A XP Asset lançou nesta semana o REAL11, ETF que mistura uma carteira de títulos públicos pós-fixados com a venda de dólar futuro em volume equivalente a 100% do patrimônio líquido. A cota inicial é de R$ 50, a taxa de administração é de 0,20% ao ano, a tributação é de 15% sobre o ganho e a liquidação ocorre em D+2. O dado que muda a conta do investidor pessoa física é outro: cada minicontrato de dólar da B3 movimenta US$ 10.000, exposição que até hoje empurrava essa combinação para fundos multimercados e para o estrangeiro.

O obstáculo de US$ 10.000 que a cota de R$ 50 contorna

Montar a estratégia por conta própria pede margem, controle de vencimentos e familiaridade com derivativos — três custos que o tamanho do contrato da B3 torna altos no varejo. O ETF transfere a operação para a gestora, que executa a rolagem mensal (a substituição dos contratos que vencem por outros de vencimento seguinte) e reajusta a posição vendida conforme o patrimônio do fundo varia. O cotista, portanto, fica com a estratégia e não com a papelada.

Segundo Danilo Gabriel, head de Fundos Indexados e ETFs da XP Asset, “O ETF REAL11 traz para o investidor uma estratégia que, tradicionalmente, exige maior conhecimento técnico e acompanhamento constante das operações. Ao reunir títulos públicos e a venda de contratos futuros de dólar em um único ETF, conseguimos simplificar o acesso ao diferencial de juros entre Brasil e Estados Unidos, com uma gestão sistemática e sem a necessidade de o investidor operar diretamente no mercado de derivativos”.

Duas pernas: LFT de um lado, dólar vendido do outro

A mecânica tem duas fontes de retorno. Na primeira, o fundo carrega LFTs — Letras Financeiras do Tesouro, papéis públicos pós-fixados cuja rentabilidade acompanha de perto a Selic — de vencimentos curtos e intermediários, e usa exatamente esses títulos como garantia (margem) das operações com derivativos. Na segunda, vende contratos futuros de dólar em montante próximo ao patrimônio, o que equivale a ficar comprado em real frente à moeda americana: se o real se valoriza, a perna do derivativo ajuda; se se desvaloriza, ela pode consumir parte do rendimento dos títulos.

Na decomposição que a própria XP Asset faz do produto, 61% do resultado esperado vêm da remuneração dos papéis públicos atrelados à Selic e os 39% restantes, do diferencial de juros embutido nos contratos futuros de dólar. Com a Selic em 13,75% ao ano, esse diferencial é o que o mercado chama de carry: o ganho obtido ao receber a taxa de juros alta de um país e pagar a taxa baixa de outro — no caso, a americana. A conta só fecha enquanto a distância entre os dois juros existir, e o resultado final segue exposto ao câmbio.

Duas semanas, dois lançamentos da mesma casa

O REAL11 chega ao mercado duas semanas depois de outro ETF da XP Asset, o XVAL11, que entrou na B3 em 5 de outubro e réplica o Índice Giant Valor Brasil, desenvolvido com a Giant Steps Capital.

ProdutoEstratégiaTaxa de administraçãoOutros pontos
REAL11LFTs + venda de dólar futuro0,20% ao anocota de R$ 50; tributação de 15%; liquidação em D+2
XVAL1160 ações brasileiras, fator Valor0,50% ao anoréplica do Índice Giant Valor Brasil; rebalanceamento mensal; na B3 desde 5 de outubro

O XVAL11 usa o fator Valor (Value), modelo sistemático que procura companhias negociadas a preços baixos em relação aos seus fundamentos, avaliando lucro, resultado operacional e geração de caixa. A seleção das 60 ações é quantitativa e a carteira é revisada todo mês.

O que o investidor passa a enxergar

Os dois produtos apontam para a mesma direção: empacotar em uma única cota de bolsa estratégias que antes exigiam conta em derivativos, depósitos de margem e acompanhamento diário de vencimentos. No caso do REAL11, a leitura mais útil está na proporção entre as pernas. Um produto vendido como exposição ao real tem quase dois terços do retorno esperado vindos de juros, não de moeda — o que ajuda a separar o que é aposta cambial e o que é, na prática, uma posição em Selic com um derivativo acoplado. Em períodos de juro alto, o carry tende a favorecer estruturas assim; em episódios de estresse cambial, a perna vendida em dólar historicamente costuma devolver parte desse ganho.