A Raízen S.A. (B3: RAIZ4) deu um passo decisivo em sua reestruturação financeira ao divulgar os termos finais de seu Plano de Recuperação Extrajudicial. Em comunicado enviado à CVM nesta terça-feira (3), a companhia convocou assembleias de debenturistas e detentores de CRAs para votar a proposta, que inclui injeção de capital, conversão de parte da dívida em ações e novas regras de governança. A medida visa garantir a sustentabilidade do grupo e destravar o fluxo de caixa, com fechamento da operação previsto para março de 2027.

Três caminhos para os credores

O documento detalha três alternativas de pagamento, permitindo que os credores escolham a opção que melhor se adequa ao seu perfil de risco:

  • Opção A (Dívida + Ações + Capital Novo): 55% da dívida reestruturada será convertida em novos instrumentos de crédito (alocados entre Raízen Energia e Raízen Combustíveis), com juros variando entre CDI + 125 a 275 bps, USD a 7%-8,5% a.a. e EUR a 6,15%-7,65% a.a., vencendo entre 2032 e 2035. Os 45% restantes serão convertidos em ações ao preço de R$ 0,25 por unidade (combinando ações ordinárias e preferenciais). A transação conta com aporte inicial de R$ 3,5 bilhões da Shell e potencial reforço de R$ 500 milhões por um veículo da Aguassanta Investimentos S.A.
  • Opção B (Deságio + Prazo Longo): Focada na Raízen Energia, aplica um deságio de 80% sobre o crédito (abatendo primeiro juros e depois o principal). O pagamento será único em março de 2047, corrigido pela TR para créditos em real.
  • Opção C (Pagamento em Caixa): Quitação imediata pelo menor valor entre 75% do crédito ou R$ 9.750,00. O montante total é limitado a R$ 150 milhões e será distribuído progressivamente, priorizando credores com menores valores.

Governança, desinvestimentos e próximos passos

Entre a assinatura e o fechamento, a gestão atual permanecerá no comando, sob supervisão de um Comitê de Credores (5 membros) e de um Consultor de Reestruturação (CRAO). Após o fechamento, o Conselho de Administração passará a contar com sete integrantes: quatro indicados pelos credores apoiadores (incluindo o presidente), três pelos acionistas contribuintes (Cosan e Shell) e garantia de uma cadeira para a Shell enquanto houver contrato de licenciamento de marca vigente.

Como contrapartida, a companhia se compromete a buscar uma transação tributária federal, redefinir obrigações de reembolso de acionistas e implementar um plano de desinvestimento de ativos não essenciais de energia e de certas usinas. Um processo competitivo para atrair investidores para a Raízen Combustíveis também será iniciado. As partes estabelecem como marcos o fechamento até 31 de março de 2027 e a segregação dos negócios até dezembro do mesmo ano, com lock-up (período de restrição à venda) de até 12 meses para credores e acionistas.

O que muda para investidores

Para o mercado, o plano sinaliza uma tentativa estruturada de reduzir a alavancagem do grupo e restaurar a previsibilidade de caixa. A conversão de 45% da dívida em ações a R$ 0,25 por unidade tende a diluir os acionistas atuais no curto prazo, mas o aporte robusto da Shell e a busca por um sócio estratégico na unidade de combustíveis podem trazer fôlego financeiro e operacional. As novas garantias (first lien, que dão prioridade de recebimento) e covenants típicos de high-yield reforçam a segurança dos credores, enquanto o limite de pré-pagamentos sem prêmio mantém flexibilidade para a companhia. A aprovação nas assembleias é o próximo gatilho crítico: caso o plano seja rejeitado, a incerteza sobre o fluxo de caixa e o risco de inadimplência aumentam significativamente. Investidores de RAIZ4 devem acompanhar as decisões do Comitê de Credores e os desdobramentos do processo de cisão de ativos.

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