Taxas de juros futuras registraram recuo acentuado na sessão desta terça-feira, impulsionadas pela dinâmica positiva do mercado internacional e pela ata recente do Comitê de Política Monetária (Copom, órgão do Banco Central responsável por definir a taxa Selic). O DI (Depósito Interfinanceiro, taxa que reflete o custo médio de captação dos bancos e norteia a curva de juros brasileira) para janeiro de 2028 fechou em queda de 14 pontos-base, ajustando-se a 13,825%. Na ponta longa da curva, o DI para janeiro de 2035 recuou 4 pontos-base, encerrando o pregão a 13,865%. O movimento acompanhou o alívio nos rendimentos dos Treasuries (títulos da dívida pública dos Estados Unidos) e a leitura de que o ritmo de flexibilização monetária doméstica seguirá estável.

Ajuste na Curva de Juros e Referências Globais

A desvalorização dos contratos futuros de juros no Brasil espelhou diretamente o comportamento do mercado externo. Às 16h37, o retorno do título norte-americano de dez anos — principal benchmark global para precificação de ativos de renda fixa e variável — operava a 4,418%, registrando baixa de 3 pontos-base frente ao ajuste anterior. Essa correlação reforça a sensibilidade da curva brasileira aos fluxos internacionais de capital.

Historicamente, a convergência entre as taxas domésticas e as norte-americanas indica uma precificação mais equilibrada do prêmio de risco. No pregão local, a taxa do DI para janeiro de 2028 partiu de 13,966% na véspera, enquanto o contrato para janeiro de 2035 vinha de 13,905%. A compressão nos spreads demonstra que os agentes econômicos precificam uma trajetória de queda, ainda que gradual, para a política monetária.

Ativo / VencimentoFechamento AtualVariação (p.b.)Ajuste Anterior
DI Jan 202813,825%-1413,966%
DI Jan 203513,865%-413,905%
US Treasury 10 anos4,418%-34,448%

Diretrizes do Copom e Expectativas de Inflação

A divulgação da ata da última reunião trouxe um tom de prudência estratégica. O comitê sinalizou que a persistência do conflito no Oriente Médio eleva a probabilidade de choques estruturais na economia global. A autoridade monetária destacou que a prolongada tensão já se traduz em riscos materiais, com destaque para a desancoragem (processo de perda de aderência das projeções em relação ao alvo estipulado) das expectativas de inflação em horizontes estendidos, especialmente para o ano de 2028.

No último boletim Focus (relatório semanal do Banco Central que compila a mediana das projeções de agentes do mercado), o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo, principal indicador oficial de inflação no Brasil) para 2028 foi projetado em 3,64%. O número representa um aumento em relação aos 3,60% apurados há um mês e permanece acima da meta de 3% perseguida pela instituição.

Rafaela Vitoria, economista-chefe do Inter, observa que a combinação de petróleo elevado por mais tempo e a subida das expectativas de longo prazo já levou o mercado a ajustar seu cenário para um ritmo de corte mais lento e uma taxa terminal (nível final da taxa básica de juros ao fim de um ciclo de afrouxamento monetário) mais alta. Dessa forma, a ata não trouxe surpresas. Gino Olivares, da Azimut Brasil Wealth Management, reforça que a ausência de debates sobre alternativas ao corte de 25 pontos-base na ata de abril — diferentemente de março — indica que o comitê enxerga esse intervalo como o passo apropriado de calibração. A curva de juros, por sua vez, precifica cerca de 65% de probabilidade para um novo ajuste de 25 pontos-base em junho, contra 35% de chance de manutenção da taxa em 14,50% ao ano.

Geopolítica e Dinâmica do Mercado Externo

O otimismo que permeou a sessão ocorreu em meio a um cenário geopolítico tenso, mas com sinais de estabilização na precificação de ativos de risco. O Estreito de Ormuz, rota crítica para o escoamento de petróleo global, segue sob disputa. O secretário de Defesa dos EUA, Pete Hegseth, afirmou que o cessar-fogo com o Irã permanece ativo, apesar de trocas de disparos no Golfo Pérsico pelo controle da hidrovia. Paralelamente, o presidente Donald Trump minimizou a capacidade militar iraniana, sugerindo que Teerã deveria se render, mas é impedido pelo orgulho nacional.

Apesar das hostilidades, a reação dos mercados apontou para uma redução nos prêmios de risco, com a queda simultânea dos preços do barril de petróleo e dos rendimentos dos títulos norte-americanos. Esse ambiente favorece a liquidez global e alivia pressões sobre moedas de países emergentes.

O que isso significa para o investidor

A convergência entre a queda dos Treasuries e a sinalização do Copom cria um ambiente de precificação mais clara para os ativos de renda fixa. O investidor deve observar que a taxa terminal mais elevada e os cortes em ritmo de 25 pontos-base indicam uma curva de juros com inclinação suave. Para carteiras atreladas ao CDI (Certificado de Depósito Interbancário, taxa que acompanha a Selic e serve de referência para investimentos conservadores), a manutenção de níveis próximos a 13,80%-14,50% ainda oferece um carregamento (carry) atrativo, desde que a inflação de longo prazo não se desconecte permanentemente da meta. A estratégia de duration (sensibilidade de um título de renda fixa às variações de taxas de juros) exige monitoramento contínuo dos dados macroeconômicos e do boletim Focus.

Riscos Monitorados

  • Desancoragem inflacionária: Projeções de 2028 consistentemente acima de 3% podem limitar a amplitude dos cortes futuros e elevar o custo real da dívida pública.
  • Escalada geopolítica: Qualquer interrupção significativa no Estreito de Ormuz poderia disparar o preço do barril, pressionando novamente o IPCA e forçando o BC a interromper o ciclo de flexibilização.
  • Revisão de ciclo: Caso o mercado passe a precificar mais de 65% para cortes maiores ou menores que 25 pontos-base, a volatilidade na ponta longa da curva de juros pode aumentar abruptamente.

Os olhos do mercado permanecem fixos na trajetória do Boletim Focus e nos indicadores de inflação nos próximos meses. A confirmação do ritmo de 25 pontos-base em junho dependerá da convergência entre os dados domésticos de atividade e a manutenção da calmaria relativa nos mercados internacionais de commodities.

As informações deste editorial foram produzidas pela redação do Ativo Virtual com base em reportagem publicada pelo(a) InfoMoney. Este conteúdo tem caráter exclusivamente informativo e não constitui recomendação de investimento. Decisões financeiras devem ser tomadas com o auxílio de um profissional certificado.