A interrupção das tratativas diplomáticas entre Irã e Estados Unidos, motivada por ofensivas no Líbano, provocou uma reprecificação imediata nos mercados globais de renda fixa e commodities. Na B3, a taxa dos DI (Depósitos Interfinanceiros, contratos futuros que funcionam como referência para juros e inflação no Brasil) para janeiro de 2028 avançou para 14,035%, acumulando alta de 15 pontos-base (centésimos de ponto percentual) ante o ajuste prévio de 13,889%.

Geopolítica e Reação das Commodities

A agência iraniana Tasnim comunicou que o time negociador suspendeu o diálogo mediado com Washington até que as operações militares israelenses no território libanês sejam encerradas. O anúncio elevou a aversão a risco, impulsionando os rendimentos dos Treasuries norte-americanos e levando o barril do petróleo Brent a superar a marca de US$ 97. Apesar do presidente Donald Trump afirmar que as conversas seguem em "ritmo acelerado" e que Israel recuou com tropas no sul do Líbano, o ceticismo dominou as negociações. O dólar à vista, por outro lado, fechou a sexta-feira com leve baixa de 0,24%, cotado a R$ 5,0453, enquanto o ouro recuou 1,89% na Comex, pressionado pela força do dólar e dos títulos americanos em um ambiente de inflação persistente.

Precificação da Curva de Juros e Cenário Copom

No mercado doméstico, a curva de juros a termo acompanhou o movimento externo. O DI para janeiro de 2035 registrou pico de 14,050% às 16h13 (alta de 11 pontos-base), fechando o pregão em 14,01% (+3 pontos-base em relação a 13,976%). O quadro externo intensifica o debate sobre a profundidade do ciclo de afrouxamento monetário pelo Banco Central. Dados consolidados da última quinta-feira mostram como as opções na B3 estão precificando as decisões do Copom (Comitê de Política Monetária):

ReuniãoCorte de 25 p.b.Manutenção em 14,50%Corte de 50 p.b.
Junho82,5%13,75%3,5%
Agosto43%40%12%

Nota-se uma drástica redução nas expectativas de continuidade dos cortes na segunda metade do ano, reflexo direto das incertezas fiscais e do prêmio de risco geopolítico embutido na curva.

Projeções Inflacionárias e Selic no Boletim Focus

O relatório Focus (levantamento semanal de expectativas de mercado do BC), divulgado na manhã desta segunda, manteve a mediana das projeções para a Selic em 13,25% para 2026 e 11,25% para 2027. A inflação, contudo, recebeu revisões ascendentes consistentes, sinalizando pressão de custos e desancoragem de expectativas de longo prazo:

AnoProjeção AnteriorNova Mediana
20255,04%5,09%
20264,01%4,02%
20283,65%3,66%

Vale notar que, desde o início do conflito no Oriente Médio em fins de fevereiro, a expectativa para 2028 já saltou de 3,50% para 3,66%, um movimento discreto, mas que preocupa autoridades monetárias pelo efeito cumulativo nos contratos indexados e pela dificuldade de ancorar o IPCA na meta.

O que isso significa para o investidor

A escalada dos juros futuros e a revisão das expectativas inflacionárias exigem um recalibramento das estratégias de alocação. O cenário atual aponta para um Copom mais cauteloso em agosto, possivelmente sinalizando uma pausa nos cortes caso a taxa básica se aproxime de patamares neutros. A valorização do petróleo e a desvalorização do ouro indicam que ativos de proteção tradicionais podem perder eficácia imediata frente à alta dos yields globais. Investidores em renda fixa devem monitorar a marcação a mercado de seus títulos prefixados, que tendem a sofrer oscilações de curto prazo, enquanto a renda variável enfrenta um custo de capital mais elevado, pressionando múltiplos de valuation e exigindo seletividade na escolha de emissores.

Riscos Monitorados

  • Escalada Geopolítica: A ruptura nas tratativas EUA-Irã pode estender conflitos regionais, sustentando os preços do petróleo e elevando o custo logístico global, o que pressiona cadeias produtivas.
  • Desancoragem de Expectativas: O foco do BC na inflação de 2028 revela preocupação estrutural, o que pode forçar uma política monetária mais contracionista do que o mercado atualmente precifica.
  • Volatilidade Cambial: A aversão a risco global tende a direcionar fluxos para moedas de reserva, pressionando o câmbio e importando inflação para a economia doméstica via custos de importação.

Os próximos movimentos do mercado dependerão da divulgação de dados de atividade econômica nos EUA, dos comunicados oficiais de Washington e Teerã, e da ata do Copom, que trará pistas sobre o viés de política monetária para o segundo semestre. O fluxo de informações geopolíticas continuará ditando a volatilidade nos preços de commodities e nos yields internacionais.

As informações deste editorial foram produzidas pela redação do Ativo Virtual com base em reportagem publicada pelo(a) InfoMoney. Este conteúdo tem caráter exclusivamente informativo e não constitui recomendação de investimento. Decisões financeiras devem ser tomadas com o auxílio de um profissional certificado.