O quarto trimestre fiscal de 2026 da Starbucks, encerrado em 27 de setembro e divulgado em 29 de outubro, depois do fechamento do mercado, fechou com lucro líquido de US$ 677,2 milhões. O valor representa avanço de 408,8% sobre os US$ 133,1 milhões do mesmo intervalo do ano fiscal anterior — um salto que, lido isoladamente, diz mais sobre a nova arquitetura societária da companhia na China do que sobre a venda de cafés nas lojas.

A receita seguiu na direção oposta: US$ 9,141 bilhões, recuo de 4,5% na comparação anual. Lucro multiplicado por cinco com faturamento em queda é a combinação que exige uma segunda leitura do balanço — e é nessa camada que o resultado deixa de ser número de manchete para virar informação útil a quem acompanha o papel.

Consenso de mercado: acerto no lucro, erro no faturamento

O lucro por ação saiu de US$ 0,12 para US$ 0,59. Na base ajustada, avançou 54%, para US$ 0,80. Analistas consultados pela FactSet projetavam US$ 0,72 de ganho ajustado e US$ 9,22 bilhões em vendas: a companhia superou a expectativa de lucro e ficou abaixo da de receita. O descompasso reforça que parte da melhora no resultado não nasceu do caixa das lojas.

O gatilho contábil por trás do recuo do faturamento

A origem da queda de receita é societária, não comercial. As unidades chinesas migraram para um formato licenciado depois que a Starbucks vendeu sua fatia majoritária no país à Boyu Capital, mantendo 40% do negócio e a titularidade da marca — incluindo a responsabilidade pela propriedade e pelo licenciamento dentro da parceria.

Quando uma rede deixa de consolidar lojas próprias e passa a operá-las sob licença, o faturamento bruto dessas unidades deixa de entrar integralmente na linha de receita. O topo do demonstrativo encolhe sem que isso signifique, necessariamente, menos consumo de café ou piora na rentabilidade por ponto de venda. A contrapartida tende a vir na forma de licenciamento e royalties, com menos custo operacional embutido — o que ajuda a explicar a distância entre lucro e receita neste trimestre.

Mesmas lojas sobem 7,2%, com tráfego e tíquete no azul

O dado que mede a saúde da operação é outro. As vendas em unidades abertas há pelo menos um ano — o indicador de mesmas lojas, que isola o efeito de inaugurações — cresceram 7,2% no consolidado global. O avanço veio dos dois lados: o volume de transações subiu 1,8% e o tíquete médio, 5,2%.

Abrindo por região, a América do Norte registrou alta de 7,9%, com os EUA em 7,7%. O segmento internacional, onde o efeito China pesa mais, avançou 0,9% — um retrato de recuperação desigual que o número consolidado esconde.

303 inaugurações líquidas e um ano fiscal de 53 semanas

A rede abriu 303 lojas no trimestre, já descontados os fechamentos, e chegou ao fim de setembro com 41.607 unidades no mundo: 32% próprias e 68% licenciadas. Os EUA concentravam 40% do portfólio, com 16.781 lojas.

Para o ano fiscal de 2027, que terá 53 semanas em vez das 52 habituais, a empresa projeta lucro ajustado entre US$ 3,15 e US$ 3,25 por ação.

Indicador4º tri AF2026Referência
Lucro líquidoUS$ 677,2 milhões+408,8% a/a
Lucro por açãoUS$ 0,59ante US$ 0,12
Lucro ajustado por açãoUS$ 0,80+54% a/a
Receita líquidaUS$ 9,141 bilhões-4,5% a/a
Mesmas lojas globais+7,2%transações +1,8%; tíquete +5,2%
Lojas em setembro41.60732% próprias, 68% licenciadas
Lucro ajustado AF2027 (projeção)US$ 3,15 a US$ 3,25ano fiscal de 53 semanas

O que passa a pesar na leitura de SBUB34

Quem acompanha a Starbucks pela B3 negocia o SBUB34, recibo lastreado em ações da companhia listadas nos EUA. O resultado é apurado em dólar e chega ao investidor local atravessado pelo câmbio, fator que historicamente amplia a volatilidade do papel em dias de balanço.

Há ainda dois pontos de comparabilidade a monitorar. O primeiro é a base de receita: com a China em modelo licenciado, os próximos trimestres serão confrontados com uma estrutura de faturamento menor do que a de períodos anteriores à venda do controle. O segundo é o calendário — as 53 semanas do ano fiscal de 2027 tendem a inflar a base de comparação contra 2026, distorcendo percentuais de crescimento para cima e para baixo conforme a linha analisada.

Para quem tem exposição ao nome, o trimestre sugere uma leitura de duas camadas: o lucro recorde responde à reorganização societária, enquanto o termômetro real da operação está no 7,2% de mesmas lojas, sustentado por mais transações e tíquete maior. É esse indicador, e não o salto percentual do lucro, que tende a determinar a consistência dos resultados nos próximos balanços.