mês e 5% no acumulado de 12 meses.
Leituras de preços ao produtor acima do esperado costumam reforçar a percepção de que a inflação chega ao consumidor com força, o que amplia a aposta em uma política monetária mais dura do Federal Reserve (Fed, o banco central americano). Foi esse movimento de precificação que dominou o pregão, reavivando o receio de novas altas de juros.
Do lado europeu, a indústria da zona do euro encolheu 0,5% em agosto, quando se esperava avanço de 0,1% — sinal de fragilidade da atividade na região. O petróleo também cedeu ao longo do dia.
Índices de Londres, Frankfurt e Paris fecham no azul
Apesar do ambiente externo adverso, os índices nacionais não acompanharam a queda da tecnologia e fecharam majoritariamente positivos.
| Índice | Praça | Variação | Fechamento |
|---|---|---|---|
| Stoxx 600 | Pan-europeu | +0,38% | 640,16 pts |
| FTSE 100 | Londres | +1,08% | 10.840,35 pts |
| DAX | Frankfurt | +0,27% | 25.368,04 pts |
| CAC 40 | Paris | +0,78% | 7.934,70 pts |
Londres registrou o maior avanço entre as praças listadas, com o FTSE 100 subindo 1,08%, seguido por Paris (0,78%) e Frankfurt (0,27%).
ASML, Infineon e STMicro puxam tombo de 1,4% da tecnologia
A onda vendedora do dia se concentrou em duas frentes: fabricantes de semicondutores e companhias de infraestrutura para centros de dados.
Na Holanda, a ASML — companhia de maior valor de mercado do continente — perdeu 4%. No mesmo país, ASM International cedeu 7,1% e BE Semiconductor, 5,4%. Na Alemanha, a Infineon recuou 5,1%, e a STMicroelectronics, 3,5%.
Fornecedoras de equipamentos e cabeamento para data centers também sentiram o golpe: a italiana Prysmian devolveu 2,7%, e a Siemens Energy perdeu cerca de 2,1%.
Ações de crescimento, como as de tecnologia, costumam sofrer mais quando o custo do dinheiro sobe, porque parte relevante do retorno está projetada em fluxos de caixa futuros.
Ericsson salta 7,2% e Pernod avança com a Índia
Na contramão da tecnologia, resultados corporativos deram sustentação ao mercado. A sueca Ericsson disparou 7,2% depois de reportar lucro trimestral superior às estimativas, dando fôlego ao setor de telecomunicações.
Já a francesa Pernod Ricard somou 0,7% ao apresentar uma queda de vendas menor que a projetada, amparada em parte por um avanço de 19% nas vendas indianas.
Juros dos EUA e correção da IA: o efeito no apetite por risco
O dia europeu ajuda a organizar a leitura de risco do investidor brasileiro. Com o PPI americano acima do esperado, a discussão sobre juros altos por mais tempo nos Estados Unidos tende a ganhar força. Esse é um vetor que historicamente mexe com o dólar e com o apetite por risco em praças emergentes, incluindo a B3, conforme títulos americanos se tornam relativamente mais atraentes.
A concentração da queda no segmento de tecnologia, enquanto o índice amplo fechou no campo positivo, sugere que a correção do tema de inteligência artificial não é generalizada. Para quem acompanha o setor, a volatilidade tende a permanecer elevada, sobretudo em nomes ligados a semicondutores e à infraestrutura de data centers.
A queda do petróleo acrescenta um elemento de atenção para quem tem exposição a commodities. Em um pregão de sinais opostos, o que se observa é um mercado mais seletivo, no qual o fluxo que puniu a tecnologia premiou resultados corporativos consistentes.
