A XP Investimentos atualizou suas projeções para a RD Saúde (RADL3), consolidando uma visão otimista que projeta um preço-alvo de R$ 32,00 para as ações da companhia. O novo patamar representa um potencial de valorização (upside) de 43,6% em relação ao fechamento anterior de R$ 22,30. A tese de investimento da corretora baseia-se na liderança incontestável da rede no varejo farmacêutico brasileiro e na sua capacidade de capturar a explosão de demanda por medicamentos da classe GLP-1, utilizados no tratamento da obesidade e diabetes.
A dinâmica transformacional dos medicamentos GLP-1
O mercado de fármacos GLP-1 (Glucagon-Like Peptide-1), que engloba nomes de peso como Ozempic e Mounjaro, deixou de ser um nicho para se tornar o principal motor de crescimento da RD Saúde. De acordo com o levantamento analítico, o faturamento total deste segmento deve atingir R$ 17 bilhões em 2026, com uma projeção de salto para R$ 28 bilhões já em 2027. Embora o mercado tenha demonstrado cautela devido a episódios de falta de estoque no início de 2026, os dados de monitoramento de importações da XP revelam uma normalização robusta, com um crescimento de 134% no volume importado no primeiro trimestre de 2026 em comparação ao ano anterior.
Uma nova fronteira de expansão é esperada para o segundo semestre de 2026. A farmacêutica EMS deve lançar as primeiras versões genéricas da semaglutida — o princípio ativo do Ozempic e Wegovy. Com tickets mensais estimados em R$ 600,00, esses genéricos devem democratizar o acesso ao tratamento, gerando um novo ciclo de volume de vendas para a RD Saúde, compensando eventuais reduções de margem bruta por meio do ganho de escala.
Barreiras competitivas e o 'fosso' logístico
A entrada de grandes players do comércio eletrônico, como o Mercado Livre (MELI34), e a potencial liberação de vendas de medicamentos em supermercados trouxeram ruído ao setor. No entanto, a análise técnica aponta que a RD Saúde possui ativos dificilmente replicáveis. Com mais de 3,5 mil lojas espalhadas pelo Brasil, a companhia detém uma capilaridade física que serve como hubs logísticos estratégicos.
Medicamentos de alta tecnologia exigem o que o mercado chama de "cadeia de frio" — um controle rigoroso de temperatura desde a fabricação até a entrega final. Modelos de marketplace, como o 3P (vendas por terceiros), enfrentam dificuldades críticas em garantir a integridade e a segurança desses produtos. Como aponta o relatório da XP:
“O Mercado Livre foca em modelos 3P, onde players menores têm desvantagens em preços, armazenamento de GLP-1 e segurança.”
Projeções financeiras e o impacto da 4Bio
Para o primeiro trimestre de 2026, a expectativa é de resultados operacionais sólidos. O indicador SSS (Same Store Sales ou Vendas em Mesmas Lojas), que mede o crescimento das unidades abertas há mais de 12 meses, deve registrar alta de dois dígitos. As vendas brutas do varejo têm expansão projetada em 20,6%. A margem EBITDA (Lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização), uma medida de eficiência operacional, deve subir para 6,7%.
| Indicador Projetado (1T26) | Valor / Crescimento |
|---|---|
| Vendas Brutas Varejo | +20,6% (Anual) |
| Lucro Líquido | R$ 293 milhões |
| Crescimento do Lucro | +65,5% (Anual) |
| Margem EBITDA Ajustada | 6,7% |
| Valor da Venda 4Bio | R$ 600 milhões |
A alienação da 4Bio, unidade de medicamentos especiais, é outro fator determinante. Com o fechamento previsto para o segundo trimestre de 2026, a operação injetará R$ 600 milhões no caixa da empresa, pagos em seis parcelas. Embora a saída da unidade reduza o faturamento bruto consolidado em valores entre R$ 1,7 bilhão e R$ 3 bilhões, a rentabilidade final deve ser beneficiada. A XP elevou a projeção de lucro líquido em 12% para 2026 e 16% para 2027, refletindo ganhos fiscais e uma melhor composição de margens no varejo puro.
O que isso significa para o investidor
Do ponto de vista de valuation (avaliação de valor), a RD Saúde negocia atualmente a múltiplos que os analistas consideram convidativos. O índice P/L (Preço sobre Lucro) está em 21 vezes, consideravelmente abaixo da média histórica de 30 vezes. Além disso, o PEG Ratio (relação entre o P/L e o crescimento esperado do lucro) situa-se em 0,7x. Na teoria financeira, um PEG Ratio abaixo de 1,0 indica que a ação pode estar barata em relação ao seu potencial de crescimento.
O cenário macroeconômico, com a manutenção de taxas de juros em patamares elevados, tende a penalizar empresas de crescimento, mas a RD Saúde é vista como um ativo defensivo devido à natureza essencial de seus produtos. Os benefícios fiscais derivados do pagamento de JCP (Juros sobre Capital Próprio) — uma forma de distribuir lucro aos acionistas que gera dedução de impostos para a empresa — também contribuem para a robustez do lucro líquido projetado de R$ 293 milhões no trimestre.
Fatores de Risco
Apesar do otimismo, os investidores devem monitorar pontos de atenção que podem alterar a trajetória da tese:
- Ruptura de estoque: Novas falhas na cadeia de suprimentos global de medicamentos GLP-1 podem limitar o crescimento de curto prazo.
- Execução da concorrência: Uma aceleração mais eficiente do que o esperado por parte de competidores digitais no segmento de medicamentos isentos de prescrição.
- Mudanças regulatórias: Alterações na legislação de vendas de medicamentos em canais não farmacêuticos ou mudanças na tributação do JCP.
- Integração pós-venda: O impacto operacional da saída definitiva da 4Bio na estrutura de custos fixos da companhia.
Perspectiva e Próximos Passos
O mercado estará atento à divulgação dos resultados oficiais do primeiro trimestre de 2026 para confirmar se a expansão das margens e o ritmo das vendas em mesmas lojas seguem a trajetória prevista pela XP. O catalisador mais imediato, contudo, reside na confirmação da entrada dos genéricos de semaglutida no segundo semestre, o que poderá redefinir o volume de tráfego nas lojas físicas e consolidar a RD Saúde como o principal balcão de saúde e bem-estar do país. Com um CAGR (Taxa de Crescimento Anual Composta) de lucro esperado em torno de 30%, a empresa se posiciona como um dos nomes de maior visibilidade no varejo brasileiro atual.
