A revogação, por parte dos Estados Unidos, da licença que permitia a comercialização de petróleo iraniano provocou uma reação imediata nos mercados na reta final da sessão desta terça-feira, 7 de julho. O anúncio desencadeou alta nos rendimentos dos Treasuries (títulos da dívida pública norte-americana) e pressionou a curva de juros brasileira, com o Depósito Interfinanceiro (DI, taxa que baliza os custos de empréstimos entre bancos e reflete as expectativas para os juros futuros) para janeiro de 2025 saltando de 14,015% para a máxima de 14,160% em questão de minutos.
Transmissão Geopolítica ao Câmbio e Títulos Globais
O cenário de deterioração nas negociações de paz no Oriente Médio ganhou corpo após a agência vinculada à Marinha britânica (UKMTO) relatar que três petroleiros foram atingidos por projéteis desconhecidos no Estreito de Ormuz e arredores nos últimos dias. Uma autoridade norte-americana classificou as ações do Irã como "totalmente inaceitáveis", reforçando a pressão sobre o preço do barril. A incerteza acelerou a demanda por segurança global, levando o rendimento do Treasury de dez anos a subir 6 pontos-base (1 ponto-base equivale a 0,01% da taxa), atingindo 4,539% às 16h33. Simultaneamente, o dólar americano reagiu com valorização de 0,42%, cotado a R$ 5,15, embora acumule queda de 6,10% no ano frente ao real.
Reação da Curva de Juros Doméstica (DIs)
Até o início da tarde, as taxas futuras no Brasil demonstravam acomodação, beneficiadas por leilões de títulos públicos com volume contido. A notícia geopolítica inverteu o fluxo na reta final. Na ponta longa da curva a termo (que projeta as taxas de juros para vencimentos distantes), o DI para janeiro de 2028 encerrou a 14,14%, com alta de 10 pontos-base frente ao ajuste anterior de 14,043%. O DI para janeiro de 2035 recuou menos, finalizando a 14,37%, elevação de 5 pontos-base sobre o patamar de 14,321%.
| Vencimento DI | Taxa Anterior | Taxa de Fechamento | Variação (pontos-base) |
|---|---|---|---|
| Janeiro/2025 | 14,015% (mín. 15h33) | 14,160% (máx. 16h15) | +12 |
| Janeiro/2028 | 14,043% | 14,14% | +10 |
| Janeiro/2035 | 14,321% | 14,37% | +5 |
Estratégia do Tesouro e Dinâmica das NTN-B
Para evitar a validação de taxas reais (descontada a inflação projetada) excessivamente elevadas para as Notas do Tesouro Nacional — Série B (NTN-B), que vêm sendo negociadas acima de 8%, o Tesouro Nacional manteve a cautela. A pasta ofertou apenas 150 mil notas no pregão, volume próximo aos 134,4 mil títulos da semana passada e superior à oferta zerada de duas semanas antes. A estratégia reflete o alerta emitido pelo secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Rogério Ceron, em entrevista à Folha de S.Paulo na última sexta-feira, quando sinalizou disposição para intervir no mercado caso os juros reais continuem pressionados. Desde o final de semana, as taxas das NTN-B com vencimentos em agosto de 2032 e maio de 2035 cederam levemente, mas permanecem acima do patamar de 8%. Operadores lembram que, em março, o órgão já executou leilões de recompra de NTN-B para aliviar a curva durante picos de tensão no Golfo. Paralelamente, a venda de 1,5 milhão de Letras Financeiras do Tesouro (LFT, títulos atrelados à taxa básica de juros) manteve volume compatível com a média semanal.
Inflação (IGP-DI) e Reconfiguração das Apostas para a Selic
No front doméstico, a Fundação Getulio Vargas (FGV) divulgou deflação de 0,79% para o Índice Geral de Preços — Disponibilidade Interna (IGP-DI, indicador composto por atacado, consumidor e construção) em junho, revertendo a alta de 0,87% de maio e superando a mediana das projeções, que previa recuo de 0,60%. No acumulado de 12 meses, o índice soma 3,59%. O dado, somado aos recentes sinais da autoridade monetária, reforçou a precificação de afrouxamento da política monetária. Contratos de opções de juros negociados na B3, com atualização de sexta-feira, apontavam 72% de probabilidade de corte de 25 pontos-base na taxa Selic (atualmente em 14,25% ao ano) na reunião de agosto, contra apenas 25,9% de chance de manutenção. O cenário inverteu-se drasticamente em relação a 19 de junho, quando o mercado atribua 26% de chance ao corte e 68,5% à manutenção.
O que isso significa para o investidor
A transmissão de choques geopolíticos para a curva doméstica evidencia a sensibilidade do Brasil a variáveis externas, especialmente quando a política monetária ainda não consolidou um ciclo de flexibilização. Para carteiras de renda fixa, a volatilidade recente exige atenção à marcação a mercado: enquanto títulos prefixados e NTN-B sofrem com o estiramento das curvas (queda no preço secundário), as LFTs e fundos pós-fixados atrelados ao CDI mantêm a proteção contra a alta dos juros. A deflação do IGP-DI oferece um alento para a inflação de curto prazo, mas o desafio persiste na ancoragem das expectativas para os juros reais de longo prazo. Investidores devem monitorar a postura do Tesouro em leilões subsequentes e a continuidade da venda de reservas cambiais caso o dólar reforce a trajetória de alta.
Cenários de Riscos Monitorados
- Escalada de conflitos no Estreito de Ormuz, podendo elevar o preço do petróleo e pressionar a inflação importada e o câmbio.
- Intervenção ativa do Tesouro Nacional via recompra de NTN-B, o que altera a oferta de títulos e impacta a liquidez e a formação das taxas reais no mercado secundário.
- Desancoragem das expectativas de inflação para 2025 e 2026, forçando o Comitê de Política Monetária a postergar o ciclo de cortes ou a magnitude das reduções na Selic.
- Volatilidade excessiva nos rendimentos dos Treasuries americanos, drenando capital de mercados emergentes e ampliando o prêmio de risco brasileiro.
Os próximos movimentos dependerão da evolução das tensões no Oriente Médio, dos dados de inflação e atividade econômica nos EUA e Brasil, e da comunicação formal do Banco Central no relatório de inflação e nas atas do Copom. A agenda de leilões do Tesouro para o corrente mês será o termómetro imediato da apetite do mercado por ativos indexados ao IPCA.
As informações deste editorial foram produzidas pela redação do Ativo Virtual com base em reportagem publicada pelo(a) InfoMoney. Este conteúdo tem caráter exclusivamente informativo e não constitui recomendação de investimento. Decisões financeiras devem ser tomadas com o auxílio de um profissional certificado.
