O governo de Donald Trump implementou tarifas de 10% sobre todas as importações, com vigência inicial de 150 dias, após a Suprema Corte invalidar alíquotas anteriores anunciadas no Liberation Day do ano passado. Essa ação protecionista reacende discussões sobre o acordo comercial entre Mercosul (bloco sul-americano liderado pelo Brasil, que inclui Argentina, Paraguai e Uruguai) e União Europeia (UE), já assinado mas parado na análise jurídica da Corte de Justiça da UE devido a controvérsias com produtos agrícolas.

Protecionismo americano como possível catalisador

A instabilidade nas políticas comerciais dos Estados Unidos pode impulsionar indiretamente o processo de ratificação do pacto Mercosul-UE. Alexandre Lucchesi, coordenador do Grupo de Trabalho sobre América Latina no Observatório de Política Externa Brasileira (Opeb) da Universidade Federal do ABC (UFABC), vê o vaivém tarifário como um fator que pressiona setores europeus não agrícolas — favoráveis ao acordo — a buscar estabilidade via diversificação de fornecedores. Ele interpreta a nova rodada de tarifas como uma escalada na estratégia de Trump para reforçar a posição americana, criando um ambiente onde França e Alemanha, apesar de resistências políticas, enfrentam argumentos por parcerias alternativas aos EUA.

O vaivém tarifário americano atua como um acelerador subjetivo para as negociações europeias.

Lucchesi projeta que qualquer influência seria para agilizar o trâmite, fortalecendo vozes pró-acordo na UE.

Entraves europeus independentes do cenário americano

Verônica Cardoso, diretora da consultoria LCA e expert em comércio internacional, contesta ligação direta entre as tarifas de Trump e o desbloqueio do acordo. Os obstáculos remanescentes, travados por questões jurídicas e políticas ligadas ao agronegócio, seguem uma dinâmica interna da UE, alheia à movimentação protecionista nos EUA. Cardoso observa que a tarifa universal de 10% — superior à média de cerca de 3% aplicada em 2024 — paradoxalmente restaura previsibilidade, uniformizando condições para exportadores globais, inclusive brasileiros e chineses, em oposição à seletividade anterior.

Interferência americana só ocorreria se a UE priorizasse commodities dos EUA sobre as brasileiras, hipótese ausente no momento. Assim, os motivos de questionamento europeu persistem inalterados.

Antecipação de exportações brasileiras aos EUA

Com o acordo Mercosul-UE em compasso de espera por resistências do setor agrícola europeu e formalidades jurídicas, o foco imediato recai sobre a balança comercial (registros de exportações e importações) Brasil-EUA. Exportadores preveem corrida para antecipar embarques nos próximos meses, explorando a janela de 150 dias antes de eventuais ajustes tarifários. Cardoso destaca que, apesar do encarecimento em relação a 2024, a alíquota plana beneficia competitividade brasileira frente a rivais asiáticos sob o mesmo peso.

O que isso significa para o investidor

Investidores pessoa física expostos a empresas exportadoras de commodities enfrentam volatilidade cambial e logística agravadas pelo protecionismo global, com potencial alta no dólar ante o real pressionando margens em reais. Cenário otimista: aceleração do acordo Mercosul-UE abre mercados europeus, diversificando receitas além dos EUA e atenuando riscos tarifários. Pessimista: prolongamento de entraves europeus e escalada americana elevam custos, num contexto de Selic (taxa básica de juros) elevada e IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo, medida oficial de inflação) pressionado por câmbio. Monitore balança comercial mensal via Ministério da Economia e decisões da Corte de Justiça da UE, além de indicadores do Ibovespa (principal índice da B3, bolsa brasileira) sensíveis a fluxos externos.

Riscos

  • Resistência política na UE, especialmente França e Alemanha, ao agronegócio brasileiro, adiando ratificação parlamentar.
  • Escalada tarifária americana além dos 150 dias, encarecendo exportações e comprimindo lucros de empresas dependentes dos EUA.
  • Paradoxo de tarifas uniformes: benefício relativo de isonomia, mas custo absoluto maior que os 3% prévios de 2024.
  • Desconexão entre agendas externa e interna europeia, mantendo acordo em limbo jurídico.

Os próximos marcos incluem a conclusão da revisão jurídica pela Corte de Justiça da UE e reavaliação das tarifas americanas após os 150 dias, com exportadores atentos a prazos logísticos e potenciais negociações bilaterais Brasil-EUA. Qualquer sinal de ratificação parlamentar acelera, enquanto novas ações de Trump testam resiliência da balança comercial brasileira.