Entre 19 e 25 de outubro, a Strategy não adquiriu nenhuma unidade de BTC, encerrando a série de aportes semanais que mantinha desde meados de setembro e direcionando US$ 204,9 milhões para a recompra de suas ações preferenciais STRC. O balanço divulgado pela companhia nesta segunda-feira (26) traz um segundo dado relevante: nenhum papel foi vendido no período pelo programa de oferta no mercado. O at-the-market (ATM) é o mecanismo pelo qual uma empresa de capital aberto emite ações de forma gradual para captar recursos.

O arquivamento entregue à SEC, a comissão de valores mobiliários dos Estados Unidos, desenha uma tesouraria que trocou a ampliação da posição em Bitcoin pelo enxugamento de capital — movimento incomum para uma companhia cujo modelo de negócio é justamente acumular criptomoeda em balanço.

Recompra recorde drenou o caixa em dólar

O programa absorveu 2.068.459 ações preferenciais STRC, o maior volume semanal já registrado pela empresa. Na semana imediatamente anterior, o desembolso havia sido de US$ 193,1 milhões; na anterior a essa, de US$ 192,4 milhões. Vale notar que as preferenciais americanas (preferred shares) têm função distinta das preferenciais negociadas na B3, sem a mesma lógica de prioridade sobre dividendos.

O pagamento saiu integralmente do USD Cash, a conta em dólares usada para finalidades gerais, entre elas a compra de Bitcoin. O saldo encolheu de US$ 447,3 milhões para US$ 242,4 milhões em sete dias. Já a reserva em dólares (USD Reserve), segregada para honrar dividendos das preferenciais e juros da dívida, permaneceu estável em US$ 4,83 bilhões.

MétricaValorLeitura
Caixa em dólar (USD Cash)US$ 242,4 milhõesqueda ante US$ 447,3 milhões
Reserva em dólar (USD Reserve)US$ 4,83 bilhõesestável; cobre dividendos e juros
Recompra de preferenciais STRCUS$ 956,8 milhões disponíveisdentro do limite de US$ 3 bilhões
Recompra de ordinárias MSTRUS$ 1 bilhão restantelinha separada
Posição em Bitcoin848.517 BTCcusto total de US$ 64,02 bilhões
Preço médio de aquisiçãoUS$ 75.446 por moedareferência de custo da tesouraria

O teto do programa de preferenciais foi ampliado de US$ 2 bilhões para US$ 3 bilhões há apenas uma semana, o que explica o fôlego ainda disponível após a recompra recorde.

O ritmo de compras já vinha perdendo força

Antes do intervalo, a Strategy reduzia o tamanho dos aportes em BTC de forma consecutiva: 267 BTC por US$ 22,1 milhões, depois 250 BTC por US$ 21,5 milhões e, na sequência, US$ 29 milhões na semana em que a companhia registrou ganho de US$ 21 bilhões no terceiro trimestre.

O estoque acumulado soma 848.517 moedas, com desembolso de US$ 64,02 bilhões e média de US$ 75.446 por unidade. É esse número que serve de régua para medir o resultado contábil da tesouraria quando o preço de mercado oscila.

A nova regra da MSCI e o risco de venda forçada

A pausa nas compras ocorre em um momento delicado na relação com os provedores de índice. Em 15 de outubro, a MSCI concluiu norma que trata como não operacionais — ou seja, balanços dominados por um único ativo — as companhias que deixam de ser elegíveis aos Índices de Mercado Global Investível. O corte passa a valer no fechamento de 30 de novembro, e a lista de empresas afetadas será publicada em 11 de novembro.

A consequência prática é direta: fundos que replicam esses índices teriam de vender os papéis excluídos, o que adicionaria pressão de oferta sobre MSTR e, por transbordamento, sobre o humor do mercado de criptoativos. Michael Saylor, presidente da Strategy, já havia pedido publicamente que a MSCI recuasse da regra que classificou como discriminatória.

O que observar daqui para frente

Três frentes concentram a atenção de quem acompanha a empresa como proxy de exposição a Bitcoin — inclusive por meio de veículos listados na B3 que replicam o desempenho da criptomoeda.

  1. Fôlego de caixa. Com o USD Cash em US$ 242,4 milhões e a reserva de US$ 4,83 bilhões comprometida com dividendos e juros, a capacidade de novas compras à vista sem emissão de ações ficou bem menor do que nas semanas anteriores.
  2. Prioridade de alocação. A empresa escolheu devolver capital aos detentores de preferenciais em vez de ampliar a posição em BTC. Se o padrão persistir por mais semanas, muda a narrativa que sustentou o múltiplo do papel nos últimos meses.
  3. Calendário da MSCI. As datas de 11 e 30 de novembro funcionam como evento binário: inclusão na lista de afetadas abre espaço para fluxo vendedor obrigatório; exclusão mantém a base de investidores passivos intacta.

A leitura de curto prazo é que a companhia trocou a agressividade na acumulação de Bitcoin por gestão de passivo e defesa do preço das ações. Para o investidor brasileiro, o recado prático é separar o preço do BTC do preço do papel: MSTR passou a carregar um risco regulatório de índice que a criptomoeda em si não tem.