Os rendimentos dos títulos do Tesouro Direto registraram alta na abertura desta quinta-feira (5), com os papéis atrelados ao IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo, principal medida oficial de inflação no Brasil) avançando até 10 pontos-base (unidade de medida equivalente a 0,01 ponto percentual) no vencimento de 2032, para 7,58%, acompanhando a valorização do dólar ante o real e o movimento dos Treasuries americanos.

Alta generalizada na curva prefixada

A modalidade prefixada, que oferece rentabilidade fixa independentemente da inflação, apresentou elevação em todos os prazos observados. O título com vencimento em 2029 passou de 12,87% para 12,97%, enquanto o de 2032 subiu de 13,43% para 13,52%. No extremo longo, o prefixado com pagamentos de juros semestrais em 2037 avançou de 13,60% para 13,69%, sinalizando maior aversão ao risco na porção estendida da curva de juros futuros DI (Depósito Interfinanceiro, referência para derivativos de taxa no mercado brasileiro).

Avanço nos títulos indexados à inflação

Os papéis do Tesouro IPCA+, que remuneram com uma taxa real acrescida da variação do IPCA, também subiram, com maior intensidade nos vértices iniciais da curva. A seguir, a tabela compara as taxas às 9h25 com os níveis de quarta-feira:

TítuloTaxa anterior (% a.a.)Taxa atual (% a.a.)Var. (pbs)
IPCA+ 20327,487,58+10
IPCA+ 20377,337,41+8
IPCA+ 20407,057,14+9
IPCA+ 20457,067,14+8
IPCA+ 20506,796,86+7
IPCA+ 20606,997,07+8

Fatores externos pressionam a curva

O ajuste acompanha o cenário global adverso, marcado pela escalada de ataques no Oriente Médio, agora envolvendo o Líbano, o que eleva temores sobre os preços da energia e pressões inflacionárias mundiais. Internamente, a retomada do dólar e o recuo nos Treasuries (títulos do Tesouro americano) contribuem para o movimento ascendente nos juros locais.

Dados do mercado de trabalho mantêm cautela doméstica

A PNAD Contínua (Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua, levantamento oficial do IBGE sobre emprego) revelou taxa de desocupação de 5,4% no trimestre até janeiro, alinhada às projeções, porém superior aos 5,1% do período anterior. Esse quadro reforça a robustez da economia brasileira.

Em um ambiente global mais adverso, um mercado de trabalho aquecido reduz o espaço para respostas monetárias mais agressivas e aumenta a sensibilidade do Brasil a choques inflacionários vindos do exterior.

Peterson Rizzo, gerente de Relações com Investidores da Multiplike

O diretor de Política Monetária do Banco Central, Nilton David, afirmou que persiste a sinalização de janeiro sobre uma "calibragem" da Selic (taxa básica de juros da economia brasileira) ainda em abril, com expectativa de redução na taxa.

O que isso significa para o investidor

Para o investidor pessoa física, a elevação das taxas oferece rentabilidades reais mais atrativas nos títulos públicos, especialmente em um contexto de Selic projetada para corte gradual e inflação ancorada ao redor do IPCA. Cenário otimista envolve resolução rápida das tensões geopolíticas, permitindo queda nos juros longos e ganho de capital em posições existentes. No pessimista, persistência do conflito e dólar elevado podem prolongar o ciclo de alta nas curvas, impactando alocações em renda fixa e exigindo monitoramento do câmbio frente ao CDI (Certificado de Depósito Interbancário, benchmark para renda fixa pós-fixada).

Riscos em foco

  • Escalada no Oriente Médio, com potencial para disparada nos preços de commodities energéticas e inflação importada.
  • Resiliência do emprego doméstico, limitando manobras expansionistas do Banco Central.
  • Volatilidade cambial, ampliando a exposição do Brasil a choques externos.

Os participantes do mercado monitoram o leilão de títulos prefixados promovido pelo Tesouro Nacional ao longo do dia, além de atualizações sobre a política monetária, para calibrar posições em renda fixa.