A percepção de risco corporativo no Brasil atravessa uma mudança estrutural, onde a volatilidade do preço de commodities e a interrupção de negócios lideram as preocupações dos executivos nacionais, segundo a Pesquisa Global de Gestão de Riscos 2026 da consultoria Aon. O levantamento, que ouviu 2.941 executivos em 63 países, revela especificidades do mercado local, onde a dependência de infraestrutuara logística e a sensibilidade às mudanças climáticas desenham um cenário de cautela.

O cenário macroeconômico e a exposição externa

O estudo foi realizado antes da recente interrupção no Estreito de Ormuz, o que evidencia um ambiente de negócios já pressionado por fatores macroeconômicos e operacionais. Em uma economia de base exportadora como a brasileira, a dependência de rotas comerciais globais torna a infraestrutura logística um ponto crítico. Isso justifica a posição de destaque ocupada pela interrupção de negócios no ranking atual.

Um dado que diferencia o Brasil da média global é a exposição à moeda estrangeira. A variação da taxa de câmbio figura na 5ª posição de riscos no Brasil, enquanto não aparece nem no top 10 global. O impacto financeiro dessa volatilidade é expressivo: 67,4% das empresas brasileiras ouvidas relataram perdas financeiras associadas a flutuações cambiais nos últimos 12 meses.

Clima e Segurança Digital: prioridades locais e globais

Enquanto o risco cibernético ocupa a 1ª posição no ranking global, ele aparece em 3º lugar no Brasil. Apesar da posição um pouco inferior à média mundial, o nível de preparação das companhias nacionais é alarmante: apenas 24,7% das empresas brasileiras possuem planos estruturados para lidar com ataques ou vazamentos de dados.

No quesito ambiental, a relevância é puramente local. Mudanças climáticas e desastres naturais figuram entre as dez principais ameaças no país, ocupando a e 10ª posições, respectivamente, mas não constam no ranking global atual. Isso sinaliza uma urgência maior para setores expostos a intempéries e eventos extremos no território nacional.

Projeções para os próximos três anos

Segundo Alexandre Jardim, head of Commercial Risk Solutions para o Brasil na Aon, a identificação estruturada de riscos deixou de ser apenas defensiva para se tornar um diferencial competitivo. A consultoria projeta, para o horizonte até 2028, uma guinada na liderança do ranking, com o preço de insumos e fatores regulatórios ganhando tração.

Confira a projeção dos principais riscos para o Brasil nos próximos anos, comparada ao ranking atual:

Tipo de Risco Posição Atual (Aproximada) Relevância em Projetos Futuras
Preço de Commodities / Escassez Destaque (Liderança atual) Líder na projeção
Mudanças Climáticas 8ª posição Segundo lugar na projeção
Regulatórios e Legislativos Não especificado no top atual Terceiro lugar na projeção
Interrupção de Negócios Líder atual Quarto lugar na projeção
Taxa de Câmbio 5ª posição Quinto lugar na projeção

Essa perspectiva reforça a sensibilidade do mercado nacional às pressões inflacionárias sobre insumos e à crescente agenda ambiental, fatores decisivos para a rentabilidade futura do agronegócio e da indústria.

O que isso significa para o investidor

Para o investidor pessoa física, a migração do eixo de riscos de "interrupção de operações" para "volatilidade de preços e clima" indica que as empresas mais resilientes são aquelas que fazem hedge natural (via exportação) ou financeiro de seus custos. A alta no preço de commodities pode beneficiar balancetes de gigantes agrícolas e mineradoras, mas pressionar margens de indústrias que não conseguem repassar custos (reprecificação) para o consumidor final.

A fragilidade no gerenciamento de riscos cibernéticos representa um risco idiossincrático: mesmo empresas com bons fundamentos podem sofrer eventos de cauda que destruam valor subitamente devido à falta de planos de contingência robustos.

Volatilidade Geopolítica

Apesar de figurar apenas no 9º lugar no ranking global — o que Leonardo Coelho, CEO da Aon no Brasil, atribui ao fato de o estudo ser anterior à escalada de conflitos no Oriente Médio —, a instabilidade geopolítica é o risco que mais cresce. Seus impactos transversais afetam energia, transporte e a própria disponibilidade e o custo de seguros (resseguro).

Os efeitos práticos já são observados nos setores marítimo e de aviação, com reprecificação de apólices e revisão de rotas comerciais, gerando um efeito cascata que tende a impactar a eficiência operacional da cadeia produtiva brasileira no longo prazo.

As informações deste editorial foram produzidas pela redação do Ativo Virtual com base em reportagem publicada pelo(a) InfoMoney. Este conteúdo tem caráter exclusivamente informativo e não constitui recomendação de investimento. Decisões financeiras devem ser tomadas com o auxílio de um profissional certificado.