A Sabesp (SBSP3) sinalizou uma mudança robusta em seu posicionamento estratégico após o processo de desestatização. Em conferência realizada nesta terça-feira, 17 de março, o presidente-executivo da companhia, Carlos Piani, destacou que a gigante do saneamento paulista possui apetite para grandes ativos fora do Estado de São Paulo, priorizando escala em suas movimentações de M&A (Mergers and Acquisitions — Fusões e Aquisições). O executivo enfatizou que a companhia busca oportunidades inorgânicas — ou seja, crescimento via compra de outras empresas — onde o tamanho do projeto seja relevante para a estrutura de capital da Sabesp.

Expansão interestadual e o radar na Copasa (CSMG3)

Um dos pontos centrais da fala de Piani foi o interesse declarado no processo de desestatização da Copasa (CSMG3), a companhia de saneamento de Minas Gerais. Entretanto, o movimento não é imediato e depende de uma variável regulatória e operacional de peso: a renovação do contrato de serviço da Copasa na capital, Belo Horizonte. Segundo o CEO, a demora na conclusão deste novo acordo é um fator impeditivo momentâneo para a definição das condições econômicas do negócio.

Para a Sabesp, a clareza sobre o contrato em Belo Horizonte é considerada "crítica". Sem essa definição, o valuation (valor estimado da empresa) e a viabilidade da participação no leilão mineiro permanecem sob análise cautelosa. Essa postura reforça o tom pragmático da nova gestão, que busca evitar riscos excessivos em contratos sem segurança jurídica de longo prazo.

Estratégia defensiva no mercado paulista

Enquanto o foco externo mira grandes operações, o cenário dentro do Estado de São Paulo é tratado com uma lógica de defesa de território e otimização operacional. Piani esclareceu que, em solo paulista, a empresa prefere acordos de menor porte que complementem sua área de atuação atual. Um exemplo prático dessa tese foi a aquisição, anunciada em janeiro, de 90% da Sanessol (Saneamento de Mirassol), comprada da Iguá Saneamento.

Desempenho financeiro e remuneração ao acionista

A companhia também reportou seus números referentes ao quarto trimestre de 2025 (4T25). O lucro líquido ajustado atingiu R$ 1,9 bilhão, mantendo-se em patamar estável quando comparado ao mesmo período do ano anterior. Além do resultado operacional, o conselho de administração aprovou a distribuição de proventos e um reforço na estrutura de capital, conforme detalhado na tabela abaixo:

Indicador / EventoValor ReportadoData de Referência
Lucro Líquido Ajustado (4T25)R$ 1,9 bilhãoTrimestre encerrado em Dez/25
JCP (Juros sobre Capital Próprio)R$ 583,5 milhõesPosição acionária de 19/03
Aumento de CapitalR$ 169,2 milhõesDeliberado em Março/25

O JCP (Juros sobre Capital Próprio) é uma forma de distribuição de lucro que permite à empresa obter dedução fiscal, enquanto o investidor recebe o valor com retenção de 15% de Imposto de Renda na fonte. Para ter direito aos R$ 583,5 milhões aprovados, o investidor deve estar posicionado nas ações SBSP3 até o fechamento do pregão desta quinta-feira, 19 de março.

O que isso significa para o investidor

A nova postura da Sabesp indica que a empresa não quer ser apenas uma operadora regional eficiente, mas sim uma consolidadora do setor de saneamento no Brasil. A busca por "tamanho" fora de São Paulo sugere que a companhia pretende utilizar seu balanço fortalecido para capturar sinergias em outros estados, o que pode alterar o perfil da ação de uma pagadora de dividendos tradicional para uma empresa de crescimento (growth).

O interesse na Copasa coloca a Sabesp em um possível cenário de disputa por ativos de alta qualidade, o que exige atenção do investidor quanto à alavancagem financeira (nível de endividamento) necessária para tais aquisições. Por outro lado, a manutenção do lucro em R$ 1,9 bilhão demonstra resiliência operacional mesmo em meio a transições estruturais.

Riscos no radar

  • Risco Regulatório: A dependência da renovação do contrato de Belo Horizonte para avançar sobre a Copasa mostra como a política local pode afetar o cronograma de expansão.
  • Execução de M&A: Grandes aquisições trazem o desafio de integração cultural e operacional, especialmente fora da base geográfica original da companhia.
  • Custo de Capital: Movimentações inorgânicas de grande porte em um cenário de Selic elevada podem pressionar as despesas financeiras da Sabesp no curto prazo.

O mercado deve monitorar agora os desdobramentos em Minas Gerais e a integração das operações de menor porte, como a Sanessol, que servirão de termômetro para a capacidade da gestão Piani em entregar o crescimento prometido. A data de corte para os proventos nesta quinta-feira (19) é o próximo gatilho de curto prazo para a volatilidade dos papéis.

As informações deste editorial foram produzidas pela redação do Ativo Virtual com base em reportagem publicada pelo(a) InfoMoney. Este conteúdo tem caráter exclusivamente informativo e não constitui recomendação de investimento. Decisões financeiras devem ser tomadas com o auxílio de um profissional certificado.